Rodrigo Teixeira, o infiltrado em Hollywood

Produtor de 35 anos tornou-se o brasileiro mais quente no cinema dos EUA: vai fazer filme com Brad Pitt e Ben Stiller; leia entrevista ao iG

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Robert de Niro e Al Pacino olham com cara de poucos amigos por sobre o ombro do produtor Rodrigo Teixeira em seu escritório em São Paulo. "São meus guarda-costas", afirma o empresário de 35 anos, olhando orgulhoso para a foto de cena dos atores em "O Poderoso Chefão 2" (1974). Mal sabem eles que estão zelando pela segurança do brasileiro mais quente hoje em Hollywood.

CONHEÇA OS PROJETOS DE RODRIGO TEIXEIRA

Até há pouco tempo desconhecido do grande público, Teixeira chamou a atenção no início de abril por ter comprado os direitos autorais de "Blood on the Tracks" , disco clássico de Bob Dylan de 1975, para uma futura adaptação no cinema. A informação foi noticiada pela Variety, bíblia do mercado audiovisual norte-americano, e repercutiu mundo afora.

Claudio Augusto
O produtor Rodrigo Teixeira posa na biblioteca de seu escritório: ás do mercado de direitos autorais
Claudio Augusto
Foto original de "O Poderoso Chefão 2" autografada pelo fotógrafo de cena fica na parede
Essa não foi a primeira incursão da RT Features, empresa do produtor, em Hollywood. Teixeira circula silenciosamente por escritórios de Los Angeles e Nova York desde 2008, comprando direitos de livros com potencial para virar filme. O brasileiro começou a adquirir uma reputação de bom negociante nos bastidores e, em pouco tempo, estava em reuniões nos escritórios de George Clooney, Johnny Depp e de outros astros em busca de parcerias.

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Atualmente, a produtora tem projetos engatilhados com Brad Pitt, Harrison Ford, Ewan McGregor e Ben Stiller, sem contar longas-metragens brasileiros com grande potencial de bilheteria, caso do filme sobre a vida de Tim Maia e de "O Mistério do Cinco Estrelas", adaptação do adorado romance juvenil de Marcos Rey. A RT também é uma das patronas do Festival Sundance, vitrine do cinema independente norte-americano – em troca de patrocínio, a empresa tem direito a analisar em primeira mão os projetos que passam pelos prestigiados laboratórios do festival.

Carioca, Rodrigo Teixeira se mudou muito cedo com a família para São Paulo. Enquanto cursava a faculdade de administração de empresas, trabalhou por pouco mais de um ano no mercado financeiro antes de virar empreendedor, primeiro no mundo editorial. Criou as coleções "Camisa 13", em que autores consagrados escreviam sobre seus times do coração, e "Amores Expressos", na qual brasileiros transformavam em livro suas experiências numa cidade estrangeira.

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Quadro no escritório do produtor: habilidade de reunir investidores

Teixeira pulou para o cinema quando a coleção "Camisa 13", junto com Shakespeare, inspirou a comédia "O Casamento de Romeu e Julieta" (2004), de Bruno Barreto. À estreia ao lado do poderoso clã do cinema brasileiro se seguiram curtas de Fernando Coimbra, André Doria e Charly Braun, mas o produtor continuou de olho no mercado de direitos autorais, que praticamente inexistia por aqui. E mais: recentemente descobriu um novo filão, ao negociar possíveis cinebiografias direto com a família dos retratados, caso de Clarice Lispector e de Pepê, antigo campeão mundial de asa-delta.

Hábil em atrair investidores, Teixeira montou um conjunto poderoso de projetos que, embora, ainda não concretizados, prometem fazer barulho (veja abaixo). Até agora, Teixeira traz no currículo "O Cheiro do Ralo", "Natimorto" , os documentários "B1 - Tenório em Pequim" , "Vale dos Esquecidos" e "Heleno" , lançado há pouco. Em breve estreia seu primeiro filme rodado nos Estados Unidos, do qual faz mistério, e "O Abismo Prateado" , baseado numa música de Chico Buarque, cuja obra está na mãos do produtor – dela também saiu a minissérie "Amor em 4 Atos", exibida na Rede Globo.

Rodeado em seu escritório por livros e souvenirs, Rodrigo Teixeira fala ao iG sobre a sua entrada em Hollywood, comenta o preconceito inicial que sofreu por ser brasileiro, explica como escolhe seus projetos e diz que o produtor "é o verdadeiro dono do filme".

