Abel Ferrara: “Independentes podem mostrar seus filmes no mundo todo, mas o público paga para ver 'Jogos Vorazes'"

Cineasta participa de conversa em abertura de mostra em São Paulo

Guss de Lucca, iG São Paulo |

Antes do público começar a fazer a primeira pergunta ao cineasta norte-americano Abel Ferrara, tema da mostra "Abel Ferrara e a Religião da Intensidade" , que começa nessa quarta (25), em São Paulo, o próprio pediu aos presentes que já haviam visto seus filmes para levantarem as mãos. "Viram mais do que eu", brincou.

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O cineasta Abel Ferrara: “Um cineasta precisa de duas coisas: uma ideia e dinheiro”
Conhecido principalmente pelos filmes "Rei de Nova York" (1990) e "Vício Frenético" (1992), Ferrara estava acompanhado da namorada, a atriz Shanyn Leigh, que divide a tela com Willem Dafoe no seu trabalho mais recente, "4:44 – Last Day on Earth" ("4:44 – Último dia na Terra", na tradução literal), de 2011.

Inicialmente solícito, Ferrara disse aos presentes que “um cineasta precisa de duas coisas: uma ideia e dinheiro”. "Por isso, se você tiver uma ideia, não tenha vergonha de divulgá-la. O financiamento de '4:44', por exemplo, surgiu de um diálogo com o produtor Pablo Larraín durante um festival no Chile."

Sobre o começo da carreira, nos anos 1970, o diretor disse que nem ele nem seus amigos tiveram educação formal em cinema. "Não havia vídeo digital. Fizemos um filme pornô porque era a única maneira de poder usar equipamentos de cinema", contou ao ser questionado sobre "Nine Lives of a Wet Pussy" (1976).

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"Fizemos 'Driller Killer' [filme sobre um assassino que utiliza uma furadeira em suas vítimas] porque na época havia uma demanda para esse tipo de filme, como 'O Massacre da Serra Elétrica' e 'Halloween'. 'O Massacre' custou US$ 30 mil e rendeu US$ 60 milhões. 'Driller Killer' não."

Assunto recorrente na carreira do diretor, as dificuldades em financiar seus filmes foram abordadas em diversos momentos da conversa. "É difícil sobreviver de cinema. Ou você faz filmes que dão dinheiro ou trabalha com pessoas que acham que seu filme vai dar dinheiro."

"Fomos a Los Angeles quando o dinheiro estava lá. Depois fomos a Nova York. E depois para a Europa. Boa parte do financiamento de '4:44' era chilena. Agora vocês acharam petróleo, então estamos aqui", brincou Ferrara.

A internet, de acordo com ele, é uma “ótima ferramenta” para os cineastas divulgarem seus trabalhos, mas não para remunerá-los. "Hoje você pode fazer um filme com seu telefone, editar no computador e colocar no YouTube, onde milhares podem assisti-lo. Mas como você é pago? Como vai sobreviver? Independentes podem mostrar seus filmes no mundo todo, mas o público paga para ver 'Jogos Vorazes' ."

Ciente da presença de muitos estudantes de cinema no auditório, Ferrara explicou que não queria desencorajar ninguém. "O único conselho que posso dar baseado numa vida como diretor é fazer o corte final. Tive filmes destruídos porque não fiz a edição final. Esse é o maior pecado de um cineasta, não proteger seu filme. Ser um diretor é ter a última palavra."

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"'Olhos de Serpente' (1993) é o único filme em que Madonna conseguiu atuar. Como você fez isso?", perguntou uma moça após elogiar Ferrara. "Escondi a câmera", respondeu ele, arrancando risos da plateia. "No filme ela interpreta uma atriz tão ruim que fez seu diretor cometer suicídio. Ela era perfeita para o papel!"

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Abel Ferrara sobre Madonna em "Olhos de Serpente" (1993): "Ela é do grupo que não atua, o que é triste"

"Ela (Madonna) é do grupo que não atua, o que é triste. No intervalo das filmagens ela assistia a cenas de atrizes consagradas, como Sophia Loren, desejando muito ser como elas. É como o guitarrista americano que fala do (guitarrista) britânico que tenta tocar um blues: ele quer tão terrivelmente tocar um blues que só consegue tocar um blues terrivelmente."

O uso da religião em suas produções, em especial de freiras (caso de "Ms. 45" e "Vício Frenético"), foi tema de outra questão do público. "Fui criado por freiras, estudei num colégio católico. Descobri na pele que quanto mais querem te empurrar a religião, mais ateu você fica. Levou uma vida para eu me reaproximar de Jesus, pois ele parece tão distante do que acontece no Vaticano. Quando vi o atual Papa percebi que a única pessoa com mais joias que ele é o Kanye West."

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Abel Ferrara no set do filme "Maria" (2005)
Sobre influências, Ferrara elogiou John Cassavetes, citando "Uma Mulher Sob Influência" (1974) como um dos melhores filmes já feitos. "Eu revi esse filme no cinema de um shopping em que as salas de 'Jogos Vorazes' tinham ingressos esgotados duas semanas antes da estreia. Haviam quatro pessoas na sala contando comigo. E na saída um dos presentes disse que o filme foi uma merda, pois parecia com a sua casa", suspirou.

Depois de uma hora de conversa, Ferrara estava visivelmente entediado. Em poucas palavras, o cineasta disse que não assistia mais tantos filmes como quando era jovem, e que prefere ler um livro do que um roteiro. Sobre o cinema brasileiro, disse que "Pixote", de Hector Babenco, foi a obra nacional que mais teve impacto em sua vida.

Em resposta à última pergunta, a nada original "o que é cinema para você?", Ferrara foi sucinto: "Cinema é o que eu faço para pagar o aluguel. É a minha forma de expressão, aquilo que faz a vida valer a pena."

Abel Ferrara e a Religião da Intensidade em São Paulo - CCBB (Rua Álvares Penteado 112). Tel. (011) 3113-3651. R$ 4. De 25/4 a 6/5.

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