Chega de caretice", pede Marcos Prado, diretor de "Paraísos Artificiais

Sócio de José Padilha defende a descriminalização das drogas, fala de juventude e de sexo no cinema

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

As duas partes de "Tropa de Elite" provaram que José Padilha e Marcos Prado são bons de briga. Padilha, o diretor, comandou os filmes misturando política e violência urbana com um inegável potencial de bilheteria. Nas linhas de frente, garantindo que tudo desse certo, estava Prado, o produtor, que tenta agora fazer seu próprio barulho com "Paraísos Artificiais", em cartaz nesta sexta-feira (dia 4) no país.

Em sua estreia em longas de ficção (é dele o premiado documentário "Estamira"), o cineasta não tira o pé do acelerador e apresenta uma nova promessa de debates acalorados, colocando nas telas cenas despudoradas de sexo e consumo de drogas. Questionado sobre uma possível polêmica, Prado é direto: "Chega de caretice" - palavra que repetiu mais de uma vez durante a entrevista ao iG .

Daniel Behr /Divulgação
Nathalia Dill e Luca Bianchi em 'Paraísos Artificiais'

"Paraísos Artificiais" se volta para o universo da música eletrônica, pouco explorado no cinema e televisão. Numa trama que vai e vem no tempo, descobre-se a relação da DJ Érika (a global Nathalia Dill), da amiga Lara (Lívia de Bueno) e do jovem Nando (Luca Bianchi), indo de uma rave à beira-mar no Nordeste, passando por uma temporada em Amsterdã, na Holanda, até chegar ao Rio de Janeiro. Como pano de fundo, o tráfico e o consumo de drogas sintéticas, em que o ecstasy é o rei.

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Divulgação
Marcos Prado, diretor de 'Paraísos Artificiais'
Marcos Prado contou que a ideia para o filme partiu de uma preocupação "careta" com o filho adolescente. "Fiquei meio assustado com versões sintéticas de drogas como peiote, mescalina, ayahuasca, que ninguém sabe o que vão causar a longo prazo ", disse, acrescentando que conversas com sociólogos e psicanalistas ampliaram a pesquisa para o mundo jovem.

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"Existe uma angústia existencialista muito grande nesse jovem entre 16 e 20 anos. Queria descobrir quem são os garotos que estão querendo consumir essas drogas, que tipo de comportamento coletivo existe nessa faixa etária, do rito de passagem de jovem para adulto, dos excessos que rolam nesse momento da vida."

O diretor reconhece que esses elementos entraram no roteiro "subliminarmente" e que, embora a cena eletrônica já seja estimagtizada pelo uso de drogas, não se trata de uma questão de nicho. "As drogas sintéticas aparecem em celebrações jovens de todos os tipos, de micaretas a casamentos."

Descriminalização das drogas

Demonizar as drogas, conforme Prado, não ia atrair o público-alvo, por isso o filme dá margem para uma temerosa interpretação de apologia, tamanha a naturalidade com que os personagens consomem os entorpecentes. Não seria nenhuma surpresa se entidades conservadoras torcessem o nariz.

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"(Se mostrasse uma visão moralista) nunca ia falar com a juventude, iam me chamar de velho chato. Mas também não podia fazer apologia: são drogas que ninguém sabe os efeitos, não tem bula ou políticas de prevenção. O governo só fala do crack, tampa o sol com a peneira. O filme fica ali, numa linha tênue entre ser moralista e apológico. Passei noites sem dormir para tentar dar esse equilíbrio. Acho que até pisei mais no moralismo."

Daniel Behr /Divulgação
Lívia de Bueno e Nathalia Dill em 'Paraísos Artificiais'

Mesmo assim, Prado é abertamente a favor da legalização das drogas. "Sou a favor de descriminalizar tudo e tratar cada droga com a sua perspectiva. A disputa pelo ponto de comercialização é a causa de grande parte da violência urbana. Vivemos numa sociedade muito careta e hipócrita. Os argentinos legalizaram a maconha para ser plantada em casa e nós aqui sem discutir, até o Fernando Henrique (Cardoso) está tentando fazer alguma coisa e não anda."

A ressalva, segundo o diretor, fica por conta da regulamentação. "O ser humano tem de ser livre para exercer o livre arbítrio, mas há responsabilidade: teríamos que regulamentar e oferecer muita informação. Cartilhas, falar nas escolas, para todo mundo entender os riscos. É uma discussão profunda, a passos lentos."

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A mesma postura libertária é adotada para as cenas de sexo. Em "Paraísos Artificiais", há nudez, lesbianismo e uma transa a três. A censura é 16 anos, mas nem Prado entende direito como conseguiu escapar do rótulo "proibido para menores de 18". "É um brado de liberdade para o cinema nacional", defendeu o cineasta. "Chega de puritanismo, caretice. O cinema mundial é meio covarde nisso."

Elenco quase desconhecido

"Paraísos Artificiais" tem orçamento de R$ 10,5 milhões, significativo não só para um diretor estreante em ficção como para qualquer produção brasileira. Além das filmagens no exterior, as próprias locações no Nordeste consumiram uma fatia generosa desses recursos – para ter ideia da dimensão do set, 1,5 mil figurantes foram contratados para a cena de uma rave. Na tela, a imagem dessa multidão dançando é impressionante.

Por que encarar um projeto desse tamanho logo no primeiro filme? "Porque a gente é meio maluco", respondeu Prado, sorriso no rosto. "Eu e Padilha gostamos de desafios, obstáculos. Por um lado, me sentia preparado para encarar um projeto gigante como esse e, por outro, morria de medo. A gente passou por muita coisa para produzir 'Tropa' – quase fui executado por traficantes, fechamos o (morro) Dona Marta, fui criticado, apedrejado. A vida é curta: 'live and let die'."

Crítica: "Paraísos Artificiais" faz retrato libertário da juventude contemporânea

Mesmo com um investimento desse tamanho, contratar um elenco conhecido do público não estava entre as prioridades do diretor. "Depende do filme, mas está comprovado que ator não faz bilheteria. É só ver 'Xingu', por exemplo, e Selton Mello e Grazi Massafera em 'Billi Pig' (os dois filmes não tiveram bom desempenho nos cinemas). É legal ter alguém desconhecido, que as pessoas possam achar interessante. Eu precisava era de bons atores e guardei minha covardia para uma âncora, para não ser um louco psicopata de vez. Aí peguei a Nathalia Dill, que é muito talentosa, está na Globo e pode dar uma segurança comercial."

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