"É o personagem mais difícil que já fiz", diz Camila Pitanga sobre novo filme

Atriz protagoniza "Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios", de Beto Brant e Renato Ciasca, que estreia sexta-feira

Luísa Girão e Marco Tomazzoni, do iG |

Pedir para Camila Pitanga falar de "Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios", que estreia nesta sexta-feira (20), é ter a certeza de ouvir um discurso apaixonado. Dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, a dupla responsável por "O Invasor", "Cão Sem Dono" e outros bons exemplares da safra recente do cinema brasileiro, o filme com nome de poema tem rendido à atriz elogios superlativos e, até agora, um prêmio de interpretação no Festival do Rio . A relação é recíproca: ela não cansa de dizer o quanto gostou da experiência e que, a partir disso, passou a se "sentir como artista".

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Verdade que Camila até então não tinha encontrado um papel tão complexo no cinema. A atriz deixou o Rio para ir morar por três meses em Santarém (interior do Pará), onde se passa história do livro homônimo de Marçal Aquino, também autor do roteiro. "Sair da zona de conforto sempre foi um desejo", comentou.

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Camila Pitanga em dose tripla, durante entrevista em hotel de São Paulo
Lá, deu vida a Lavínia, uma ex-prostituta tirada das ruas pelo pastor Ernani (Zecarlos Machado), seu atual marido. Mas a garota se envolve com o fotógrafo Cauby (Gustavo Machado), de passagem pelo interior da Amazônia. O triângulo amoroso dá margem a tórridas cenas de sexo – a nudez dos atores é uma constante – e ruma em diremação a uma espiral de violência, culpa e loucura. Como pano de fundo, o clima tenso dos conflitos indígenas na região e atentados sérios ao meio ambiente.

Em entrevista ao iG , primeiro em São Paulo e depois no Rio de Janeiro, Camila Pitanga falou da preparação para o filme, do método "liberal" de Brant e Ciasca no set, da cumplicidade entre a equipe e da experiência de interpretar um personagem marginal. "Foi o papel mais difícil da minha vida", comentou.

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Camila no Rio de Janeiro: "desafio era dar conta dessa mulher dilacerada"
iG: Você tomou contato primeiro com o roteiro ou o livro?
Camila Pitanga:
Li primeiro o romance e fiquei muito impactada, me emocionou profundamente. Fiquei tomada por aquela história de um amor que se transforma: o amor de gratidão pelo pastor, o amor pela arte que o fotógrafo traz para Lavínia, o amor carnal, claro, e o amor puro, que foi o que mais me doeu quando li. É uma personagem fascinante, que toda atriz deseja encarar, mergulhar, enfrentar.

iG: Como você se preparou para interpretar Lavínia?
Camila Pitanga:
Desde que fui convidada para o papel, há dois anos, virei uma parabólica “laviniana”. Absorvi tudo que podia se relacionar com a personagem. Compus uma videoteca com filmes que me ajudaram a compor o papel, estudei livros de fotografias e de atrizes de cinema para estudar expressões e olhares. Entrevistei pacientes do pinel para criar o momento de loucura da Lavínia. Como também tinha a parte de drogas, conversei com dois dependentes químicos. Além de fazer um trabalho com a Marcia Feijó de preparação corporal e improviso. O desafio era dar conta dessa mulher dilacerada.

iG: É verdade que você pediu dicas para Sônia Braga?
Camila Pitanga:
Um dos filmes da minha videoteca “laviniana” era “Eu Te Amo”, do Arnaldo Jabor. Nele, há várias cenas que me intrigavam: aquilo é trabalho de improvisação ou foi algo que já estava previsto no roteiro? Como estava trabalhando com o Beto e com o Renato, que usam o roteiro como pretexto para ser reconstruído no processo colaborativo, queria entender até que ponto tinha sido parte da Sônia. Fiquei com essa dúvida e resolvi ligar para ela. Conheço ela há muitos anos e foi lindo. O que ficou dessa conversa foi uma benção.

iG: Você já interpretou duas prostitutas, na TV (Bebel, na novela "Paraíso Tropical") e agora no cinema, e várias atrizes que já passaram por isso, como Deborah Secco e Cláudia Raia, disseram que a experiência foi um divisor de águas. Por que o papel de garota de programa é tão atraente para uma atriz?
Camila Pitanga:
Os personagens marginais, do submundo, têm um mistério que desperta a curiosidade e inúmeras leituras. Não é algo que está só no fetiche. É quase como uma abstração em que a gente pode colocar tintas novas, porque você pode ir por vários caminhos. Acho que toda atriz tem esse desejo de querer fazer algo que tenha uma singularidade. E personagens desse tipo permitem isso porque não é algo tão claro na cabeça das pessoas. A possibilidade de criar algo próprio desperta a cobiça dos atores.