CONHEÇA OS PROJETOS DE RODRIGO TEIXEIRA

iG: Como a RT Features funciona no Brasil e nos EUA?
Rodrigo Teixeira:
São duas estruturas independentes, uma no Brasil e outra nos EUA, que nem se conversam. No Brasil tenho uma equipe de 14 pessoas trabalhando diariamente nas minhas produções. Querendo ou não, minha base é aqui. Os executivos que trabalham no mercado norte-americano são eu e o Fernando (Loureiro, funcionário da RT Features). Tenho um advogado, sou representado por uma agência de talentos, a United Talent Agency, uma das maiores dos EUA, e tenho dois grupos de advogados que me orientam, além de contadores. Não tenho uma estrutura física nos EUA. Quando vou para lá, passo no escritório dos meus agentes, tenho oito ou nove reuniões por dia. Os projetos de lá não conversam com os projetos brasileiros porque não partem de incentivo fiscal: são investimentos de pessoas físicas e jurídicas estrangeiras.

Quem manda é o produtor. Ele dá asas para o diretor fazer o filme dele. O crédito é do diretor, mas quem ganha o Oscar de melhor filme? O produtor.

iG: Quando entrou no mercado, você já tinha habilidade de arrecadar recursos?
Rodrigo Teixeira:
Isso. Identificar uma ideia, oferecê-la e tentar trazer recursos, capto através de um relacionamento pessoal nosso. Essa é a minha habilidade, que só progrediu dali, e talvez seja a minha melhor qualidade como produtor.

iG: Com que frequência viaja para os EUA?
Rodrigo Teixeira:
Todos os meses, de quatro a dez dias. Dias intensos. Só tive um respiro de fevereiro para cá.

iG: Você tem interferência criativa nesses projetos?
Rodrigo Teixeira
: Muita. Quando compro os direitos, eles são meus. "Black Hats" (faroeste que será estrelado por Harrison Ford), por exemplo, fui eu que paguei, sou o produtor titular. Porque o outro produtor tem um currículo maior do que o meu o nome dele vem antes, mas se eu quiser posso demiti-lo. Posso opinar no que eu quiser, achar o roteiro uma merda, tudo.

iG: Em Hollywood o produtor é quem tem o poder?
Rodrigo Teixeira:
Quem manda é o produtor. O produtor é um realizador, tem que parar para pensar. Ele dá asas para o diretor fazer o filme dele. A gente levanta o dinheiro, às vezes tem ideia de quem contratar, garante o sossego para o diretor trabalhar artisticamente no projeto. O crédito é do diretor, mas quem ganha o Oscar de melhor filme? O produtor. Ele é o dono do filme, essa é a verdade. O (José Eduardo) Belmonte dirigiu "O Gorila" – o filme é nosso. Se fracassar, é tanto dele quanto meu o fracasso. "Heleno" é das produtoras Goritzia e RT Features. Se quiserem falar do mérito da direção, tudo bem, mas o filme também é dos produtores. Se não tivesse nosso esforço, o filme não estava lá. Botamos dinheiro para caramba ali, demos aval. Acho que isso é obrigação do mercado entender. Não é questão de ego, é real. A gente tem muito mais trabalho do que o diretor. Pagamos conta o dia inteiro, fazemos a manutenção do filme, relatório, todo o trabalho por trás. É o presidente de banco, o maior acionista.

Claudio Augusto
Rodrigo Teixeira em seu escritório em São Paulo
iG: Como uma produtora brasileira entra no mercado de Hollywood?
Rodrigo Teixeira:
Simplesmente tentando. Não há limitação hoje para acesso à cultura. Se eu leio um livro americano, e eu leio muito, e acredito que vale a pena comprar os direitos, se estiver disponível vou tentar adquirir. Eles querem vender. O que aconteceu: comecei a comprar livros e outras produtoras passaram a me procurar para se associar à gente, como o Ben Stiller. O Brad Pitt queria um livro que já tínhamos comprado e veio nos procurar.

iG: É como um investimento?
Rodrigo Teixeira:
Exatamente. Funciona quase como um olheiro, mas não é. Eu poderia ser um consultor de cinema, prestar serviço para uma produtora, em que ela compra o projeto e eu ganho em cima. Para mim seria uma tarefa simples, não precisaria de uma estrutura tão grande, nem investir tão pesado, e se bobear estaria com muito mais dinheiro.

