Dez anos depois, diretor de Cidade de Deus diz ter prejuízo de R$ 4 milhões

Fernando Meirelles conversou com a imprensa durante debate no Cine Ceará 2012 e fez balanço dos 10 anos de “Cidade de Deus”

Priscila Bessa, enviada a Fortaleza |

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Fernando Meirelles participou de debate sobre os 10 anos de "Cidade de Deus"
Na tarde desta segunda-feira (4), Fernando Meirelles participou de debate na Assembléia Legislativa do Ceará, comemorando os 10 anos do filme “Cidade de Deus” , evento organizado pelo Cine Ceará 2012. No encontro, foi exibido o trailer de um making of sobre o longa, “Cidade de Deus 10 anos depois”, que será lançado posteriormente. A proposta do projeto é contar a história do filme sob o olhar dos meninos das favelas cariocas que ajudaram a fazê-lo.

Durante as quase duas horas de debate, Meirelles disse que está mais interessado em fazer TV do que cinema, conta que ainda amarga um prejuízo de R$ 4 milhões fruto dos investimentos do próprio bolso em “Cidade de Deus” e que a questão que o mobiliza para um próximo projeto profissional não é social e, sim, ambiental. A seguir os principais pontos do debate:

Elenco

“Hoje posso abrir um teste para 500 atores negros, mas há apenas 10 anos essa possibilidade não existia. Tinham no Brasil três ou quatro atores negros jovens e ao mesmo tempo eu sentia que atores da classe média não conseguiriam fazer aquele filme. Eu precisava de autenticidade”.

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Dom

“A minha ideia foi criar uma espécie de escolinha de cinema um ano antes. Alugamos um espaço no Rio, entrevistei dois mil garotos, selecionei duzentos, e fazíamos aulas em turnos. Nesse processo não foi dito a eles que eu iria fazer um longa. Na minha cabeça, se eu encontrasse os atores faria o filme e, se eu não encontrasse os atores naquele grupo, eu abandonaria o projeto. Acabei encontrando. Tenho uma teoria que atuar é como um dom. Acho que as pessoas nascem atores. Até arrisco dizer que quatro entre 100 pessoas são atores. Então na verdade o que eu preciso é achar os atores. E é isso que eu fiz. Eu não diria que eu formei atores, eu encontrei atores. Foi uma peneira. Que nem futebol”.

Do próprio bolso

“A minha carreira hoje sem dúvida se deve ao filme. Quando voltei após mostrá-lo em Cannes vim com uma pilha de 15 roteiros. Então se hoje faço cinema e tenho um acesso a financiamento internacional é por causa do filme. Agora, retorno direto por causa do Cidade de Deus, infelizmente, foi quase nada. Eu fiz contratos muito ruins. Coloquei meu próprio dinheiro para fazer o filme. O nosso país mudou muito, mas há dez anos ninguém ia investir num filme sobre favela com atores desconhecidos. Era uma total maluquice. Então acabei investindo”.

Prejuízo

“Na hora que o filme estava pronto eu quis recuperar o que investi e não tinha nenhuma experiência, nem um advogado muito bom. Fiz contratos muito ruins com as distribuidoras. O fato é que pela contabilidade da Miramax, apesar deles terem pago 1 milhão e 800 mil pelo filme, e ele ter feito 7 milhões de dólares nos Estados Unidos, ainda estou devendo 4 milhões e poucos mil dólares para zerar a conta e começar a receber. Eu vou lá na loja, o filme está nas prateleiras, mas eu ainda estou com um débito”.

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Processos

“Há dois ou três anos atrás recebi um cheque de 180 ou 190 mil reais, mas, coincidentemente, desde 2002 ou 2003, estou sendo processado por duas pessoas do filme. Esses processos já custaram mais do que esses cento e poucos mil reais, então ainda estou no débito. Para vocês terem ideia, tem o personagem do Matheus Nachtergaele e tinha um camarada na cadeia que cismou que aquele personagem é ele. Ano passado ganhei esse processo, mas também me custou cento e poucos mil reais dizer para o juiz que aquele cara não era ele”.

Duras críticas

“Logo que lancei o filme fui convidado para fazer um debate numa sala em São Paulo e, na verdade, fui esquartejado por uma parte das pessoas que estavam na mesa e pelo público que estava lá. Lembro de um camarada que estava sentado na minha frente que, em algum momento, falou: ‘Seu imbecil, seu filme vai ser esquecido em um ano’. Falou assim, na minha cara. Eu não esqueci essa frase e pensei: ‘Vamos ver daqui dois anos se o filme será esquecido’. E nós estamos aqui. Ele estava errado e o filme deve ter alguma coisa certa”.

Pedaço do Brasil

“Uma coisa que acho interessante e me deixa feliz é que o Cidade de Deus, além de colocar luz num setor da sociedade que estava esquecido, foi que depois que fiz esse filme outros produtores se aventuraram a entrar no mesmo tema. Esse universo dos excluídos urbanos começou a ter voz no país. A gente não tinha essa população no imaginário brasileiro. Acho que o filme ajudou a colocar um pedaço do Brasil no nosso imaginário”.

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O debate aconteceu na Assembléia Legislativa do Ceará
UPPs

“Desde a realidade de ‘Cidade de Deus’ as favelas mudaram muito. No início dos anos 70 cada facção dominava 10, 12 favelas. Depois vieram as milícias expulsando essas facções e agora esse próximo passo, que são essas UPPs. Claro só pode ser comemorado. Há problemas, mas parece que os resultados onde já tem UPP são muito positivos. Me parece que essa polícia pacificadora tardou para chegar, mas vai conseguir mudar o cenário das favelas do Rio. Tem uma coisa no Rio engraçada. O Rio não é cercado pelas favelas, as favelas fazem parte do Rio e com as UPPs parece que estamos justamente assumindo isso”.

Filmes no exterior

“Tenho feito filme internacional por uma simples questão de comodidade. Quando faço um filme fora do Brasil esse filme já aparece financiado e antes de estar filmado ele já está distribuído no mundo inteiro. Se for um fracasso ele faz 15 ou 20 milhões de espectadores. No Brasil é uma batalha para financiar e se você faz sucesso não chega a um terço do público”.

Televisão X cinema

“Na verdade gosto muito de televisão, principalmente essas séries americanas mais bem cuidadas. Elas têm me tocado mais do que filme. Porque um longa-metragem tem uma hora e meia, então você não tem tempo para expor um pano de fundo, de desenvolver personagens. Antes a TV era muito superficial. Hoje assisto essas séries e acho que os filmes são muito superficiais. Cada vez mais estou interessado em fazer televisão”.

Próximo projeto

“Se fala muito do social, mas a questão central para mim no mundo hoje é a questão ambiental. Tenho lido e ficado quase desesperado. Isso não é uma brincadeira. Os polos estão derretendo, o nível do mar está subindo, somos responsáveis pelo aquecimento e continuamos colocando carbono. A gente não pode esperar uma geração para mudar. É quase como uma economia de guerra. Hoje se eu fosse abordar um tema, provavelmente é o que vou fazer a partir do ano que vem, vai ser totalmente em cima de meio ambiente, no sentido de dar uma sobrevida para o planeta”.

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