Marcos Didonet comenta realização do primeiro filme nacional com fantoches, os "Muppets do Brasil"; Mariana Ximenes, Márcio Garcia e diretor chileno falam da experiência

O cinema nacional ganha a partir deste final de semana seu primeiro filme feito com fantoches, que vem lhe rendendo o apelido de "Muppets" do Brasil. Não que ele seja totalmente brasileiro: embora tenha sido feito também em parceria com a Espanha, "31 Minutos - O Filme" é, na essência, chileno.

Foi lá que surgiu o programa de TV "31 Minutos", criado pelos diretores responsáveis também pela adaptação para o cinema, Alvaro Díaz e Pedro Peirano. Um sucesso local na metade dos anos 2000, indicada inclusive ao Emmy Internacional, a série chegou ao Brasil pelo canal a cabo Nickelodeon, onde também conquistou público cativo.

Em entrevista por email ao iG desde Santiago, Díaz afirma que parte do segredo do programa vem justamente do fato dos personagens serem bonecos. "Eles parecem crianças, às vezes adultos, não têm idade, raça ou classe social definida. E por outro lado são muito humanos, com virtudes e defeitos, como todo mundo."

Uma versão em longa-metragem, portanto, parecia natural. E foi no Rio de Janeiro que ela ganhou forma. O produtor brasileiro Marcos Didonet conta que o primeiro contato com a dupla de diretores ocorreu durante o Festival do Rio, que ele também organiza.

"Eu já conhecia o programa pela TV, achava interessante, e no Chile é um patrimônio nacional, todo mundo sabe o que é", lembra. "Quando lemos o roteiro, percebemos que era uma obra-prima para o público infantil."

O diretor chileno Alvario Díaz, Mariana Ximenes e o produtor Marcos Didonet na première brasileira
AgNews
O diretor chileno Alvario Díaz, Mariana Ximenes e o produtor Marcos Didonet na première brasileira

O que não quer dizer que os adultos também não vão se divertir. Com referências a "Lost", "Indiana Jones" e "Guerra nas Estrelas", a história agrada a todas as idades, até porque tem um roteirista experiente no time – premiado no início do ano no prestigiado Festival de Sundance (EUA) por "Joven y Alocada", Pedro Peirano também tem no currículo o roteiro do cultuado "A Criada" (2009).

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A trama do filme reapresenta os personagens da série, situada nos bastidores de um telejornal. O produtor Juanín Juan Harry (voz de Daniel Oliveira) descobre ser um animal raro, o último de sua espécie, e acaba sequestrado pela malévola Cachirula (Mariana Ximenes). O apresentador do jornal, Tulio Triviño (Márcio Garcia), e outros participantes do noticiário saem no resgate do amigo, passando por lugares conhecidos do Rio de Janeiro, como a ponte do rio Niterói e o bairro de Santa Teresa.

Dividido entre Brasil e Chile, "31 Minutos" foi filmado ao longo de quatro semanas lá, em estúdio, e outras quatro aqui, nas cenas externas, com orçamento total de R$ 6 milhões. Didonet explica que a produção de um longa com bonecos é tarefa das mais complicadas.

"Esse tipo de filme é muito mais difícil do que qualquer filme com atores que fiz, seja 'Assalto ao Banco Central' , 'Se Eu Fosse Você' ou 'Divã'. Ele requer um cuidado estético e uma equipe muito maior. Os manipuladores dos bonecos, agachados, não enxergam o que estão fazendo, precisam de um monitor embaixo para ver, por exemplo, para qual lado os personagens estão olhando."

Isso sem contar os efeitos especiais, elaborados pela companhia espanhola responsável pelo premiado "O Labirinto do Fauno" (2006).

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"Na televisão é mais fácil trabalhar com bonecos porque se usam muitos primeiros planos e a ação é restrita", complementa Alvaro Díaz. "No cinema é preciso ter mais ritmo, roteiro e cenários elaborados... No fundo é tudo diferente, como se tivéssemos reinventado o mundo da série."

Vozes e trilha exclusivas para o Brasil

"31 Minutos" estreou no Chile em 2008 e sim, demorou quatro anos para chegar às telas brasileiras. Diáz confessa que já tinha perdido as esperanças. "Honestamente, achávamos que nunca ia estrear no Brasil", conta o diretor.

Segundo ele, a crise econômica mundial fez com se esperasse um período mais propício para o lançamento, mas os principais fatores teriam sido a dublagem em português e a regravação da trilha sonora por Guto Graça Mello, que deixaria a música "mais próxima da sensibilidade brasileira".

Márcio Garcia polivalente: na produção e dublagem
AgNews
Márcio Garcia polivalente: na produção e dublagem

O produtor Marcos Didonet conta que as falas mudaram muito na versão traduzida. "Os chilenos falam muito enrolado, bem mais rápido que os argentinos. Por isso os personagens em espanhol são mais neuróticos, nervosos."

Bem humorado, Díaz concorda. "Sim, nós, chilenos, somos nervosos e neuróticos. A palavra 'relaxar' não existe em nossas vidas e os personagens de '31 Minutos' têm essa característica. Vocês (brasileiros) são muito relaxados, falam mais devagar e com um tom de voz mais grave. Deve ser o clima."

O time de vozes nacional procurou mesclar sotaques como o gaúcho, mineiro e o carioca, para mostrar a diversidade brasileira. Mariana Ximenes dublou a vilã Cachirula.

Ao iG , a atriz diz ter gravado suas falas sozinha, ao longo de três dias, e se divertiu a valer. "Se alguém te filma no estúdio parece meio ridículo, porque para fazer a voz você acaba fazendo as posições mais estranhas para sair a intenção certa da cena. É muito curioso."

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Mariana Ximenes entre os personagens de
Claudio Augusto/Photo Rio News
Mariana Ximenes entre os personagens de "31 minutos"

Dublador experimentado, em especial da franquia "A Era do Gelo" , Márcio Gárcia ganha em '31 Minutos' crédito de produtor associado e faz a voz do apresentador Túlio. Na opinião do ator e diretor, o filme reintroduz a cultura dos bonecos no cinema. "A gente é tão vidrado em efeitos que esquece essa pegada física do fantoche, a ideia de algo que deu trabalho físico, não criado artificialmente. É uma forma de contar uma história que confere certa poesia."

Na mesma linha, Didonet afirma que, além de ser um raro filme infantil brasileiro, "31 Minutos" disputa espaço com blockbusters digitais que custaram milhões de dólares. Díaz, por sua vez, reconhece que soa anacrônico investir num filme de bonecos numa era dominada por personagens criados no computador, mas a graça vem justamente daí.

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"É bastante curioso", diz o diretor. "Temos como regra fundamental que nossos trabalhos sejam originais, alheios a uma moda determinada. '31 Minutos' é um filme de aventura como os dos anos 1950, e isso nos encanta."

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