Claudio Augusto
Cartaz de "Cidadão Kane" zela pelos prêmios dos filmes de Teixeira
iG: Como foi a sua chegada em Hollywood?
Rodrigo Teixeira:
Bem, eu não acredito no sonho hollywoodiano. Quando você chega em Hollywood, (os agentes) oferecem as mesmas merdas de sempre. O resto, sempre. Eu não fui para os EUA para pegar esse tipo de coisa. Como o americano só olha para ele e não para o resto do mundo, ele acha que você é um merda e ele, o esperto. O primeiro projeto que te oferecem tem o Andy Garcia, Benicio del Toro e o Gael (Garcia Bernal). O cara está te chamando de chicano.

iG: O mercado nos EUA vê os brasileiros com esses olhos?
Rodrigo Teixeira:
Vê. O que eles não entendem é que nós não somos esse tipo de latino, somos outra coisa. O Brasil está dentro do contexto da América do Sul, mas somos isolacionistas. Falamos português e o resto do continente, espanhol. Somos um híbrido, diferentes. Não temos o estereótipo latino. Mas é a maneira como eles nos olham e o que eles oferecem, porque não sabem que você conhece (o mercado).

iG: O primeiro passo é ultrapassar essa barreira de mercado?
Rodrigo Teixeira:
Isso. Eles esquecem que nós, a minha geração especificamente, fomos criados... Não fui criado na década de 1960, na Nouvelle Vague, num ambiente repressivo, lutando contra a ditadura. Nos anos 1980 você não tinha acesso ao cinema coreano, cinema iraniano, não existia isso. Era uma coisa totalmente voltada para o cinema americano, minha formação foi essa. Foi assim da década de 1970 até a metade dos anos 1990. Como espectador, comecei a me interessar por uma cinematografia mais sofisticada, outros mercados, diretores, histórias, no final dos anos 1990, já era um jovem adulto. Por isso eu conheço cinema americano. Conheço todo: cinema clássico, Buster Keaton, Billy Wilder (que é austríaco, mas a obra é americana), cinema independente dos anos 1970, Bob Rafelson, musicais, Spielberg, Scorsese, Brian de Palma... É só um ter um pouco mais de cultura e você sabe que merda o cara está te oferecendo.

iG: Como você passou a ser conhecido no mercado?
Rodrigo Teixeira:
Eu comprei os direitos de "Umbigo Sem Fundo" em junho de 2008. Um mês depois o Ben Stiller tentou comprar e veio atrás da gente. E eu entrei (no mercado). Na lista dos 10 livros mais importantes daquele mesmo ano nos EUA, dois eram meus, "Umbigo Sem Fundo" e um outro. Comecei a chamar a atenção dos americanos: como é que no Brasil um cara identifica esse projeto, viabiliza a compra dos direitos e atrai o Ben Stiller? Esse projeto ainda nem aconteceu, estamos negociando um monte de coisas, mas a nossa capacidade de atrair talentos ficou alta e continuamos comprando uma série de livros.

Claudio Augusto
Teixeira mandou enquadrar bilhete escrito pelo diretor Tony Scott ("Top Gun")
iG: Como o Brad Pitt apareceu?
Rodrigo Teixeira:
O Brad Pitt bateu o olho num livro e estava vendido para a gente. Aí o vice-presidente da empresa dele (Plan B Entertainment) virou um dia e disse, "quero conhecer esses caras". Conversou conosco, disse que queria fazer alguma coisa e ofereceu um projeto. Compramos os direitos, era um livro espanhol ("Seu Rosto Amanhã", de Javiar Marías). Li uma resenha na New Yorker e comprei também os direitos de "The Thousand Autumns of Jacob de Zoet", livro do David Mitchell inédito no Brasil. O último livro do Mitchell filmado foi "Cloud Atlas" (dirigido pelos irmãos Wachowski, de "Matrix"), o maior orçamento da Warner para este ano (US$ 100 milhões). O roteirista de "Thousand Autumns" vai ser o Peter Straughan (indicado ao Oscar por "O Espião que Sabia Demais" ), o contrato chegou na semana passada para assinar. Pode não dar nada? Pode. Mas já tem um ator ligado ao projeto que levanta dinheiro para fazer esse filme. Tenho Peter Straughan, esse ator e o David Mitchell – cara, eu sou brasileiro! Se esse filme for para o Oscar e ganhar, na atual composição financeira dele, quem sobe para pegar a estatueta somos eu e o Brad Pitt.

