"Tive muito mais repercussão e força lá fora", afirma diretora Júlia Murat

Estreante em ficção com o premiado "Histórias que Só Existem Quando Lembradas", cineasta ataca sistema de produção no Brasil e reconhece que fez um "filme de festival"

Marco Tomazzoni - iG São Paulo | - Atualizada às

Getty Images
Júlia Murat no Festival de Toronto, no ano passado

Um pequeno filme independente brasileiro vem chamando a atenção no exterior. Com passagem por mais de 40 festivais, como Veneza e Toronto, e 28 prêmios no currículo, "Histórias que Só Existem Quando Lembradas" se converteu na mais laureada produção nacional desde "Central do Brasil". Em cartaz atualmente em países diversos como Holanda, Polônia, França e Estados Unidos, o longa-metragem estreou no Brasil neste final de semana em circuito acanhado, com cópias em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

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"Estou um pouco frustrada", comentou ao iG a diretora Júlia Murat, 33 anos e grávida de oito meses, que debuta em longas de ficção com "Histórias...". "Sabia desde o início que isso ia acontecer, o processo do filme foi esse. Consegui dinheiro lá fora e não no Brasil. Fui recusada pelo Festival de Brasília e entrei em Veneza. Era muito claro que eu teria muito mais repercussão e força lá fora, por mais contraditório que isso possa parecer, do que aqui. O Brasil hoje está voltado para cinema comercial. Há muito dinheiro, só que quase todo é colocado nas mãos de pouquíssimas produtoras que fazem filmes comerciais. A distribuição é quase igual. Esse é panorama que se tem hoje, está muito difícil fazer um filme que fuja disso."

A ideia para o projeto surgiu em 1999, quando Júlia fazia assistência de direção para a mãe, Lúcia Murat , em "Brava Gente Brasileira". Nas filmagens na localidade de Forte Coimbra, no Mato Grosso do Sul, a equipe descobriu que o cemitério local estava fechado há dez anos e os moradores que morriam precisavam ser enterrados em Corumbá, a sete horas de distância.

A imagem do cemitério trancafiado deu origem a um argumento calcado no realismo mágico, trabalhado durante anos, primeiro num curso no roteiro, depois em um workshop em Madri e, por fim, ao lado de Maria Clara Escobar e Felipe Sholl. No meio do caminho, Júlia dirigiu o documentário "Dia dos Pais" (2008), na verdade um laboratório para as filmagens da ficção, servindo para estudar locações e os diálogos de comunidades perdidas no interior brasileiro.

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Com dificuldades para captar recursos no Brasil, Júlia conseguiu apoio primeiro na Argentina, através da produtora e diretora Julia Solomonoff, assistente de Walter Salles em "Diários de Motocicleta". "É interessante que o instituto de cinema argentino (o INCAA, equivalente à Ancine no Brasil) tenha colocado dinheiro no filme. É raro, especialmente para um primeiro filme", disse Júlia, que escalou profissionais argentinos (como o diretor de fotografia Lucio Bonelli) para formalizar a coprodução.

Da França, vieram Marie-Pierre Macia e Juliette Lepoutre, velhas conhecidas de Lúcia Murat. Produtora de filmes premiados como "O Cavalo de Turim" , de Béla Tarr, e consultora do romeno "4 Meses, Três Semanas e 2 Dias", ganhador da Palma de Ouro, Marie-Pierre foi por muito tempo curadora da Quinzena dos Realizadores, mostra paralela de Cannes. Tamanha experiência no meio foi fundamental para que "Histórias...", segundo Júlia, circulasse mundo afora.

"Sem dúvida nenhuma o filme deslanchou internacionalmente por causa das francesas, elas conhecem muita gente", contou a diretora. "Espero que tenha uma qualidade do filme envolvida nisso (risos), pelo menos nos prêmios não tiveram influência nenhuma, mas elas conseguiram colocar o filme em Veneza , Toronto e San Sebastián , por exemplo."

"Filme de festival"

Júlia também tem claros os motivos pelos quais "Histórias..." tem sido tão bem aceito. Em primeiro lugar, por sua temática universal, que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo – a trama enfoca uma comunidade esquecida no interior do Brasil, composta basicamente por idosos, cuja rotina é interrompida pela chegada de uma jovem mochileira.

Divulgação
Júlia Murat com o ator Luiz Serra no set do filme

Além disso, a diretora admitiu que o longa, mesmo não intencionalmente, tem jeito de "filme de festival". "É inevitável que esses cineastas da moda acabem influenciando o cinema que é feito hoje", explicou ela, que assumidamente se inspirou nos trabalhos de Jia Zhang-Ke, Hirokazu Kore-eda e Carlos Reygadas, entre outros realizadores, todos laureados mundo afora. "Os cineastas que me influenciaram sem dúvida nenhuma se relacionam com a moda de festival atualmente."

"Ao mesmo tempo", acrescentou, "os festivais hoje estão procurando novos realizadores, querem descobrir pessoas. É muito mais fácil entrar num festival com seu primeiro ou segundo filme, ganhar e virar notícia, do que com um terceiro filme. O terceiro filme hoje é o mais complicado de todos."

De volta ao Brasil, Júlia Murat passou com "Histórias..." pelo Festival do Rio e Mostra de São Paulo. Amparada pela Vitrine Filmes, distribuidora que se tornou um oásis para o cinema autoral feito no país, a cineasta demonstrou desgosto para com o circuito exibidor nacional. "O que é muito triste é que a gente tem recebido notícias de que exibidores encaram o filme como algo absolutamente difícil e que vai não dar público – o que é muito doido, porque a gente já ganhou quatro prêmios de júri popular."

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"Se tem uma mentalidade muito ruim no Brasil hoje de que se sabe qual é o mercado, quem é o público, como ele funciona e o que quer ver. Isso faz com que não se inove nunca. Acho que precisamos quebrar esse círculo maléfico. É um pouco burro para o cinema brasileiro, porque até o próprio cinema comercial vai precisar se repetir de alguma maneira para manter essa lógica."

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