"180°", com Eduardo Moscovis, dá nó na linha do tempo

Longa de estreia de Eduardo Vaisman investe nas idas e vindas de um triângulo amoroso

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

No meio termo entre projetos comerciais e o cinema de autor, "180°" investe num caminho pouco explorado pelo cinema brasileiro. Se por um lado tem uma estrutura pouco convencional para o grande público – vai e volta no tempo sem parar –, por outro conta com uma história de fácil identificação e um galã televisivo na linha de frente, Eduardo Moscovis . Um híbrido, portanto, de olho na lacuna que é o mercado médio. A prova de fogo acontece a partir desta sexta-feira (16), quando o filme entra em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro e Juiz de Fora (MG).

Divulgação
Eduardo Moscovis e Malu Galli, dois vértices do triângulo de "180°"
A premissa é intrigante, com um quê de literatura latino-americana. O jovem jornalista Bernardo (Felipe Abib, o Jeremias de "Faroeste Caboclo" ) está colhendo os frutos de um livro de contos best-seller – fama, dinheiro e uma bela namorada, a editora Anna (Malu Galli). O ponto de partida da obra é uma caderneta anônima, encontrada por acaso, na qual estariam os contos. A questão é que – alerta de metalinguagem – ele realmente escreveu as histórias a partir de uma caderneta anônima, cujo dono começa a atormentá-lo.

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O mistério em torno da identidade do autor instaura um clima de mistério na trama, mas ela gira principalmente em torno do triângulo formado entre Anna e seu ex, Russell (Moscovis), ambos "padrinhos" de Bernardo no jornalismo e que tiveram uma separação tumultuada. Um fim de semana a três na fazenda de Russell no interior do Rio de Janeiro vai estremecer a relação e mudar o rumo das coisas.

Pode parecer simples, mas na prática "180°" não entrega essa história de mão beijada. Em seu primeiro longa-metragem, o diretor Eduardo Vaisman empregou como grande sofisticação narrativa uma montagem que avança e retrocede no tempo. Se entende o passado dos personagens e o desenrolar da trama em pedaços, a conta-gotas. Depois que tudo se encaixa, a escolha parece meramente decorativa – assim como nos filmes que apostam pesado nessa manobra, caso de "Amnésia" (com muito mais radicalidade), "180º" dificilmente resistiria com a mesma força a uma segunda sessão.

Mas a grande decepção é realmente o desfecho. O trio de atores, sozinho em cena praticamente o filme inteiro, numa estrutura quase teatral, está muito bem (com destaque para Abib), mas esse esforço não compensa a paciência do espectador, aguentando a projeção à espera da resolução de um mistério, que, no fim das contas, era mesmo o que se imaginava desde o início. O final é ainda mais constrangedor – clichê e metaforicamente pobre.

Ganhador do prêmio do júri popular do Festival de Gramado em 2010 e de melhor diretor e filme no Festival de Cinema Brasileiro de Miami, "180°" naufraga, portanto, em suas ambições. Elenco e conceito, por melhor que fossem, não resistiram à fragilidade do roteiro e da direção.

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