Não se esqueça, Brad Pitt também é ator

Talento do astro não raro fica ofuscado por sua celebridade; marido de Angelina Jolie deve ser indicado ao Oscar por "O Homem que Mudou o Jogo"

The New York Times |

Fred R. Conrad/The New York Times
Brad Pitt: "tudo nesse ramo é muito volátil e está em constante mudança"
Se existe uma faceta de Brad Pitt que pode ser considerada um tanto obscura, esta pode ser – curiosamente – sua carreira de ator. Durante duas décadas no centro das atenções, desde sua descoberta como um garoto bem apessoado e bom de papo no filme "Thelma e Louise" (1991) e, mais ainda, depois de sua atuação em "Sr. e Sra. Smith" (2005), um filme que deu muito o que falar nos tabloides, Pitt tem sido em primeiro lugar um astro de Hollywood e em segundo lugar um ator. Cada um de seus passos – nos sets de filmagem, nos tapetes vermelhos e em suas missões humanitárias, muitas vezes acompanhado de um grupo que chama mesmo a atenção, que inclui sua parceira Angelina Jolie e seus seis filhos – dá muito o que falar na mídia de celebridades. Mas o Brad Pitt da telona permanece surpreendentemente indescritível.

A contradição central pode ser resumida assim: Pitt é uma superestrela, que também se passa por uma espécie de coringa. Ele evitou fazer filmes de ação e comédias românticas, os principais gêneros para uma típica carreira bem sucedida no cinema do século 21. Embora não tenha evitado grandes papéis épicos - como o de Aquiles em "Troia" ou mesmo a morte no filme "Encontro Marcado" - ele sempre buscou o conforto e a camaradagem de coletivos, como nos filmes “Onze homens e um Segredo" e "Bastardos Inglórios" (que estão entre seus maiores sucessos de bilheteria).

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As pessoas raramente falam sobre seu alcance, mas ele é igualmente capaz de ser extravagante ("12 Macacos") e também de se conter ("O Curioso Caso de Benjamin Button"). E embora atuar, para certas grandes celebridades, seja muitas vezes uma questão de aura, de simplesmente ser quem são, Pitt tem mostrado uma certa percepção incrível de seu próprio carisma: alguns de seus filmes mais intrigantes ("Clube da Luta", "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford") são atuações reflexivas que demonstram seu magnetismo óbvio.

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O ator como o gerente de um time de beisebol em "O Homem que Mudou o Jogo"
Aos 48 anos de idade, Pitt foi indicado ao Oscar duas vezes (a mesma quantidade de vezes que foi considerado o Homem mais Sexy do Mundo, segundo a revista People). Em um de seus melhores anos, estas indicações podem duplicar. Ele está prestes a receber uma indicação de melhor ator por sua atuação como o lendário técnico iconoclasta do time de beisebol Oakland A’s, Billy Beane, no filme “O Homem que Mudou o Jogo”. Ele tem menores chances de ganhar na categoria de ator coadjuvante por seu papel no filme “A Árvore da Vida", mas seu desempenho nesse filme, como um pai autoritário do Texas na década de 1950, é algo maior.

Em uma entrevista no início de dezembro no Waldorf Astoria, em Nova York, Pitt disse estar grato que ambos os filmes, nenhum dos quais foram fáceis de fazer, estejam participando das premiações (através de sua produtora, a Plan B, ele tem crédito como produtor de ambas as produções).

Fred R. Conrad/The New York Times
Cresci em um lugar onde falar muito de si mesmo é considerado meio egoísta
"Fico contente depois de ter tido todo esse trabalho, e por ter amigos que trabalharam bastante nesses projetos", disse ele. Como qualquer profissional experiente no circuito do Oscar, ele foi cuidadoso ao apreciar seu trabalho sem parecer muito arrogante ou como se estivesse fazendo campanha por seus filmes. "Estou neste ramo tempo o suficiente para entender que tudo isso é muito volátil e está em constante mudança", disse. "Mas uma coisa posso dizer com certeza: é surpreendentemente divertido quando chega sua vez."

