Cinema na América Latina: argentinos produzem mais, mas assistem menos

Com economia menor, Argentina lança mesmo número de filmes por ano que o Brasil; mercado "hermano", porém, está estagnado, enquanto o brasileiro segue em expansão

Marco Tomazzoni - iG São Paulo | - Atualizada às

Tirando um ou outro filme argentino – em geral, excelente – que chega ao circuito comercial brasileiro, pouco se sabe a respeito do que é produzido pelos países vizinhos. A melhor chance de descobrir um pouco mais é o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo , que começa nesta sexta-feira (13) para o público (a abertura para convidados acontece esta quinta-feira).

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O paralelo com o cinema argentino não é ao acaso. Nos últimos anos se convencionou dizer que os filmes produzidos por lá são melhores do que os feitos aqui – até um Oscar eles ganharam em 2010, com "O Segredo dos Seus Olhos". Coloque na conta "Medianeras" , "Um Conto Chinês" , "Abutres" e "Dois Irmãos" , por exemplo, que passaram pelas telas brasileiras com boas críticas e público, e eis um cenário vitorioso.

"É uma comparação bastante distorcida", afirma Francisco Cesar Filho, um dos curadores do Festival de Cinema Latino-Americano. "Os filmes argentinos que chegam ao Brasil são um décimo da produção deles, são os que têm vocação para circular no exterior. Lá também tem comédia rasteira, filme de gênero sem ambição autoral."

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"Isso é um mito", concorda Paulo Sérgio Almeida, diretor do Filme B, portal especializado em mercado cinematográfico. "Existe essa imagem porque vemos dez filmes argentinos em cinco anos e são os melhores, enquanto aqui se assiste a muito mais filmes brasileiros. Nessa comparação, você vê a nata argentina, e não a brasileira."

"Um paralelo justo seria pegar meia dúzia de filmes brasileiros que circulam internacionalmente e compará-los com os argentinos", acrescenta Cesar Filho.

Proporcionalmente, porém, a produção de longas-metragens na Argentina é bem mais significativa. Os dois países lançam por ano nos cinemas cerca de 100 filmes locais, mas a economia brasileira é cinco vezes maior, assim como o número de habitantes.

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Esse descompasso se explica pela existência do Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA), o equivalente argentino à Ancine (Agência Nacional do Cinema) no Brasil. Há quase 20 anos em atividade, o órgão é dotado de orçamento próprio para fomento da indústria cinematográfica, administra escolas de formação e apoia a realização de filmes em praticamente todas as etapas, inclusive em um gargalo no Brasil, a exibição.

Divulgação
'A Mulher Sem Cabeça', da diretora Lucrecia Martel: novo cinema argentino

Isso porque o INCAA administra salas próprias, onde exibe filmes que, do contrário, não teriam chance em meio aos blockbusters de Hollywood que dominam os espaços multiplex. "O instituto também um canal de TV a cabo que exibe a produção. Aqui, existe um canal privado similar, mas que não passa 24 horas de cinema brasileiro", comenta Cesar Filho. Segundo ele, há também um esforço no sentido de promover as produções no exterior.

"Há 10 anos eles empacotaram uma geração muito talentosa e venderam para o mundo inteiro como o 'novo cinema argentino' (formada por nomes como Pablo Trapero, Lucrecia Martel e Lisandro Alonso). Isso assegura uma repercussão internacional muito positiva. Mal comparando, a última vez que se fez algo assim no Brasil foi nos anos 1960, no cinema novo."

"Por um lado, o Brasil tem mais dinheiro, mas por outro, a Argentina tem investimento direto", afirma Paulo Sérgio Almeida. "Lá o cinema é levado muito a sério como profissão – é como ser um engenheiro, advogado – e existem 20 mil estudantes. Aqui se investe muito mais no setor, mas é investimento indireto, através de editais e um complexo de leis de incentivo, que burocratiza o planejamento de um filme: em vez de durar um ou dois anos, se estende por três ou quatro."

Diretor de "Na Estrada", que chega agora aos cinemas do Brasil, e frequente coprodutor de longas argentinos, Walter Salles lamenta a janela existente entre um filme e outro no país. "Muitas vezes o tempo de espera para que um realizador brasileiro que fez um bom primeiro filme chegue ao segundo é enorme", lamenta. "Na Argentina, Pablo Trapero filma praticamente a cada ano. Ele trabalha com três roteiristas – dois deles já fizeram seus primeiros filmes e estão com novos projetos encaminhados."

Se há boas condições para produção e exibição, isso não significa necessariamente boa receptividade do público. Em 2011, apenas 7,5% do total do público argentino nos cinemas assistiu a produções nacionais – no Brasil, mesmo com uma queda significativa em relação a 2010, esse número fechou em 12,6%.

AE
Ricardo Darín: sinônimo de bilheteria na Argentina

"Lá existe um preconceito grande contra o cinema argentino. Nós gostamos mais de cinema argentino do que eles", conta Paulo Sérgio, do Filme B. "E não há nenhuma política para conquistar esse público. Tirando essas salas do INCAA, filme argentino só entra em multiplex, no meio de dez filmes estrangeiros. A competição é pesada."

Além disso, enquanto nós temos Wagner Moura , Selton Mello, Ingrid Guimarães, Deborah Secco e outros astros locais para atrair espectadores, na Argentina Ricardo Darín assume sozinho a responsabilidade. As parcerias do ator com Pablo Trapero ("Abutres", "Elefante Branco") e Juan José Campanella ("O Segredo dos Seus Olhos", "Clube da Lua", "O Filho da Noiva") sempre encontraram respaldo nas bilheterias e "Um Conto Chinês", em 2011, foi o filme argentino mais visto do ano por lá – 910 mil espectadores, bem à frente do segundo colocado, "Viudas", com 395 mil.

"Ricardo Darín é um marketing que se criou naturalmente, por ele mesmo. Não foi construído e é um fenômeno isolado", explica o diretor do Filme B.

É apenas uma amostra do tamanho do mercado argentino, ínfimo se comparado ao brasileiro. Na América Latina, o México é o grande modelo de negócio – o país tem o maior parque exibidor, com 5,1 mil salas , e o maior faturamento, com US$ 788 milhões em 2011.

O Brasil vem em segundo lugar, com arrecadação próxima – US$ 758 milhões –, mas muito atrás em salas, cerca de 2,5 mil, o que comprova o potencial de mercado. A comparação com a Argentina parece quase injusta: os "hermanos" tem 900 cinemas e deixaram US$ 235 milhões nas bilheterias no ano passado.

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"A Argentina tem o mercado praticamente de uma cidade só, muito concentrado em Buenos Aires, que não deverá crescer nos próximos anos", conta Paulo Sérgio.

"No Brasil, sim. Primeiro pela entrada de exibidores estrangeiros, que acirrou a concorrência, a expansão do número shoppings e a chegada da classe C. A não ser que haja algum freio que diminua um pouco o ritmo, está prometida uma expansão grande. Além disso, faltam salas. No México, nao há mais onde construir – todas as cidades de porte médio têm cinema. No Brasil, até no Rio de Janeiro e em São Paulo se tem dificuldade de encontrar um cinema perto de casa."

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