"Histórias que Só Existem Quando Lembradas" experimenta com fantástico

Celebrado no exterior, estreia na ficção da brasileira Júlia Murat subverte aura documental através de dívida com realismo mágico

Marco Tomazzoni , iG São Paulo |

Com uma carreira surpreendente no exterior, recheada de prêmios e participações em festivais, "Histórias que Só Existem Quando Lembradas", estreia de Júlia Murat em longa-metragem de ficção, entra em cartaz nesta sexta-feira (06) em circuito limitado, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Rigoroso em seu conceito, o filme pode parecer árido, mas logo dá lugar a um painel intrigante sobre passado, velhice e fantasmagoria, que deve muito ao realismo mágico.

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Coprodução entre Brasil, Argentina e França, "Histórias..." tem em seu DNA a predisposição para ser bem aceito no circuito internacional – a francesa MPM Film produziu "O Cavalo de Turim" , do húngaro Béla Tarr, premiado em Berlim, e tem entre suas sócias a antiga responsável pela Quinzena dos Realizadores, reduto do cinema autoral no Festival de Cannes .

Além do que, o filme é assumidamente reflexo das influências que Murat – filha da diretora Lúcia Murat – sofreu de artistas consagrados pela crítica, como o mexicano Carlos Reygadas e o chinês Jia Zhang-Ke, através do ritmo lento, da beleza das imagens, dos planos longos, do parentesco com o documentário. Esse pedigree, digamos, colocou a produção no radar do cinema de arte.

Por maior que seja sua dívida com as referências, "Histórias...", no entanto, tem méritos suficientes para se sustentar. A trama começa circular, para mostrar a rotina esmagadora na abandonada comunidade de Jotuomba, no Vale do Paraíba, composta por uma dezena de idosos. Madalena (Sonia Guedes) acorda todo dia de madrugada e repete maquinalmente o passo a passo de assar pão, entregá-lo na venda de Antonio (Luiz Serra), discutir, sentar e tomar café. O dia-a-dia ainda prevê a ida a missa, a limpeza da entrada do cemitério – que permanece sempre trancafiado – e a escrita, à luz de velas, de cartas diárias de amor para o marido que já morreu.

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Praticamente em escombros, a cidade, ela própria um personagem, também reflete as cicatrizes da velhice e da falta de cuidado. Cortada por trilhos da linha de um trem que não existe mais, a vila serve de cenário para que os moradores vaguem feito espectros, num simulacro da eternidade. Até que a monotonia é rompida pela chegada de Rita (Lisa E. Fávero), jovem mochileira fascinada por aquele lugar parado no tempo.

Hospedada na casa de Madalena, que a recebe com um misto de desconfiança e indiferença, Rita não demora a perturbar o equilíbrio e placidez de Jotuomba. Suas perguntas, atitude despojada e apetrechos – câmeras digital, pinhole, mp3 – representam não só uma modernidade distante dali, mas permitem o vislumbre de uma vida repleta de cores que há tempos desbotaram.

Aos poucos, de maneira discreta, a aura documental de "Histórias..." – a diretora fez antes um documentário para investigar a realidade dos moradores da região – começa a ser contaminada cada vez mais pelo fantástico. A transição é discreta, mas constante, típica de um cinema de sutilezas, pouco em prática no cenário brasileiro.

Compactuar com o filme de Júlia Murat é mais fácil do que parece. Se não pelo sentimento de abandono, a empatia se dá ao menos pela discussão de se integrar um grupo – "a que lugar você pertence?", indaga um dos personagens, como se na resposta residisse a solução para uma questão muito maior.

"Histórias que Só Existem Quando Lembradas" não é corriqueiro, o que, no Brasil, é motivo mais do que suficiente para procurar assisti-lo.

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