Recém chegado da França, onde esteve para a première do filme "In the Land of Blood and Honey", dirigido por sua companheira, Angelina Jolie, ele vestia uma camiseta de decote em v e uma calça casual. Pitt lutava contra o cansaço e o jet lag - tomou dois cappuccinos, um atrás do outro, entregues por um funcionário do hotel Waldorf.

Pitt corajosamente participou de uma sessão de fotos e de uma conversa de 90 minutos, mas perdeu sua linha de raciocínio várias vezes ("desculpe, cara, estou tão cansado"), e depois de uma pausa para ir ao banheiro durante a entrevista, fez uma confissão envergonhada: "Fiz a sessão inteira de fotos com minha braguilha aberta."

Muitas de suas respostas pareciam ser contidas, como alguém determinado a não dizer mais do que o necessário, embora ele também parecesse estar consciente da necessidade de responder. "Cresci em um lugar onde falar muito de si mesmo é considerado meio egoísta", disse ele, referindo-se à sua cidade natal, Springfield, no Missouri.

Um pouco desajeitado e distraído diante das perguntas, ele se sentia mais à vontade quando estava jogando conversa fora e ficava muito empolgado quando falava sobre sua família, do filme de Jolie ("Eu fiz o papel de fotógrafo do set") e sobre as crianças. "Não há nada mais marcante na vida do que se tornar pai", disse, "é uma mudança tão bela de perspectiva". E acrescentou: "Ficava muitas vezes irritado de ouvir pais falarem a respeito disso. Eu com certeza não curtia fotos de bebê antes de ser pai."

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Brad Pitt como o pai rígido de "A Árvore da Vida", dirigido por Terrence Malick
A paternidade é o que liga Pitt a seus papéis nos filmes "O Homem que Mudou o Jogo" e "Árvore da vida" – ele também interpretou um pai em "Babel" (2006), outra aclamada atuação –, o que sugere que certos atores são favorecidos pelo envelhecimento. Falando sobre "A Árvore da Vida" em maio no Festival de Cannes, ele afirmou que o filme lhe trouxe memórias de sua rígida educação batista. Mas em Nova York, esclareceu que não baseou sua atuação numa experiência de vida.

"Este certamente não é meu pai", disse ele a respeito de seu personagem no filme."Mas eu entendo essa mentalidade de que o pai sabe o que é melhor para seus filhos e sobre as pressões que ele tem ao ser o líder da família, ao mesmo tempo em que se sente como alguém que tem desejos e vontades próprias". Ele continuou: "A tragédia na verdade está em voltar para casa e descontar isso nas crianças e, em seguida, se sentir mal por ter feito isso. É apenas um ciclo vicioso." A maravilha da atuação de Pitt é como ele consegue expressar isso vividamente em momentos muitas vezes sem palavras, através da narrativa fragmentada de Terrence Malick.

É também um lembrete de que Pitt interpretou seus papéis mais notáveis em filmes mais alternativos, como o doente mental de "12 Macacos" (seu primeiro papel indicado a um Oscar), um desleixado maconheiro no filme "Amor à Queima Roupa", o cigano irlandês ininteligível de "Snatch, Porcos e Diamantes", o personal trainer sem noção de "Queime Depois de Ler". "Acho que é justo dizer que ele se destacou muito pela maneira que trabalha seus personagens", disse Bennett Miller, diretor de "O Homem que Mudou o Jogo". "Ele é capaz de mudar de estilo radicalmente."

O papel de Billy Beane, no entanto, é de um protagonista mais objetivo, e "O Homem que Mudou o Jogo" é um projeto pelo qual Pitt se apaixonou e pelo qual lutou seriamente para poder concretizar, mesmo quando a Sony disse que não iria realizá-lo, na época com Steven Soderbergh na direção. Chamando a atuação de Pitt de "um trabalho introspectivo", Miller afirmou: "Eu realmente acho que ele revela mais sobre quem é através deste personagem do que em qualquer outro que já tenha interpretado".

Pitt disse que se tornou mais confortável com a responsabilidade de ser o personagem principal de um filme. "Eu não estava pronto antes", disse ele. "Aprendi a ter mais coisas para oferecer a um personagem. Hoje consigo tocar mais notas." Se a diversidade de seus papéis hoje em dia sugere um portfólio equilibrado astuciosamente, no início parecia que ele não conseguia se concentrar muito bem no que queria. "Tive um momento difícil para encontrar o caminho que queria percorrer", disse. Houve uma época em meados dos anos 1990 quando sentiu que "as coisas começaram a sair do controle". "Sempre há muitas vozes te dizendo o que você deve fazer."

