'Carregar piano é como domar boi bravo', diz especialista

Há 50 anos José da Gama transporta pianos de famosos, como o de cauda branco da apresentadora Xuxa, presente de Ayrton Senna

Paula Costa, especial para o iG |

George Magaraia
O português José da Gama, responsável pelo transporte do piano Steinway & Sons
Trabalhar com pianos geralmente é uma tradição levada de pai para filho. Esse é o caso da empresa “Rei dos Pianos”, que trabalha no ramo desde 1939. Transportar instrumentos musicais de tamanho porte é uma atividade que exige cuidado e carinho. José da Gama e Castro, 67 anos, lidera o negócio, junto com os três filhos. Ele foi responsável por levar no início do mês o Steinway & Sons do Teatro João Caetano até o Municipal (ambos no centro do Rio de Janeiro) para participar do concerto “Gershwin Piano Quartet”.

Mas o transporte é apenas uma das coisas que a empresa dele faz. Ele oferece uma gama ampla de serviços para pianos: restauração, marcenaria, afinação, aluguel, transporte e até venda. José da Gama ainda revela um segredo para transportar o instrumento: “Na hora de carregar tentamos lutar o máximo contra o piano. Respeitamos seu peso e sua inclinação na hora de segurá-lo. Tudo é feito sem pressa e com muita paciência. É como domar um boi bravo”, compara, lembrando que o objeto pesa mais de 500 quilos.

Natural de Portugal, da cidade Viana do Castelo, José da Gama chegou ao Brasil com 17 anos. Trazido pelo pai, logo começou a trabalhar em uma empresa especializada em pianos - sua primeira oportunidade de emprego. Esse foi o pontapé inicial para uma carreira duradoura. “Gosto muito de piano. Muitas lembranças que tenho da juventude trazem o instrumento. Meu avô era regente filarmônico e sempre íamos assistir suas apresentações. Era um evento familiar”, recorda.

Clientela VIP

Histórias curiosas e engraçadas não faltam nos seus 50 anos de profissão. “Lembro uma vez que deixamos o piano cair. Isso tem uns 48 anos, foi bem no começo mesmo, mas eu fiquei noites sem dormir”, conta ele, que, hoje, consegue até achar graça do episódio. “Foi um acidente sério, tive que restaurar todo o piano, sem cobrar nada. Mas, ainda bem que teve conserto”, diz aliviado. Segundo ele, esses acidentes não são comuns, por isso a importância de ter uma equipe muito bem treinada. “É um trabalho de muita precisão. Levo muito tempo para preparar um funcionário. Não basta ser forte, tem que ter sensibilidade também”, garante.

Mas é um ramo que já viveu dias mais intensos. “Há 30 anos fazíamos o transporte de até oito pianos por dia. Acho que as pessoas valorizavam mais a peculiaridade desse instrumento. Hoje, temos um ou dois por dia e, às vezes, nenhum. Somos sobreviventes do mercado”, declara. Sua credibilidade no ramo garantiu prestar serviços para clientes famosos, como a apresentadora Xuxa Meneghel. “Fizemos o transporte do piano da Xuxa duas vezes, quando ela mudou. Ela tem um piano de cauda inteira, branco, é uma peça muito bonita”, orgulha-se. Ele ainda conta que mantém na sua clientela vip nomes como Wagner Tiso e Miúcha.

Outros serviços que ele presta são mais demorados e ainda mais delicados. A restauração é um trabalho meticuloso que pode levar de 15 a 90 dias para ser feita. Depende do estado do instrumento, das condições de conservação ou, em alguns casos, de deterioração. “Todo caso tem jeito”, afirma. “Alguns desses pianos são do século XVIII e XIX, e estão em uma mesma família até os dias de hoje. Valem todo o esforço”, conclui.

George Magaraia
O piano Steinway & Sons, fabricado em 1967, precisou ser levado do Teatro João Caetano até o Theatro Municipal para participar do concerto do Gershwin Piano Quartet

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