Desconhecido nos EUA, Tintim recupera espírito "Indiana Jones" no cinema

Animação dirigida por Steven Spielberg apresenta personagem aos norte-americanos; quadrinhos de Hergé já tinha espírito cinematográfico

The New York Times |

O novo filme de Steven Spielberg, "As Aventuras de Tintim", arrecadou aproximadamente US$ 12 milhões no último fim de semana das festas de final de ano nos Estados Unidos. Não é uma bilheteria surpreendente ( "Missão Impossível: Protocolo Fantasma" arrecadou mais de US$ 30 milhões), mas é mais do que alguns céticos previam para um filme sobre um personagem dos quadrinhos que, apesar de amado em grande parte do mundo, é praticamente desconhecido nos Estados Unidos.

Charles de Gaulle, por exemplo, chegou a dizer que em termos de fama internacional, Tintim era seu único rival. Os norte-americanos, por outro lado, não sabem nem mesmo como dizer seu nome direito. Nos desenhos originais, Tintim, uma criação do artista belga Hergé, falava francês, portanto seu nome deve ser pronunciado "Tãn-tãn" e não "Teen-teen" como no filme.

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"As Aventuras de Tintim": em cena, o capitão Haddock e o intrépido repórter adolescente
Tintim é a antítese de um super-herói, o que pode explicar por que ele parece tão estranho para os norte-americanos. Tem um topete ruivo, usa calças curtas com meias cor de argila e vive sozinho com seu cão, Milu. Não tem poderes excepcionais, nenhuma identidade sexual e aparentemente nenhuma vida interior. Hergé começou a desenhar o personagem em 1929 e trabalhava em uma aventura de Tintim (que teria sido a 24ª) quando morreu em 1983. Durante todo esse tempo Tintim nunca envelheceu, permanecendo púbere, com 14 ou 15 anos. Ele trabalha como jornalista, embora nós nunca o vejamos escrevendo uma reportagem.

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Seus livros são maiores do que os quadrinhos-padrão, com mais páginas e muito mais palavras por página do que o habitual. Eles são graphic novels genuínas, para usar a terminologia atual, e exigem do leitor tempo, foco e uma espécie de entrega infantil. Se a nova versão de Spielberg incentivar a audiência americana a ler e apreciar estes livros doces, encantadores e visualmente interessantes, como o resto do mundo já faz, esta pode ser sua maior conquista.

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Tintim nos quadrinhos: missão no Egito
O novo filme é baseado em três aventuras de Tintim que Hergé criou durante a Segunda Guerra Mundial: "O Caranguejo das Tenazes de Ouro" (1941), "O Segredo do Licorne" (1943) e "O Tesouro de Rackham O Terrível" (1943). Eles são uma introdução um pouco enganadora para o trabalho de Hergé, que normalmente tem uma qualidade mais documental e coloca Tintim para resolver mistérios em locais exóticos.

No início, as aventuras de Tintim tinham intenção de mostrar o mundo para as crianças belgas e a série nunca perdeu inteiramente essa alma itinerante. Outros livros se passam, por exemplo, no Peru, Índia, Egito, China, Estados Unidos (onde, em 1931, Tintim encontra Al Capone) e até mesmo na lua.

Apesar da variedade nas histórias, no entanto, há também uma fórmula, com as mesmas personagens confiáveis: o Capitão Haddock, um capitão fanfarrão e alcoolatra; o Professor Trifólio Girassol, um cientista distraído e quase surdo; Dupond e Dupont, detetives sósias e trapalhões, que usam um chapéu-coco; e a diva de nariz pontudo e voz estridente, Bianca Castafiore. Em cada volume, eles fazem variações das mesmas piadas e nisso está grande parte do apelo da série.

Spielberg disse que ouviu falar pela primeira vez sobre Tintim em 1983, quando soube que críticos franceses compararam a história de "Os Caçadores da Arca Perdida" com alguns dos trabalhos de Hergé. Curioso, ele comprou alguns livros de Tintim em francês e, embora não tenha conseguido ler as edições, ficou imediatamente encantado.