Pitt disse que "Seven" (1995), de David Fincher, foi "o primeiro filme em que eu reconheci a sensação de quando as coisas estão fazendo sentido". Fincher também dirigiu ele em dois outros filmes significativos, "Clube da Luta" e "O Curioso Caso de Benjamin Button" (pelo qual Pitt recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator). Seu personagem de "Clube da Luta", Tyler Durden, foi um ponto crucial em sua carreira, tanto como uma reviravolta da fama que tinha de ser um menino de ouro – idealizada por sua atuação em filmes como "Nada é Para Sempre" e "Lendas da Paixão" – quanto como uma subversão anárquica dela.

null"Muito a seu respeito é simplesmente magnetismo natural", disse Fincher sobre o que ele chamou de "o elemento que chama atenção" em estrelas de cinema como Brad Pitt. "As pessoas não percebem o quanto disso faz parte do trabalho que ele tem de fazer para que o público se relacione com o personagem."

Em uma entrevista em 1999 na Rolling Stone, Pitt falou sobre sua "luta para evitar tornar-se uma personalidade". Quando esse objetivo, que parece há muito impossível, foi mencionado, ele disse: "me lembro de ser muito consciente disso". Para os atores cujas vidas fora da tela falam mais alto que seus personagens, ele acrescentou: "Existe uma certa barreira que tem de ser derrubada antes que você possa começar a enxergar o personagem”.

Mas não é algo que ele pensa mais a respeito ou algo que se interesse em falar. "Como você pode ver, eu naturalmente não sou de falar muito", disse Pitt, trazendo o assunto de volta para seu personagem Billy Beane e contando como foi interpretar esse personagem.

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Pitt no cartaz de "O Homem que Mudou o Jogo"
Fincher, que se tornou um bom amigo ao longo dos anos, concordou. "Billy diz o que pensa na sua cara, o que não é uma coisa que Brad faz", disse Fincher. "Brad aprendeu a tomar muito cuidado com a maneira com que expressa suas opiniões para não ofender ninguém. Quando as pessoas se dirigem a ele, não acho que muitas delas percebam o tipo de afirmação que estão esperando."

Pitt disse que tenta manter uma visão mais limitada em relação a seu trabalho. "Quero fazer as coisas e quero que estas coisas falem por si mesmas", disse. "Não penso em nada além disso."

Dede Gardner, a parceira de Pitt na Plan B, descreveu a empresa como um "porto seguro" para cineastas com ideias pouco convencionais. Ela acrescentou que Pitt sempre foi firme em relação a não fazer negócios simplesmente por “vaidade”, mas sim em criar uma situação na qual todos possam sair ganhando, pois ele ajuda filmes interessantes a serem feitos e ao mesmo tempo encontra papéis interessantes para interpretar. Em fase de preparação estão os filmes "Cogan’s Trade", drama criminal cheio de diálogos dirigido por Andrew Dominik, o diretor de "Jesse James", e o filme de zumbis de Marc Forster chamado "World War Z". A Plan B também irá produzir o próximo filme de Steve McQueen ("Shame"), com Pitt interpretando um pequeno papel ao lado de Michael Fassbender.

O focado multitalentoso ator de Hollywood de hoje está muito longe do jovem recém-chegado e reprimido de 20 anos atrás. "Me escondi durante um bom tempo", disse Pitt. Mas o medo que tinha do comercialismo durante sua juventude abriu espaço para a percepção de que, como ele mesmo colocou muito francamente, "os artistas podem ter marcas e vender coisas".

"Eu era muito desconfortável em ser o centro das atenções", disse ele. "Mas há muitas coisas boas que podem ser feitas com isso e eu acabei aceitando. Faz parte da nossa indústria."

Isso foi introspecção o suficiente para o dia. Ele logo voltou a sua deixa.

"É divertido quando chega a sua vez", disse Pitt, parando para reconhecer que ele estava repetindo algo que já havia dito. "Essa é a minha frase, e eu estou aderindo a ela."

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