Hollywood é puro clichê: você é o que pode pagar, é dinheiro. A mecânica é a capacidade de quanto a sua ideia pode gerar. O cinema americano é uma bolsa de valores, um choque cultural muito grande. Você perde a ilusão.

iG: Você já balançou ao conhecer alguém?
Rodrigo Teixeira:
A primeira vez em que estive com Frank Marshall, no escritório dele, me deu um negócio, porque eu sei quem ele é. Quando o produtor de "ET", "Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida", "De Volta para o Futuro", "Jurassic Park" e "Identidade Bourne" senta na sua frente e fala que quer fazer um filme com você, você bambeia. Essa foi a maior sensação que já tive. Ele perguntou, "Você tem 20 minutos para a gente conversar?". Respondi, "Tenho a vida inteira". Aí você lembra por que quis fazer cinema. Esses momentos são únicos, e eu vivo isso. É você ficar falando 25 minutos, como ontem à noite, com uma atriz americana do primeiríssimo time, ou conversar com a sócia do Brad Pitt, que ganhou Cannes no ano passado pelo "A Árvore da Vida" , e ela contar detalhes de como é (o diretor) Terrence Malick no set de filmagem. Você sentar com o sócio do Jeremy Renner para fazer uma reunião e descobrir que ele tem um problema com o Brasil (um brasileiro pegou a ex-mulher dele). Fui na sala do George Clooney, Johnny Depp. Você começa a entrar no jogo, a gente vive a vida de Hollywood, cara. Hollywood é puro clichê: você é o que pode pagar, é dinheiro. A mecânica é a capacidade de quanto a sua ideia pode gerar. O cinema americano é uma bolsa de valores, um choque cultural muito grande. Você perde a ilusão.

Claudio Augusto
Detalhe do topo da prateleira do produtor: caixa com discografia completa de Bob Dylan
iG: A notícia da compra dos direitos do "Blood on the Tracks" explodiu, não?
Rodrigo Teixeira:
Foi a maior repercussão de uma coisa que a gente já fez até hoje. "New York Times", "Los Angeles Times", "Chicago Tribune", Tóquio, França, Londres. Hoje no ranking do IMDB (estabelecido pela visitação das páginas) a RT está no 498º lugar. A segunda colocada no Brasil está em 1800º, que é a O2. O primeiro produtor brasileiro no ranking virei eu, o segundo é o Fernando Meirelles. Isso por causa do Bob Dylan. No dia seguinte, Hollywood inteira procurou a gente: diretores, agentes, roteiristas, para entender e tentar entrar no projeto. Obviamente aparece um monte de aventureiro. Daqui, não veio proposta de nenhum diretor brasileiro sério.

Não gostei de 'Xingu'. Achei didático e em cima do muro. Para mim, filme tem de tomar partido.

iG: Como surgiu essa oportunidade?
Rodrigo Teixeira:
Porque eu tive uma ideia chamada Chico Buarque e comprei os direitos das músicas dele (o que rendeu até agora a minissérie "Amor em 4 Atos", exibida na Rede Globo, e o filme "O Abismo Prateado"). Um dia estava conversando com meu agente em Hollywood e contei isso. Ele achou a ideia brilhante, poder comprar um disco para fazer um filme, uma ideia que não se trabalha nos EUA, um novo mercado. "Se vocês pudessem fazer isso aqui, fariam com quem?", perguntou. Fernando, que trabalha comigo, disse na hora: Bob Dylan. O cara falou, "ótimo, o agente do Dylan é muito próximo, vou marcar uma reunião. Que disco vocês gostariam de comprar?". "Blood on the Tracks". Fomos para Nova York em dezembro, no escritório do Dylan, e ficamos uma hora e meia conversando sobre histórias de bastidores com o agente dele. Lendo a carta que o John Lennon mandou para o Dylan, o agente contando que tinha estado com o Scorsese um dia antes... Surreal. O Dylan não estava lá, mas tocou o telefone, o agente parou, disse, "o homem está me chamando", e foi falar com ele. Saí de lá até meio mareado.

