Walter Salles sobre 'Na Estrada': 'É a busca da última fronteira americana'

Em entrevista ao iG, diretor fala sobre a produção do filme, comenta a recepção dos fãs e analisa o atual momento do cinema brasileiro

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

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Walter Salles

Walter Salles parece aliviado. Algumas semanas depois da estreia de "Na Estrada" no Festival de Cannes e em algumas partes da Europa, o diretor voltou ao Brasil, só sorrisos, para falar do filme que consumiu quase dez anos de sua vida, e que acaba de entrar em cartaz no país.

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Foram, na verdade, oito anos para que o longa-metragem viesse à tona, pouco tempo se comparado às mais de cinco décadas que o projeto levou para ser concretizado. Pulando de mão em mão, o livro "Pé na Estrada ("On the Road", no título em inglês), nunca conseguia sair do papel. Talvez pela responsabilidade pesada de se adaptar o clássico de toda uma geração.

"Pé na Estrada" forma, junto com o poema "O Uivo", de Allen Ginsberg, e o romance "O Almoço Nu", de William Burroughs, o pilar do movimento beatnik. Na ressaca do período pós-guerra, uma parcela da juventude norte-americana buscava entender melhor o mundo e quebrar barreiras, dogmas cristalizados pela sociedade conservadora. Sexualidade, liberdade, expansão da consciência, valia tudo – era o nascimento da contracultura.

"Enviamos uma cópia do filme para o Beat Museum, que é a meca dessa geração, e acho que uma das maiores alegrias que tivemos até agora foi o fato de Jerry Cimino, diretor do museu, ter feito uma crítica muito generosa e positiva", disse Walter Salles ao iG .

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Na busca pela alma dos Estados Unidos, Kerouac, então um escritor iniciante, pôs a mochila nas costas, ergueu o dedo e atravessou de carona o país continental, de leste a oeste. Sem ficcionalizar muito, colocou suas experiências num rolo de papel telex, para não precisar perder tempo colocando folhas na máquina de escrever, e revelou ao mundo suas aventuras ao lado do malucaço Neal Cassady, companheiro bipolar com energia insaciável para o sexo e a vida.

No livro, Kerouac virou Sal Paradise e Cassidy, Dean Moriarty. Ginsberg (Carlo Marx) e Burroughs (Old Bull Lee) também estão lá, assim como uma série de outros personagens da cena cultural da época. O espírito libertário que contamina "Pé na Estrada" do início ao fim não ficou datado: ele ressoa até hoje.

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"Estava conversando esses tempos com Eduardo Bueno (tradutor do livro no Brasil) sobre o impacto que 'Pé na Estrada' tem nas pessoas", afirma Walter Salles. "Existe um antes e depois. Eu mesmo voltei a ele várias vezes, inclusive antes de filmar 'Diários de Motocicleta'."

Salles tem uma relação forte com a estrada. Ao menos dois de seus filmes anteriores, o próprio "Diários de Motocicleta" (2004) e "Central do Brasil" (1998), tem uma relação direta com os "road movies" que o diretor admite serem influências marcantes – "Bye, Bye Brasil", de Cacá Diegues, e "O Passageiro – Profissão: Repórter", de Michelangelo Antonioni.

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Cartaz nacional de "Na Estrada - On the Road"

Para o cineasta, o próprio cinema é sinônimo de viagem. Salles conta que aos 13 anos, quando morava na França e enfrentava problemas com a adaptação longe do Rio de Janeiro, era nas telas que encontrava conforto. "O cinema era o que me levava para um canto do mundo que nunca havia ido antes, uma viagem para um lugar novo."

"Kerouac mostrava que é preciso viver à flor da pele", afirma Walter Salles

Depois de todo o tempo dedicado ao filme – "estou 'na estrada' há algum tempo, quero parar um pouquinho" –, o diretor afirma que pretende ficar por algum tempo no Brasil e terminar de escrever um livro sobre o cineasta chinês Jia Zhang-ke. Gestado há três anos, quando Zhang-ke foi alvo de uma retrospectiva na Mostra de São Paulo, o projeto não foi adiante. Segundo ele, o livro também serviria como uma homenagem a Leon Cakoff, fundador da Mostra, morto no ano passado. "Por Jia e Leon, quero muito fazer."

