Jovem mexicana cai na estrada em busca de si mesma em "Um Mundo Secreto"

Exibido no Festival de Berlim, longa de Gabriel Mariño ganha sessão aberta no Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo

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Com alguma maldade, críticos brasileiros insatisfeitos com a abordagem do livro cult de Jack Kerouac, "Na Estrada" , por Walter Salles, estão chamando o filme que estreou na semana passada de "Malhação beat". "Na Estrada" seria clean demais – queriam sujeira, nisso repetindo um bordão que já vem desde a apresentação de "On the Road" no Festival de Cannes , em maio. Não importa o que digam, a essência está lá e, lógico, reclamar da beleza da imagem aplicada a certos temas é coisa que vem de longe – basta lembrar o exemplo, entre muitos possíveis, de "La Terra Trema", de Luchino Visconti, acusado de esteticista, no auge do neorrealismo.

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Talvez a estrada sonhada pelos detratores de Salles seja a do mexicano Gabriel Mariño em seu longa "Um Mundo Secreto", que terá nesta quinta-feira (19) sua segunda exibição no Festival de Cinema Latino-Americano . Programe-se – poucos filmes estão tendo essa chance. A maioria passa uma vez, e só.

Divulgação
Lúcia Uribe no filme mexicano "Um Mundo Secreto"

"Um Mundo Secreto" abriu na semana passada, para convidados, a sétima edição do Festival Latino e nesta quinta terá projeção para o público. Em Berlim, em fevereiro , integrou a programação da mostra Generation. "Um Mundo Secreto" conta a história de garota que põe o pé na estrada. No último dia de escola, em vez de se juntar aos colegas para celebrar, Maria – é seu nome – junta suas coisas, compra uma passagem de ônibus e se lança numa viagem. Ela atravessa o México. Busca o quê? A si mesma, com certeza.

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Lúcia Uribe é a intérprete – excepcionalmente boa – do papel e, na apresentação do filme, na Berlinale, o diretor Mariño disse que foi um privilégio trabalhar com ela, que vestiu a pele da personagem e fez com ela a viagem iniciática que desvenda o mundo secreto. Que mundo é esse? O que faz de Maria essa criatura opaca, silenciosa, que se dá aos homens (aos colegas) e ganha fama de promíscua? Maria não diz não, mas não é o prazer que a move. Depois do sexo, ela esbofeteia o próprio rosto. Por que uma mulher? Mariño disse que nunca teve dúvida de que queria uma personagem feminina. Só a mulher poderia libertá-lo – a ele, um homem – para ser livre e emocional.

Da Cidade do México, Maria ganha a estrada. Conhece muitas pessoas – e um rapaz, tão tímido que tem vergonha de dividir o quarto com ela. Como filmar a história de Maria, como integrar a paisagem ao relato? Mariño e seu diretor de fotografia – Ivan Hernandez, com passagem pelo Talent Campus, a oficina de novos talentos do Festival de Berlim – discutiram muito o tipo de imagem que seria adequada. Pesquisaram nas fotos de Nan Goldin e nas pinturas de Edward Hopper. Mariño queria que o filme fosse uma janela que, do caos urbano, ganhasse a paisagem áspera, seca, mas com passagens de cor e exuberância.

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A regra era luz natural. Nenhum artifício. O mesmo princípio aplicado à interpretação. Tudo isso, mais o segredo revelado da protagonista, faz da viagem de Mariño e Lúcia Uribe uma experiência intensa. Mas o bom do filme, para o espectador de São Paulo, é essa oportunidade que oferece para se cotejar as duas viagens, a de Salles e a de Mariño. Os que reclamam da primeira têm agora a obrigação de conferir a segunda. O chamado da estrada, e o que ela revela do mundo interior de personagens em busca deles mesmos.

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