Mauro Pinheiro Jr. / Divulgação
Alessandra Negrini em "O Abismo Prateado", de Karim Ainouz, baseado em canção de Chico Buarque
iG: Quanto pagou?
Rodrigo Teixeira:
Mais barato do que o Chico Buarque. Bem mais. Infinitamente mais.

iG: Tem uma média de mercado?
Rodrigo Teixeira:
Não. O agente fez uma proposta, um preço acessível, e a gente pagou. Foi bem mais barato do que um livro aqui no Brasil. Você compra uma opção de 18 meses para fazer (o filme), renovável por mais 18 meses. Na hora em que você filma, dentro dos custos de produção tem um "purchase price" alto, mas para ter o direito de trabalhar o projeto, não é caro. Mesmo o "Cloud Atlas" e "Thousand Autumns" são mais baratos do que o livro de um autor brasileiro que não vende um décimo do que o David Mitchell vende.

iG: Quanto é a média desse mercado?
Rodrigo Teixeira:
Não tem uma média. Tem direitos de livros nos EUA em que você paga US$ 20 mil a opção, e tem livro no Brasil que é vendido por R$ 200 mil. Best-seller ou não. Durante cinco anos acreditei no mercado de direitos autorais no Brasil, valorizei esse mercado, admito, mas ele ficou caro. Tenho me questionado muito sobre isso. O valor do direito autoral no Brasil tem de ser muito mais baixo para todo mundo poder ganhar dinheiro.

iG: Quais foram os direitos mais caros que você já comprou?
Rodrigo Teixeira:
Não gosto de falar de números.

iG: É só dizer qual foi o projeto.
Rodrigo Teixeira:
Prefiro não. Toda vez que dou uma entrevista, e por isso tenho evitado ao máximo, a conversa fica sobre valores, e não é sobre o que é o trabalho. Crio um problema para mim, começo a receber um enxurrada de gente pedindo para eu comprar projetos, fica a imagem de que compro tudo. E não compro tudo, não tenho dinheiro para isso, estaria quebrado há anos. Compro o que eu gosto e às vezes nem isso. Acho que sou um selecionador.

iG: Quantos livros você tem comprados?
Rodrigo Teixeira:
Muitos. Tenho bastante, mais do que tenho capacidade de produzir. Mas normal, no mercado americano é assim.

Claudio Augusto
Rodrigo Teixeira em sua mesa, "escoltado" por Pacino e De Niro, ao fundo
iG: Você prefere descobrir os projetos do que te oferecerem um?
Rodrigo Teixeira:
Prefiro descobrir, o tesão para mim é muito maior, ficar mineirando isso. Vou na livraria quase todos os dias - nos EUA, Europa, aqui, mesmo a lazer. Não tenho tempo para ler tudo. Leio resenhas também, críticas. Tenho uma média boa de leitura, entre três e quatro livros por mês. Se tivesse mais tempo, conseguiria facilmente ler uns seis ou sete. De dezembro para cá, estou numa fase muito leitora. Neste ano li muito mais do que fui no cinema. Tenho uma filha recém-nascida, então há uma limitação de horário. Em viagem internacional, vejo dois ou três filmes no iPad, no avião mesmo. Quando estou nos EUA a trabalho, aí vou no cinema quase todos os dias. Aqui, na semana passada consegui ver "Xingu" .

Olha o resultado do "Tropa de Elite", nenhum banco te oferece isso. É um ótimo negócio – se você acerta, claro.

i G: Gostou?
Rodrigo Teixeira:
Não gostei. Achei didático e em cima do muro. Para mim, filme tem de tomar partido. Falta intensidade, é clichê, tem que ter drama. Eu fico triste, porque apostei muito. Se eu fosse produtor teria errado em cheio, porque acreditava muito nesse projeto.

iG: Como produtor, é alguma coisa que se possa corrigir no desenvolvimento?
Rodrigo Teixeira:
Sempre pode. É muito díficil você dar sinal verde para um roteiro sem ter a certeza de que o filme vai ser bem visto pelo público como um todo. Mas não necessariamente. "Heleno" teve ótimas críticas, todo dia recebo e-mail de algum formador de opinião importante elogiando, mas não teve um grande público. E eu sei quando não gostam. "O Abismo Prateado" lá fora foi muito bem, passou por 34 festivais. Exibi no Festival do Rio e não gostaram, torceram o nariz. Você vê na saída do cinema quando as pessoas não gostam.

