"Vale dos Esquecidos" é "Xingu" com mais realidade, afirma produtor

Documentário de Maria Raduan retrata conflitos entre índios, fazendeiros e outros por terra no Centro Oeste do país

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Índio xavante no documentário: "velho oeste"
Uma região no leste do Mato Grosso foi na década de 1970 a maior fazenda do mundo, com 1,5 milhão de hectares. Partilhado por um conglomerado empresarial anos depois, o local vive hoje em permanente conflito. Nessa imensidão batem cabeça fazendeiros, agricultores sem-terra, índios, grilheiros e posseiros, todos se achando donos da razão, com fogo e bala servindo de argumentos. Um microcosmo do dia-a-dia da Amazônia, representado no documentário "Vale dos Esquecidos", de Maria Raduan, que estreia nesta sexta-feira (20).

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Vale dos Esquecidos é como a região onde ficava a fazenda Suiá-Massú é conhecida. O nome não poderia ser mais claro. "É um lugar esquecido pelo governo, em que a lei não chega. Ali, o que vale são a terra e as armas. É um velho oeste, tanto que cinco prefeitos foram mortos em três anos", afirma ao iG o produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, casado com a diretora.

Por decisão da Justiça Federal, a área pertence oficialmente aos índios xavante, o que não se vê na realidade. "Para os fazendeiros, o índio é uma praga que nem gafanhoto ou capivara. Ele é tratado igualzinho. Na cabeça do fazendeiro, o índio precisa ser exterminado", acrescenta Teixeira.

Documentarista, Raduan foi à área, distante 14 horas de Goiânia, atrás da história dos índios, mas o quadro que encontrou era tão chocante que não pôde deixar de mostrar os diferentes pontos de vista. "Fiquei assustada com a violência e o abandono da gente que vive nesse recôndito perdido, e com a forma como o meio ambiente sempre foi uma das maiores vítimas dessa guerra que usa o fogo como sua principal arma", conta a cineasta no material de divulgação.

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Queimadas são ameaça constante na Amazônia
Ela se refere às constantes queimadas na região. Seja por uma fagulha acidental ou um fósforo aceso propositalmente, quando o fogo começa, pouco mais importa: o avanço das chamas é constante e pode durar dias, destruindo o que vier pela frente. As cenas de queimadas que abrem "Vale dos Esquecidos", aliás, são impressionantes.

"Maria quis contar uma história muito difícil", assegura Teixeira. "Conheço poucos homens que teriam coragem de contar essa história. E ela teve coragem, grávida de três meses do meu filho, de ir lá e fazer o que fez, com cara ameaçando ela de morte." Implícita, a cena em que o capanga de um grilheiro faz a ameaça está na edição final.

O produtor comenta que é uma coincidência feliz que com o filme, exibido com destaque nos festivais de Chicago, Hotdocs (Canadá) e É Tudo Verdade, entre em cartaz ao mesmo tempo em que "Xingu", de Cao Hamburger .

"'Vale dos Esquecidos' é uma outra realidade da mesma história, nos dias de hoje. Uma opção para quem quer ver um pouco mais de realidade. Se fizessem uma ficção disso, ia ser um filmaço."

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