Batman ressurge, mas não tão poderoso quanto antes
Última parte da trilogia sente falta de um vilão, mas ganha fôlego em final espetacular
Passaram-se quatro longos anos desde que Christopher Nolan mudou para sempre os filmes de quadrinhos com "O Cavaleiro das Trevas". Encabeçado pela atuação assombrosa de Heath Ledger como o Coringa, o segundo capítulo do diretor para a trilogia do Batman era tão bom que rompeu as barreiras de uma adaptação para quadrinhos – virou assunto sério, a ponto de entrar nas listas de melhores filmes de 2008 e motivar uma campanha para aparecer entre os indicados ao Oscar.
Se os outros trabalhos de Nolan já mostravam um talento impressionante, no intervalo ele ainda fez "A Origem" (2010), uma intrincada história de espionagem e sonho que, sem muito esforço, entra em qualquer lista de melhores filmes de ação das últimas duas décadas.
Pudera, portanto, que "Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge" tenha gerado tanta ansiedade. Fãs examinavam com paixão fotos do set e qualquer detalhe aparente da trama, mantida, como de costume, sob sigilo absoluto. Os trailers também ajudaram – não revelavam tanto, mas davam muita, muita água na boca.
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Pois eis que a espera chegou ao fim. Em cartaz a partir desta sexta (20) nos Estados Unidos (no próximo dia 27 no Brasil), o filme encerra a trilogia com eficiência. Brilhantismo? Redenção? Apoteose? Infelizmente, não.
Verdade que o filme dificilmente conseguiria sustentar a expectativa gigantesca que o precedeu. Além disso, a comparação com os dois primeiros longas é inevitável. Depunha contra "Batman Begins" (2005) o plano mirabolesco de Ra's al Ghul (Liam Neeson) para destruir Gotham City, mas aquela era, acima de tudo, uma história de origem excepcional. E "O Cavaleiro das Trevas" é, sem sombra de dúvida, o melhor filme de super-herói já feito.
TV iG: Assista a um vídeo de bastidores de "Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge"
Dito isso, não é difícil afirmar que "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" tem o roteiro mais fraco dos três. O que não quer dizer que Nolan e seu irmão e parceiro, Jonathan, tenham perdido a mão – "Os Vingadores" e "O Espetacular Homem-Aranha" são coisa de pré-adolescente se comparados a qualquer um dos "Batman". A discussão sobre ética, moral, medo, caos e vingança dos filmes anteriores continua interessante e vigente, mas sem a mesma fluência. Nisso, se perdem velocidade e verossimilhança.
A história começa oito anos depois do final de "O Cavaleiro das Trevas". Batman (Christian Bale) assumiu a culpa pela morte do promotor Harvey Dent, que havia se transformado no Duas Caras. Com a cumplicidade do comissário Gordon (Gary Oldman), a verdade é mantida em segredo e a memória de Dent inspira uma luta vitoriosa contra o crime em Gotham. São tempos de paz e Batman saiu de cena, como planejava – Bruce Wayne, idem, recluso na mansão reconstruída da família.
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A situação muda com os roubos de Selina Kyle, uma ladra habilidosa (Anne Hathaway, nunca chamada de Mulher-Gato), e o surgimento de Bane (Tom Hardy), um mercenário com idéias terroristas. É o suficiente para Batman deixar a aposentadoria de lado e voltar para as ruas de Gotham, onde é procurado como um criminoso.
Novidades valiosas no elenco são Marion Cotillard, no papel de Miranda Tate, conselheira do conglomerado das empresas Wayne e interesse amoroso do herói, e Joseph Gordon-Levitt como o valoroso policial John Blake, que lembra tanto a infância órfã de Bruce quanto os ideais de justiça do comissário Gordon no início de carreira. Completam o grupo Morgan Freeman e Michael Caine, que, como de costume, ilumina a tela como o mordomo Alfred.
Há boas cenas de ação – Nolan é mestre nelas –, embora nada tão surpreendente quanto as de "O Cavaleiro das Trevas". Falta, isso sim, um vilão. Coerente com o realismo com que o diretor transpôs o universo dos quadrinhos, Bane é forte, mas não de maneira sobrenatural. Um adversário imponente, também treinado por Ra's al Ghul, mentor de Batman, que oferece sério risco. Só.
Seria injusto tentar compará-lo com o Coringa. O problema é que Bane nunca realmente mete medo. Para suportar a dor, ele usa uma máscara que, nos melhores momentos, lembra a mandíbula de um animal raivoso. Nos piores, só abafa a voz do brutamontes. Tom Hardy se desdobrou para interpretá-lo usando só a expressão dos olhos e do corpo. A culpa não é dele: por trás do discurso revolucionário e o corpo bombado, sobra apenas um personagem mal desenvolvido.
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A Mulher-Gato, mesmo não sendo chamada assim, teve melhor sorte. Ganhou bons diálogos, ótimas coreografias de luta (sempre usando salto alto) e uma dúvida cruel entre ajudar Batman ou a si mesma. Só ficou faltando uma motivação convincente.
Ressalvas à parte – ainda há algumas –, "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" funciona e, ufa, acaba de forma espetacular. Desenvolvida na sua maior parte em ritmo constante, a trama dispara na última meia hora das 2h45 de projeção. Resolvido às pressas? De certa forma, sim, só que o desfecho é tão cativante e satisfatório que não surpreenderam as palmas no final da sessão para a imprensa.
Christopher Nolan se tornou um grande cineasta filmando Batman e, por tabela, criou a melhor série de filmes já feita para um herói dos quadrinhos. Os aplausos são merecidos. A despedida não foi incrível como se esperava, mas esse é o preço de ter feito um filme tão bom como o anterior. Boa sorte para quem pôr as mãos no personagem no futuro – vai precisar.