Claudio Augusto
Cartaz internacional de "Heleno", último filme Teixeira lançado nos cinemas
iG: Você tinha alguma esperança de que "Heleno" tivesse público?
Rodrigo Teixeira:
Não. Em preto-e-branco não se pode ter esperança. Isso foi definido pelo diretor uma semana antes das filmagems. Acho que esteticamente, artisticamente ele acertou. Comercialmente, é um erro, porque limitou o filme. Se o filme fosse colorido, teria saído com o dobro de cópias e feito uns 300, 400 mil espectadores. Não é grande coisa, mas teria feito.

iG: Faltam projetos bons para se fazer bilheteria no Brasil? A maioria do projetos que dá certo parece ser de qualidade duvidosa.
Rodrigo Teixeira:
Se faz, sim, bilheteria no Brasil e acho que existe a possibilidade de filmes de qualidade fazerem público, como "Tropa de Elite" , "Cidade de Deus" , "Dois Filhos de Francisco" e "O Palhaço" . A composição financeira define se o seu filme vai dar dinheiro ou não. Se fizer direito, você ganha muito dinheiro, melhor do que qualquer aplicação financeira. Olha o resultado do "Tropa de Elite", nenhum banco te oferece isso. É um ótimo negócio – se você acerta, claro. Mas composição financeira com orçamento absurdo não gera receita. Esse é outro problema do cinema brasileiro: é caro demais.

iG: A estrutura para se fazer um filme é cara?
Rodrigo Teixeira:
Tudo. O governo ofereceu um benefício para o cinema brasileiro que é o incentivo fiscal, uma muleta, um incentivo para criar a indústria. Só que durante dez anos ele foi só um incentivo, ninguém pensou na criação da indústria em paralelo. Não existe indústria no Brasil e ela só existe em dois lugares do mundo: EUA e Índia. Ninguém faz uma política industrial para o cinema, que é você poder ir no banco e financiar seu filme a juros de 1%, 2%, 10% ao ano. Você pega esse dinheiro adiantado, faz o projeto, viabiliza, lança nove meses depois e com o dinheiro da bilheteria, paga o empréstimo e conforme vai gerando lucro, investe em outros projetos. Eu não faço isso porque se eu for ao banco hoje, o crédito é de 9% ao mês. Até tentei fazer, mas você olha a conta e quebra. Não tem como. Não tem uma política que baixe o imposto para o maquinário audiovisual. Você quer trazer uma câmera e ela dobra de valor com a quantidade de impostos, sendo que não existe uma fábrica de câmeras brasileiras.

iG: Mas é possível fazer cinema sem incentivo fiscal no Brasil?
Rodrigo Teixeira:
Não é e seria loucura minha dizer isso. O que eu acho é que não existe um plano B: é isso ou não tem. Se a gente não trabalhar em algo que faço o negócio andar (bate as mãos), vai ser uma muleta eterna. Mas é um ótimo negócio, pô, dinheiro a quase custo zero. Financia um filme comercial inteiro com incentivo fiscal, faz esse filme custar R$ 4 milhões e ter três milhões de espectadores, você ganha uma grana, meu amigo, que pode até parar de trabalhar se quiser.

Claudio Augusto
Incentivo fiscal é uma muleta para o nosso cinema
iG: Muita gente questiona o uso de incentivo fiscal para projetos comerciais.
Rodrigo Teixeira:
Aí discordo, acho uma sacanagem. Por que subsidiar o filme de um e não o de outro? O que ele tem de melhor? Se o projeto está tendo retorno, proporciona muito mais visibilidade para quem deu o incentivo fiscal, a marca [a empresa] vai aparecer muito mais do que no filme visto por 2 mil pessoas. Não dá para discriminar quem faz cinema de público e quem faz cinema autoral. Eu faço cinema autoral e vou fazer de público, se Deus quiser. Mas não quero ser discriminado por isso e não discrimino os outros.

iG: Você toparia fazer um filme só pelo dinheiro?
Rodrigo Teixeira:
Toparia. Tenho que pensar como empresário. Não faço publicidade, filmes para empresa... eu vivo de entretenimento. E se não pensar nisso, estou morto. Obviamente vou tentar ao máximo investir numa coisa que eu gostaria de pagar para ver e espero que dê certo. Estava falando isso no almoço, de um projeto extremamente comercial, totalmente comédia, uma coisa que nunca fiz e tenho total interesse.

iG: Comédia é o que dá dinheiro no Brasil?
Rodrigo Teixeira:
 Há outros gêneros que também dão dinheiro, mas esse é comprovado. Bem feito, dá. Mas é preciso procurar outras coisas também. Não tenho dúvida de que o "Tim Maia" vai dar dinheiro, assim como "O Mistério do Cinco Estrelas" (baseado no livro adolescente de Marcos Rey), que são fenômenos de divulgação. Outros você tem de trabalhar para dar.

