História de vida de Katy Perry segura "Part of Me"

Documentário em 3D mistura última turnê e biografia da cantora, moldada para fazer sucesso

Marco Tomazzoni - iG São Paulo | - Atualizada às

Por ser um projeto oficial, "Katy Perry: Part of Me", documentário que mistura biografia e números musicais, surpreende. Com estreia nesta sexta-feira (dia 3) em cópias em 3D, o filme não foge da inevitável glorificação que aflige produtos do gênero. O interessante aqui, além da beleza, simpatia ímpar e das músicas-chiclete da cantora que já vendeu 11 milhões de discos ao redor do mundo, é a própria história e um vislumbre, mesmo involuntário, da indústria do entretenimento.

Katherine Hudson, nome verdadeiro da estrela que passou nesta semana pelo Brasil , rodou um bocado antes de se transformar em ídolo, por vieses diferentes, de crianças, adolescentes e adultos. Nascida numa família de ministros pentecostais, passou a infância pulando de cidade em cidade, onde os pais pregavam com a bíblia na mão e fervor evangélico. Aos 13 anos, passou a escrever suas próprias canções, e aos 15 lançou um disco gospel.

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Cartaz de 'Katy Perry: Part of Me'

Isolada numa bolha familiar, ela não podia escutar música ou assistir a filmes considerados "profanos" – nada de Michael Jackson e "O Mágico de Oz", por exemplo. De repente, a adolescente loirinha que louvava a Deus se transforma numa morena raivosa - segundo ela, inspirada em "Jagged Little Pill" (1995), o premiado álbum de Alanis Morissette.

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Uma metamorfose surpreendente, mas menor do que a dos pais da cantora: de pastor comportado, com barba e roupa social, Keith Hudson, o pai, aparece falando atualmente de óculos escuros, cabeça raspada e crucifixo gigante pendurado no pescoço. Como ele virou um senhor de meia-idade com pinta de rapper? Uma excelente pergunta que o filme não se preocupa em responder.

Para reproduzir essa época, "Part of Me" usa um belo material de arquivo, de quando Katy tinha 18 anos e gravou vídeos, em formato de depoimento, para a MTV norte-americana ( assista ). Nessa época ela já havia se mudado para Los Angeles e caído na noite tresloucada da cidade. Sob a batuta de Glen Ballard, não por acaso o produtor de Alanis, a garota havia se tornado uma cantora de pop rock genérico, porém sincero, composto por ela mesma.

Daí que Katy passou por duas grandes gravadoras, gravou dois discos e nenhum deles foi lançado. Ninguém sabia como vender o que ela fazia, nem como moldá-la. Tentaram fazer com que ela parecesse com Avril Lavigne (numa excelente dramatização) e até com Britney Spears, por meio do time de produtores e compositores The Matrix. Foi um tiro n'água, e Katy passou a ter a reputação de "mercadoria danificada" no meio.

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Katy Perry faz posa em cena do filme

E eis que a indústria, através da Capitol Records, achou a resposta. O selo comprou o passe da cantora e fez dela um bibelô: maquiagem pesada ( Katy fica quase irreconhecível sem ela ), trajes sumários exóticos, cores fortes e, claro, música dance, o gênero que mais vende hoje, composta pelo midas Dr. Luke. O pop rock? Ficou para trás. O ponto da virada foi "I Kissed a Girl", a música abusada, de teor lésbico, que fez o mundo descobrir Katy Perry.

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Ela engatou ao menos três hits no disco "One of the Boys", mas a cantora só se tornou o que é hoje com o seguinte,  "Teenage Dream", de 2010. Veio à tona um mundo colorido, feito de doces e de diversão despretensiosa. Foi a chave para a cantora conquistar também o público infantil, uma parcela significativa de quem vai a seus shows. Jogada de mestre, auxiliada por um trabalho exemplar nas redes sociais, que o filme, ainda bem, não deixa passar em branco.

Não que Katy seja de todo uma reles invenção. O documentário enfatiza que ela escreve as letras de suas músicas e supervisiona os detalhes de tudo o que a rodeia. Não é nada perto de ser uma autora propriamente dita, mas já é algum coisa. Incomoda, isso sim, a insistência em sua missão de "fazer as pessoas sorrirem" e, na mesma linha Lady Gaga, de ser você mesmo e aceitar todos como eles são. Aí "Part of Me" veste sem medo sua camiseta de produto institucional.

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Katy Perry na Chácara do Jockey, em São Paulo, no ano passado: fim do casamento

Os fãs, sem dúvida, vão se esbaldar em "Part of Me". A turnê "California Dreams", que se estendeu por quase um ano, serve de base para o documentário, em contagem regressiva até o final, em que Perry, à beira de um colapso, leva um pé na bunda do marido Russell Brand – o filme não mede esforços em fazer dele o vilão da história.

Há de se admirar o modo como a cantora se expõe em frente às câmeras. Foram incluídas imagens dos bastidores do show em São Paulo , quando ela recebe uma mensagem no celular pondo fim ao casamento. Katy fica mal, chorando sem parar, e o cancelamento da apresentação paulistana parece lógico. Pois a heroína do filme sai da fossa, veste seu melhor sorriso e se sacrifica para entrar no palco. O final feliz são as lágrimas quando ela ouve o coro de "Katy, eu te amo". Mais hollywoodiano, impossível.

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Além de detalhes da vida na estrada e família da cantora, "Part of Me" oferece trechos generosos da turnê, os únicos filmados em 3D – no resto do filme, é possível tirar os incômodos óculos sem medo. Além da engenhosidade do espetáculo (vestidos com peças que se movem, trocas mágicas de figurino), prepare-se para ver em três dimensões um dos momentos mais comentados do clipe de "California Gurls" . A espuma não sai dos seios de Perry, como no vídeo, mas continua indo em direção à plateia. Aí a aposta na tecnologia faz sentido.


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