Canções de Roberto Carlos inspiram o filme 'sentimental' 'À Beira do Caminho'

Diretor de 'Dois Filhos de Francisco', Breno Silveira busca novamente conquistar público pela emoção com história sobre caminhoneiro desiludido e criança órfã; leia entrevista

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

Da história de vida de Zezé di Camargo e Luciano, em "Dois Filhos de Francisco", para o romantismo de Roberto Carlos. A sonoridade muda um bocado, mas a temática, nem tanto. E é isso o que quer o diretor Breno Silveira. Inspirado pelas músicas do Rei, ele concebeu "À Beira do Caminho", a história de um caminhoneiro desiludido e uma criança órfã feita para emocionar. "Só gosto de trabalhar com emoção, é o que sei fazer", explica ele, "está na alma do brasileiro".

A expectativa é grande. Diretor de fotografia de filmes como "Carlota Joaquina" (1995), "Eu Tu Eles" (2000) e "O Homem do Ano" (2003), Breno estreou como cineasta em "Dois Filhos de Francisco", terceiro maior público da década do cinema brasileiro, com mais de 5 milhões de espectadores. A cinebiografia da dupla sertaneja venceu o preconceito e virou preferência nacional, inclusive representando o país naquele ano no Oscar.

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Se "Era Uma Vez..." (2008), versão carioca do clássico "Romeu e Julieta" não deu muito certo, o diretor aposta agora no carisma de Roberto Carlos para ganhar o carinho da plateia. "À Beira do Caminho" estreia no Brasil nesta sexta-feira (dia 10).

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João Miguel e o diretor Breno Silveira nas filmagens

A ideia partiu de Léa Penteado, jornalista bastante próxima de Roberto, autora, por exemplo, do livro "Um show em Jerusalém – O rei na Terra Santa". "Ela veio com 15, 20 linhas no máximo, um argumento que não tinha história desenvolvida", lembra Silveira ao iG . "Mas o personagem era um cara que escutava muito Roberto, tinha um amor pela música dele. A partir disso, me empolguei."

Era um período difícil, em que "Gonzaga, de Pai para Filho", cinebiografia de Luiz Gonzaga com previsão de estreia para outubro, esbarrava em questões de orçamento e produção, depois de anos em desenvolvimento. Aí a paixão do diretor por Roberto Carlos falou mais alto.

"Fiz um primeiro filme que não era sobre um tipo de música que convivi, já que morei a vida inteira no Rio, mas percebi que aquela história era extremamente brasileira e importante de ser contada. Com o Roberto é diferente, porque já estava na minha vida. Tive uma desilusão amorosa aos 17 anos e escutei Roberto que nem louco."

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Com a entrada de Patrícia Andrade, roteirista de todos os filmes do diretor, a trama começou a ganhar forma. João Miguel interpreta João, caminhoneiro que foge do passado sozinho na estrada, longe de qualquer um. Esse ermitão amargurado descobre escondido na boleia o garoto Duda (Vinicíus Nascimento). Sem ninguém depois da morte da mãe, o menino caiu no mundo em busca do pai, que abandonou a família ainda na gravidez. A aproximação da dupla improvável e o retorno de João ao lar formam o coração de "À Beira do Caminho".

Embora já estivesse tudo no papel, a autora não ficou em casa: foi para o set de filmagem com o resto da equipe. "Um roteiro escrito num apartamento no Rio ou São Paulo não reflete estrada. São tons diferentes, Brasis diferentes. Precisa ir lá, foi assim em todos os meus filmes."

Negociação longa para as músicas

Como as negociações para adquirir os direitos de utilizar as músicas de Roberto não avançavam, o diretor assumiu o risco: filmou tudo sem pensar nas consequências, na esperança de que, depois de assistir ao filme, o Rei, rigoríssimo para autorizações assim, desse sua benção. "Foi uma loucura, mas paguei para ver", conta ele.

Demorou um ano para que um encontro fosse arranjado. Breno lembra com um brilho nos olhos o dia fatídico em que entregou o DVD com uma versão inicial do longa. "Entrei nervoso no estúdio dele na Urca. O Roberto apareceu na minha frente, viu que eu estava nervoso e falou, 'você quem fez 'Dois Filhos de Francisco'? Adorei'. Na hora relaxei."

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Breno Silveira: um "porre" depois de conseguir a autorização para músicas de Roberto Carlos

Mesmo assim, a decisão não veio nada rápido. "Foi bem traumático. Já estava com o filme na mão, editado, só esperando isso. Chegou num ponto que se autorizassem só uma música não tinha problema, colocava ela durante o filme inteiro. Mas eu queria a versão original, cantada por ele. O filme tinha que ser impregnado pela voz do Roberto."

Quando saiu, a resposta veio, na opinião do diretor, farta: ele poderia usar quatro músicas cantadas pelo Rei. "Tomei um porre!", confessa, rindo. As liberadas foram "Outra Vez", "O Portão", "Como Vai Você" e "A Distância", essa última sugerida pelo próprio Roberto. "Essa ele deu de mestre, a letra tinha tudo a ver com o filme." A trilha sonora ainda conta com versões para "Nossa Canção", na voz de Vanessa da Mata, e "Esqueça", com Nina Becker.

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Breno não revela quais músicas ficaram de fora ("são várias"), mas lamenta ter cortado "De Tanto Amor", que embalava uma cena de sexo entre João Miguel e Dira Paes, uma antiga namorada do personagem principal. "Os dois começaram a se agarrar na cena e eu falei, 'nao é carnal'. Coloquei 'De Tanto Amor', eles começaram a chorar e fizeram a cena, carinhosa, linda, no escuro, na beira da fogueira. Estava na montagem, mas Roberto não quis autorizar."

O valor pago pelo direito de usar as músicas também é mantido em sigilo. O cineasta garante, porém, que não foi tão caro assim. "De alguma forma ele teve boa vontade e jogou as músicas num preço de mercado, e eu sei que as músicas de Roberto não são preço de mercado, já trabalhei com publicidade. Pode perguntar por aí, os valores são muito, muito altos.

"Não tenho vergonha da emoção"

Quando entrou em cartaz, "Dois Filhos de Francisco" não foi nada bem nas bilheterias. Foi só depois de três semanas, graças ao boca a boca, que o filme começou a ser visto por multidões. E é investindo no mesmo sentimento que Breno Silveira aposta no sucesso de "À Beira do Caminho", outra "história brasileira".

"Acho que sinceridade e emoção pegam qualquer classe social, idade, e essa é a minha intenção. Não tenho vergonha da emoção, está na alma do brasileiro. O perigoso é quando a emoção se torna piegas. Meus personagens não choram com som, são íntegros. Eles não berram, se escabelam. O dramalhão afasta o espectador, e ele é inteligente, sabe quando está sendo enganado. Mas se você trabalha o ator para ser 100% verdadeiro e filma de maneira sincera, aí você pega qualquer um, é outro tipo de filme."


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