É fácil entender o porquê. Não apenas existe uma qualidade Indiana Jones em algumas histórias de Tintim – ele sempre descobre passagens secretas ou fica preso em aviões em queda livre -, mas os desenhos de Hergé tem uma qualidade inerentemente cinematográfica. Eles se parecem com storyboards ou um roteiro de filmagem, com closes, tomadas telescópicas, cortes e sequências de ação.

Hergé, que cresceu assistindo a comédias do cinema mudo, claramente adorava o cinema e em 1948 chegou a se oferecer para adaptar algumas de suas histórias para a Disney. O estúdio recusou a oferta, possivelmente porque eram histórias mais complicadas e adultas do que aquelas que fazia então, ou talvez porque o estilo de Hergé fosse simplesmente tão diferente daquele de Disney. Hergé era um desenhista brilhante e seus desenhos, desprovidos de fofura e sentimentalismo, são uma mistura atraente de simplicidade e detalhes precisos. O rosto de Tintim, por exemplo, se assemelha a um Charlie Brown formado por pontos e rabiscos, mas carros e aviões são tão cuidadosamente criados que podem ser identificados por marca e modelo.

Os desenhos de Hergé também são insistentemente bidimensionais, sem sombras, com muito pouco sombreamento e quase nenhum truque de perspectiva. Eles se contentam em estar numa página. Para os fãs adultos, entre os quais Andy Warhol e Roy Lichtenstein, a pureza e a criatividade do desenho são os pontos mais importantes da série Tintim.

Para os leitores dos livros originais, no entanto, o fato mais desconcertante sobre o filme de Spielberg é a forma como ele pula para fora da tela.

Um crítico literário britânico, atordoado pela transformação feita para o filme, disse que se sentiu "testemunhando um estupro". O filme foi gravado com a técnica de captura de movimento, que cria um efeito não apenas mais fofo que os filmes de desenho animado, mas também mais arredondado. Ele transforma Tintim, que no conceito de Hergé era uma abstração, numa abordagem realista que lhe parece um pouco desconfortável. Quando ele fala (na voz de Jamie Bell), a transformação se torna ainda mais surpreendente se você está acostumado a ouvi-lo como uma voz na sua própria cabeça.

nullHergé chegou a dizer que Tintim é uma projeção do seu eu interior, contendo seu próprio espírito de bravura e aventura, que só é verdade até certo ponto. O quadrinista, cujo nome verdadeiro era Georges Remi, em muitos aspectos foi menos atraente do que a sua criação. Em pessoa ele era um homem comum e pocuo sociável, cujos desenhos para a aventura "Tintim no Congo" (1931) foram inicialmente tão racistas que ele refez a história posteriormente. Também teve que refazer um livro posterior, "O Mistério da Estrela Cadente", por ser antissemita. A história contava com personagens chamados Isaac e Salomão, que esperavam o fim do mundo porque isso significava que poderiam pagar suas dívidas.

Durante a guerra, quando muitos belgas se recusaram a cooperar com seus ocupantes nazistas, Hergé trabalhou sem problemas para o jornal pró-alemão Le Soir (a mesma publicação para a qual o crítico literário Paul de Man escreveu artigos antissemitas quando jovem).

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Nos anos posteriores Hergé amoleceu um pouco e, antes um rigoroso católico, chegou a ter interesse em religiões orientais, o que pode estar refletido em "Tintim no Tibet" (1960), o livro mais bonito e sincero da série. Mas o próprio Tintim, por nunca envelhecer ou sequer modernizar seu guarda-roupa estilo anos 1930, permaneceu uma tela em branco sobre a qual os leitores podem projetar seus próprios sentimentos e fantasias. É essa inocência e indeterminação – seu desapego – que provavelmente torna Tintim tão estranho para os leitores norte-americanos e é também o que ele tem de melhor.

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