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Selton Mello em "O Cheiro do Ralo", baseado na obra de Lourenço Mutarelli, amigo do produtor
iG: Como tornar os filmes produzidos no Brasil interessantes para o mercado estrangeiro e fugir do estereótipo do "favela movie"?
Rodrigo Teixeira:
"A Mulher Invisível", por exemplo. Se alguém quisesse transformar aquilo num filme americano, faria sucesso, a ideia é brilhante, óbvia. Bota o Mark Rufallo e a Reese Witherspoon para você ver. Isso o Cláudio Torres faz muito bem, aquele filme que não tem favela, é universal. E mesmo "O Abismo Prateado" se passa no Rio de Janeiro e não tem uma cena na favela.

iG: O Brasil não tem tradição em alguns gêneros, com ação, terror.
Rodrigo Teixeira:
Ação até tem. Aquele cara que fez "Dois Coelhos" , Afonso Poyart, está bombado nos EUA. Um agente americano viu a qualidade das cenas de ação e o mercado americano precisa de gente que saiba dirigir cenas de ação. E o brasileiro é barato: eles preferem pegar um brasileiro novo do que o Ridley Scott. Pode acreditar que o Afonso Poyart vai fazer um filme desses nos EUA.

iG: Quem fez um filme lá agora e está reclamando bastante é o Heitor Dhalia .
Rodrigo Teixeira:
Porque a ansiedade do Heitor fala mais alto. Ele poderia ter feito algo muito melhor, apesar de eu não ter visto "12 Horas" , pelo acesso e reconhecimento que ele tem. Eu fui numa reunião em que um agente falou que o Colin Farrell faria o filme que o Heitor quisesse. Eu ouvi isso, ninguém me contou. Keira Knightley, a mesma coisa. Coloca esses dois no "12 Horas" e vê se não muda a bilheteria do filme.

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Marco Ricca em "O Casamento de Romeu e Julieta" (2005), primeiro filme de Rodrigo Teixeira
iG: Você entrou no mercado já trabalhando como produtor?
Rodrigo Teixeira:
Sim. Tinha acesso a dinheiro e a uma casa de pós-produção. Meus projetos literários já eram um sucesso e a Paula Barreto me procurou para fazer "O Casamento de Romeu e Julieta" (baseado num dos livros da coleção Camisa 13). Eu topei, mas disse que queria ganhar crédito e aprender a fazer cinema. E fiz. A família Barreto foi generosíssima comigo. Uma produção enorme para 2004, R$ 6 milhões, caríssima. Em termos de estrutura de produção, só vi algo parecido no "Heleno".

CONHEÇA OS PROJETOS DE RODRIGO TEIXEIRA

iG: Como é o set dos Barreto?
Rodrigo Teixeira:
Muito legal. Parece um cortiço italiano, mas é maravilhoso. Pode falar? É impressionante. (O diretor) Bruno Barreto é uma das pessoas que mais entendem de cinema que eu conheço, isso é unânime. Quem produziu Bruno Barreto sabe e concorda. Podem até não gostar dele como pessoa, mas é um cara que sabe o que está fazendo, entende de cinema, de som, luz, fotografia, atuação, direção, produção. Para o bem e para o mal.

iG: Com quem você gostaria de trabalhar?
Rodrigo Teixeira:
Admiro Walter Salles, muito, adoraria poder fazer alguma coisa com ele um dia. Admiro muito Fernando Meirelles. É clichê, mas adoraria ver como se daria uma parceria nossa, uma vez na vida. Um cara que também admiro muito é o Hector Babenco, acho ele um gênio, gosto muito da obra dele, principalmente de 1977 até "Coração Iluminado" (96), são os melhores dele. Meu sonho é filmar com o Scorsese. Mas ele é um cara que estoura orçamento, tem de tomar cuidado.

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