Opinião - Tim Burton: bem nas bilheterias, mal de crítica

Há anos sem um filme considerado bom, diretor de "Sombras da Noite" tem mantido média de orçamentos gigantescos e presença cativa do público

Marco Tomazzoni , iG São Paulo |

Ao longo dos anos, convencionou-se esperar com ansiedade por um novo filme de Tim Burton – com "Sombras da Noite" , que estreou nesta sexta-feira (22) no Brasil, não foi diferente. Afinal de contas, trata-se do diretor de "Os Fantasmas Se Divertem", "Edward Mãos de Tesoura" e os dois primeiros "Batman", antes de Joel Schumacher assumir o personagem e enterrá-lo até Christopher Nolan aparecer.

Analisando com um pouco mais de calma, no entanto, o entusiasmo tende a esmaecer. É só se fazer uma pergunta simples: desde quando Burton não faz um filme bom?

De acordo com muitos críticos, desde "Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet" (2007). O musical macabro com Johnny Depp tem índice de aprovação de 86% conforme o site Rotten Tomatoes, que agrega a recepção de filmes pela imprensa. Por outro lado, "Sweeney Todd" teve uma das menores bilheterias da carreira do cineasta, uma tendência quando ele resolve exercer sua faceta autoral, desvinculada dos grandes estúdios.

Não é a mesma situação de "Alice no País das Maravilhas" (2010), o universo da personagem de Lewis Carroll reimaginado em 3D. Se a maior parte dos críticos torceu o nariz para o filme, uma superprodução da Disney de US$ 200 milhões, o mundo inteiro correu para os cinemas, ainda embalado pela febre tridimensional disseminada por "Avatar". O resultado? Mais de US$ 1 bilhão nas bilheterias.

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Com "Sombras da Noite", ainda não foi a vez de Burton fazer as pazes com os jornalistas. A adaptação da novela sobrenatural dos anos 1960 tem apenas 40% de aprovação, o índice mais baixo de todos os seus filmes. O orçamento, porém, continuou nas alturas: a Warner desembolsou US$ 150 milhões para rodar o capricho do diretor e Johnny Depp, seu parceiro usual no crime.

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O diretor Tim Burton no set de "Sombras da Noite"

Essa tem sido uma constante nos filmes do diretor. Embalado por sua obsessão pelo visual – que pressupõe cenários gigantescos em tamanho real, efeitos especiais, figurinos elaborados –, ele não se interessa por projetos modestos e baratos. Tudo é em larga escala e dispendioso, em geral acima da casa dos US$ 100 milhões. A questão é que, nos últimos filmes de Burton, o visual tem se mostrado mais importante do que a própria história.

É verdade que essa sempre foi sua marca registrada. Desde cedo, o antigo animador da Disney com cabelos desgrenhados fez seu nome em cima disso. Não é bem o caso de "As Grandes Aventuras de Pee-wee" (1985), sua estreia em longa-metragem, mas em "Os Fantasmas se Divertem" (1988), a demência do fantasma Beetlejuice vinha acompanhada por um amplo aparato visual, uma excentricidade amplificada em "Edward Mãos de Tesoura" (1990), provavelmente seu melhor filme – ao menos é o que tem maior aprovação no Rotten Tomatoes, 91%, empatado com "Ed Wood".

Entre os dois veio "Batman" (1989), o primeiro grande orçamento entregue nas mãos de Burton, que até então materializava sua criatividade com poucos milhões (garantia de bom lucro, portanto, nas bilheterias). O filme foi um sucesso por se distanciar do ambiente fantasioso de "Superman", criar uma Gotham City sombria e acertar na escalação dos atores – Michael Keaton (repetindo a parceria de "Beetlejuice") como Batman e Jack Nicholson na pele do Coringa.

A era de ouro do cineasta continuaria com "Batman: O Retorno" (1992) – embora não tenha tido a mesma recepção – e "Ed Wood" (1994), cinebiografia em preto e branco daquele que detém até hoje o título de "pior diretor de todos os tempos". Depp, Martin Landau (que ganhou o Oscar de ator coadjuvante), Sarah Jessica Parker e Bill Murray estão no elenco de "Ed Wood", último filme barato de Burton (custou US$ 18 milhões) e, apesar das críticas entusiasmadas, seu maior fracasso de bilheteria.

A partir daí, a carreira de Tim Burton nunca mais foi unanimidade. Isso não impediu, no entanto, que sua popularidade continuasse crescendo e os estúdios abrissem suas portas para um profissional que, teoricamente, agradava tanto crítica quanto público. "Marte Ataca" (1996) foi um egocêntrico projeto pessoal do diretor (assim como "Sombras da Noite") que naufragou comercialmente. Na sequência, veio "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça" (1999), conto de fadas de horror com visual deslumbrante.

A refilmagem de "O Planeta dos Macacos" (2001) iniciou a fase na qual Burton está até hoje: sucesso comercial, críticas mistas. O longa faturou US$ 362 milhões pelo mundo e tem apenas 45% de aprovação no Rotten Tomatoes. Com jeito de drama tradicional, "Peixe Grande" (2003) era a esperança do diretor em conseguir uma indicação ao Oscar, mas não deu certo.

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"Frankenweenie": esperança para 2012

Com "A Fantástica Fábrica de Chocolate" (2005), outra refilmagem, a sina se repetiu: orçamento gigante (US$ 150 milhões), recepção morna e bilheteria polpuda – US$ 474 milhões.

Se os filmes com atores de Burton não têm sido de agrado geral, as animações são um capítulo à parte. Bem recebido, "A Noiva Cadáver" (2005) foi o primeiro longa animado do cineasta, mas ele já havia produzido vários outros cultuados, como "O Estranho Mundo de Jack" (1993) e "James e o Pêssego Gigante" (1996). Esse retorno às origens será coroado com "Frankenweenie", animação em preto e branco e em 3D que recupera um curta feito por Burton em 1984, quando ainda estava na Disney.

Animado em stop-motion e desenvolvido por quase uma década, "Frankenweenie" , sobre um cachorro que é ressuscitado dos mortos por seu dono, um menino metido a cientista maluco, reúne todo o universo celebrado pelo diretor: ambiente soturno, filmes de horror e uma doçura toda particular. Pode ser a chance de Burton finalmente se redimir.

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