Durante conversa com o iG , Walter Salles falou de sua experiência ao fazer o documentário de preparação de "Na Estrada", previsto para o final do ano, da busca incessante por liberdades no mundo, da improvisação em seus filmes, do cinema de autor feito no Brasil e do alívio que foi ter recebido uma crítica positiva dos fãs de Kerouac – "isso tira centenas de quilos das costas.

iG: Qual foi a maior descoberta nas viagens para o documentário de preparação para "Na Estrada"?
Walter Salles: O livro parte em busca da última fronteira norte-americana, aquela ideia de um país que se formou indo para o oeste. Não é à toa que o faroeste, o western, é a forma cinematográfica norte-americana por excelência. O fato de essa fronteira não existir mais, de se viajar mil quilômetros e encontrar a mesma geografia que abandonou dois dias antes, é um pouco aterrador. Em comparação, "Diários de Motocicleta" me mostrou que a América Latina ainda é a última fronteira, a gente pôde filmar seguindo o caminho original do livro (escrito por Alberto Granado). Em "Na Estrada", seguir isso seria praticamente impossível. A partir de um certo momento, os centros das cidades norte-americanas foram deslocados para o subúrbios, perderam identidade, muitas vezes estão em profunda decadência. Uma geografia horizontal, de shoppings e lojas que são as mesmas.

Dentro dessa visão angustiante, ainda se encontram personagens inspiradores. Tentando não só refazer a rota, mas também falar com os personagens do livro, encontrei pessoas que aos 80 anos são os caras mais jovens que conheci em muito tempo, acreditam nos mesmos ideais que tinham na juventude. Foi um processo ambivalente: por um lado se vê uma sociedade que foi homogeneizada e, por outro, ainda existem essas pessoas que pensam individualmente, de forma independente, e que poderão fazer uma diferença no futuro se forem ouvidas.

iG: Se algum fã for refazer o trajeto do livro, o que vai encontrar?
Walter Salles: Acho que vai encontrar um mundo que se transformou radicalmente, mas vai esbarrar com pessoas que mantiveram o inconformismo daquela época. Me lembro de vários lugares onde a gente encontrou pessoas com uma cabeça muito crítica em relação ao que está acontecendo nos Estados Unidos hoje, inclusive críticas à cultura do medo da época do Bush, por exemplo, quando filmamos uma parte do documentário. Uma garotada de 16, 17 anos completamente consciente disso, de uma tentativa de fazer você acreditar que tudo era potencionalmente perigoso. É a mesma coisa que os personagens encontraram no livro no final dos anos 1940, início dos anos 1950. Quem fizer essa viagem hoje vai encontrar almas gêmeas àquelas dos personagens do livro, que fogem da norma e que estão tentando reinventar um novo tipo de cultura.

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O diretor Walter Salles e Sam Riley (no centro) nas filmagens de "Na Estrada"

iG: Existe a possibilidade de surgir um movimento como o beatnik hoje, em que praticamente todas as liberdades já foram conquistadas?
Walter Salles: Ainda existem as mesmas barreiras a serem vencidas que existiam há 60 anos. A de ir e vir, por exemplo. Hoje é tão ou mais complicado atravessar uma parte da América branca, por exemplo, em estados mais conservadores como o Arizona, do que nos anos 40. Evidente que inúmeros avanços aconteceram em muitas direções, mas há sempre conquistas a serem feitas. Se não o que sobra é o imobilismo. É exatamente contra isso que esses caras de 18 anos se rebelaram nos anos 1950. Ter 18 anos é se permitir se rebelar contra aquilo que você acha que ainda pode mudar. Nesses movimentos que surgiram no ano passado nos países árabes, ou o Ocupy Wall Street, a maioria que participa é de pessoas muito jovens. Então evidentemente há várias barreiras que ainda devem ser vencidas.

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Walter Salles e o ator Viggo Mortensen

iG: Parte do sentimento que você tinha em relação ao livro antes das filmagens se modificou ao longo do processo?
Walter Salles: Tivemos acesso em 2007 ao rolo, ao texto original que Kerouac tinha escrito e que até então nunca tinha sido publicado, e isso fez com que muita coisa se modificasse. Tínhamos começado a roteirizar tendo como base a versão publicada em 1957, que foi amplamente editada, teve muita interferência (dos editores). A primeira linha do texto de 2007 já muda completamente o tom da coisa, porque em vez de ler "eu conheci Dean logo depois de ter me separado da minha primeira mulher", você lê, "eu conheci Dean logo depois da morte do meu pai", como o filme é aberto. Esse espírito que está no original, de ser uma narrativa sobre alguém que sofre uma perda e que, impulsionado por essa perda, se abre para o novo, para aquilo que desconhece e tenta se reinventar, acho que a esse espírito nós fomos fiéis. Ou tentamos, pelo menos. Mas o filme nunca se traduz naquilo que você imaginou antes da filmagem, porque se você acredita na improvisação, que é importante para que o filme tenha respiração, que ele te surpreenda a cada dia da filmagem, você obrigatoriamente vai chegar em outro lugar no final do filme. Mas ainda é muito cedo. É difícil um diretor, tão a quente, ter um olhar sobre isso. Hoje consigo olhar "Diários" com recuo, mas oito anos se passaram.

