"Paraísos Artificiais" faz retrato libertário da juventude contemporânea

Sexo, drogas e música eletrônica são armas do filme de Marcos Prado, que decepciona em sua estreia na ficção

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Sexo, drogas e... música eletrônica. Em "Paraísos Artificiais", que entra em cartaz nesta sexta-feira (dia 4), a santíssima trindade da rebeldia juvenil mundial perde o rock para dar espaço às batidas incessantes da dance music. Já era hora de alguém mostrar o ambiente das raves país afora, um fenômeno cultural nada recente até então menosprezado pelo cinema e pela televisão.

Daniel Behr /Divulgação
Nathalia Dill em 'Paraísos Artificiais'

Esse alguém é Marcos Prado, sócio de José Padilha e produtor de "Tropa de Elite 1 e 2". Prado dirigiu "Estamira" (2006), um dos melhores documentários recentes produzidos por aqui, e sua estreia em longas de ficção era aguardada há tempos.

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Lívia de Bueno em 'Paraísos Artificiais'
Ela chega na forma de um filme claramente jovem em que os dilemas e curiosidades da idade ditam a história, escrita a partir de um argumento do próprio diretor. A trama começa com Nando (Luca Bianchi) saindo da prisão e encontrando o irmão mais novo (César Cardadeiro, sempre bem) envolvido com drogas.

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A partir daí, a linha do tempo avança e recua para mostrar a relação de Nando com a DJ Érika (Nathalia Dill) em Amsterdã e da ida a uma rave à beira-mar no Nordeste, no passado, em que o triângulo é completo pela ousada Lara (Lívia de Bueno). Nando, logo se descobre, havia ido à Holanda buscar um carregamento de ecstasy e foi preso na volta para o Brasil, daí a consciência pesada em relação ao caçula.

Nada original, a montagem embaralhada pouco acrescenta à fórmula, que busca formar um retrato libertário da juventude contemporânea – embora, é preciso dizer, o espírito da coisa esteja muito mais relacionado à inconformidade do movimento hippie. A trilha sonora é repleta de batidas, mas o resto parece um decalque dos anos 1960, num clima neozen, com meditação e incenso, e uso de drogas psicodélicas.

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Verdade que o interesse dos jovens, na essência, pouco mudou em todo esse tempo. A amizade sem amarras, a busca por experiências novas, o conflito com os pais, o sexo recém-descoberto, o medo da velhice, temas que sempre povoaram a mente de adolescentes e adultos novatos estão de alguma forma em "Paraísos Artificiais". Nisso, fica evidente a tentativa de diálogo com um público determinado.

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Luca Bianchi e Nathalia Dill em 'Paraísos Artificiais'

Mas falta alguma coisa. Apesar dos ingredientes certos, a receita não dá liga. Em nenhum momento a história captura o espectador, não importa o personagem. Há uma certa frieza com a qual o conjunto é conduzido que impede uma identificação maior. Nem mesmo o romance dos protagonistas pega fogo – assim, fica realmente difícil.

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E Prado teve coragem. Em busca de naturalidade, abusou das cenas de uso de drogas, de nudez e de sexo, graças à entrega de um elenco competente (destaque para Nathalia Dill, que deixou os pudores em casa).

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O diretor é abertamente favorável à legalização das drogas, como disse em entrevista ao iG , e a forma solar com que aborda o consumo sugere uma honestidade pouco comum em relação ao assunto. Pena que nem isso ele soube sustentar – rumo ao final, eis que, antes tarde do que nunca, o moralismo dá as caras.

Obviamente o objetivo de "Paraísos Artificiais" não era ser um panfleto, mas o desfecho parece pouco confortável em relação ao resto da história. Uma produção cara (R$ 10,5 milhões), com locações belíssimas em Amsterdã e na Praia do Paiva, em Pernambuco, que acaba desperdiçada. Talvez, no final das contas, o filme até possa soar simpático. Não espere muito mais do que isso.

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