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Lavínia como prostituta no filme: "possibilidade de criar algo próprio desperta cobiça dos atores"
iG: As cenas de sexo do filme estão sendo muito comentadas. Você se incomoda com comentários em relação à nudez?
Camila Pitanga:
Acho que a nudez causa muito frisson. Ainda há muitos tabus relacionados ao sexo. A gente tem o estereótipo do brasileiro livre e liberal, mas acho que a maneira de se lidar com sexo ainda é muito ultrapassada. Caímos meio no caminho da vulgaridade, da supervalorização do sexo. E isso é o bonito desse filme: a proposta é outra. Ele fala do sexo por sua natureza e pureza, foi por isso que topei. E essas não foram as cenas que achei mais difíceis de fazer.

iG: Quais foram as mais difíceis?
Camila Pitanga:
As gravações no Rio, quando o pastor conhece a Lavínia. Foram as últimas cenas gravadas e tive três semanas para me preparar. Queria mostrar o que é ser alguém que não deseja a vida, que se destrói. Para emagrecer, tive quase que deixar de comer (risos). Fechei a boca, mas tive acompanhamento de uma nutricionista. Eu queria ter ficado mais magra, mais doente. Mas o tempo foi aquele e chegamos neste resultado, que ficou bom. Ficou claro que a personagem está degradada. Lembro que nem fui na festa de encerramento. Estava exaurida, precisava ficar em casa, com minha filha e meu marido.

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No filme com Gustavo Machado: cenas tórridas
iG: Como foi fazer as cenas mais intensas com Gustavo Machado? Havia espaço para improvisação?
Camila Pitanga:
Independentemente de ser sexo ou não, porque cenas contudentes não estão só no terreno da sexualidade, eu e o Gustavo falávamos um para o outro antes de filmar: "Vamos para o abismo?". O abismo estava também no modus operandi do Beto, essa coisa de transcender, de criar fazendo. O dia de ensaio era o dia do novo, porque nunca se estabelecia uma cena previamente, aquilo sempre podia se transformar.

iG: Como foi o processo de gravação em plano-sequência (longas cenas sem cortes)?
Camila Pitanga:
Foi um processo muito raro de cumplicidade coletiva - não só atores, mas o cara do áudio, o foquista, toda a equipe técnica, porque a gravação era com steadicam (estrutura volumosa que reduz radicalmente as vibrações da câmera) e em plano-sequência. A cena era um fluxo que tinha início, meio e fim. Era um balé, uma dança entre todos nós.

iG: A experiência de morar no norte do país foi indispensável?
Camila Pitanga:
Sempre é. Moramos quase três meses em Santarém, entre a preparação e as filmagens. Primeiro você se desloca da sua casa, do seu cotidiano, e entra naquele coletivo da equipe, fica ali pensando, concentrada. Essa concentração foi muito importante e transcende até a questão do filme: foi importante para mim. Tinha há pouco sido mãe, envolvida radicalmente com a chegada e nascimento da Antônia, então foi meu momento de mergulho no trabalho, como artista, como criadora, até de reflexão do que eu quero do meu trabalho. Também me deu a oportunidade de conhecer aquela terra, aquela cultura, isso sem dúvida está presente no filme.

iG: Você se filiou ao PT quando tinha 15 anos. Pensa em se candidatar a algum cargo público?
Camila Pitanga:
Obrigada, mas não. De jeito nenhum! Não tenho perfil para isso.

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Esse filme é a colheita de uma série de sementes, uma caminhada que desemboca agora
iG: Já ouvi você dizer que com esse filme você passou a se sentir uma artista. Por quê?
Camila Pitanga:
Por muitos motivos. Acho que esse é o personagem mais difícil que já fiz. Pela complexidade do personagem, por estar atravessando uma espécie de fronteira. É a colheita de uma série de sementes, uma caminhada que desemboca agora, em 2012, no momento desse filme. Acho que adquiri o gosto pelo risco. Não como uma camicase que vai se esborrachar no chão, porque me sentia muito acolhida, ancorada numa turma cujo trabalho eu já admirava. Trabalhei bastante – nada vem de graça, suei à beça. Sair da zona de conforto sempre foi um desejo meu, fazer um trabalho mais visceral. Não é sempre que vai acontecer, mas quero dar continuidade a isso.

iG: Pensa em seguir carreira internacional?
Camila Pitanga:
Olha, isso é do acaso da vida. Se acontecer, vou achar ótimo. Não tenho agente internacional, mas estamos sempre abertos. Com esse trabalho, por exemplo, fui indicada ao prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema Ibero-Americano de Huelva, na Espanha. E o filme ainda está rodando por vários festivais internacionais e sendo uma vitrine maravilhosa para o meu trabalho. Mas isso não depende de mim. Se acontecer algo naturalmente, bacana.

iG: O seu pai faz uma pequena participação no filme. Vocês têm projetos de voltar a trabalhar juntos?
Camila Pitanga:
Acabamos de desenhar a linha de um filme que será sobre a Revolta dos Malês. Meu pai vai dirigir, Rocco, meu irmão, será o protagonista, e eu vou fazer uma personagem importante. Pouca gente sabe, mas os malês eram escravos islâmicos vindos da África muito sofisticados culturalmente, com um conhecimento muito particular. O filme é sobre esse momento histórico do Brasil, de transição. Eles foram importantes nas revoltas insurgentes. Ainda devemos ter Seu Jorge, Lázaro Ramos, Taís Araújo e Mariana Lima no elenco.

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