iG: Você já escreveu que a "imprevisibilidade é fundamental" em um road movie. De que forma isso se deu em "Na Estrada"?
Walter Salles: Em um filme de estrada, você acaba incorporando tudo o que encontra pelo caminho. Dei de cara, por exemplo, em "Diários de Motocicleta", com um número incrível de personagens que não estavam no livro, mas poderiam estar, estavam no espírito daquela jornada, e a gente trouxe esses personagens para dentro da história. Aqui, os atores trouxeram tantas possibilidades que a gente acabou incorporando, e o filme, como um todo, acaba se tornando muito diferente daquilo que a gente tinha previsto no início. Mas isso acontece, acho, para o bem, porque é o resultado da doação dos atores, da equipe, da paixão comum que eles tem pelo ponto de partida comum que é o livro.

São raros os filmes cujo resultado final é muito parecido com o roteiro. Os de (Alfred) Hitchcock certamente eram porque ele fazia o storyboard de cada cena e achava a parte mais chata justamente a filmagem. Para ele tudo era questão de precisão, e não de improvisação. Já para um diretor como (Jean-Luc) Godard, tudo é questão de improvisação, intuição, do que é feito no momento. Não é menos genial do que Hitchcock, são só diferentes. É interessante porque eles chegam a resultados autorais totalmente brilhantes por caminhos opostos.

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Garrett Hedlund em "Na Estrada": possibilidade dos atores incorporadas no filme

iG: "Na Estrada" é um filme aguardado há décadas e que, portanto, gerou muita expectativa. Como você está lidando com as críticas ?
Walter Salles: Enviamos uma cópia do filme para o Beat Museum, que é a meca dessa geração, e acho que uma das maiores alegrias que tivemos até agora foi o fato de Jerry Cimino, diretor do museu, ter feito uma crítica muito generosa e positiva. Isso foi a coisa mais importante, a gente percebeu que quem vive essa geração no sangue sentiu que tínhamos buscado reproduzir na tela o que eles conhecem tão bem. Foi o maior presente que podíamos ter recebido. E há pouco o Eduardo Bueno, que traduziu o livro no Brasil e é um dos grandes especialistas da cultura beat não só no Brasil, mas no mundo, também viu o filme e teve uma resposta semelhante ao Cimino, bem generosa. Isso tira algumas de centenas de quilos das costas.

iG: Como produtor, você fez filmes como "Madame Satã", "Cidade Baixa" e "No Meu Lugar", todos autorais. Pretende continuar desempenhando esse papel?
Walter Salles: Primeiro é preciso fazer uma separação entre cinema documental e de ficção. Acho que o Brasil faz hoje alguns do melhores documentários produzidos mundo afora. De Eduardo Coutinho a Flávia Castro , você tem um leque de filmes biográficos, de relatos muito originais ou muito pessoais, que apontam para uma cinematografia rica e reconhecida internacionalmente, tanto que o Brasil está constantemente no Festival de Amsterdã, a meca do cinema documental. Então acho que, no cinema documental, vivemos um bom momento. Existe a intenção de continuar esse trabalho na videofilmes (produtora de Salles), tanto é que nós produzimos, se não me engano, os últimos dez filmes do Coutinho. Estamos participando do primeiro longa de ficção justamente da Flavia e estudando a participação no segundo filme de ficção de Eryk Rocha .

Minha impressão é de que existe muito talento na ficção no Brasil, falando de cinema de autor, mas muitas vezes o tempo de espera para que um realizador que fez um bom primeiro filme chegue ao segundo é muito longo. Não há razão para que Marcelo Gomes, depois de "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), demore seis, sete anos para fazer um segundo filme. Na Argentina, Pablo Trapero filma praticamente a cada ano . Ele trabalha com três roteiristas – dois deles já fizeram seus primeiros filmes e estão com novos projetos. Tenho esperanças de que esse lapso de tempo encurte. Talvez sejam necessários reajustes nas formas de financiamento, por exemplo. Adoraria ver muito rapidamente o próximo filme de Esmir Filho, gostei tanto de "Os Famosos e os Duendes da Morte". O cineasta precisa exercer sua função.

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