Arte em países do Islã ganha força com leilões, exposições e feiras

Londres, 28 abr (EFE).- Com leilões, exposições, feiras e bienais, todas elas rodeadas de um interesse crescente de colecionadores e investidores, o mundo parece ter descoberto as novas criações artísticas dos países do Islã.

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Londres, 28 abr (EFE).- Com leilões, exposições, feiras e bienais, todas elas rodeadas de um interesse crescente de colecionadores e investidores, o mundo parece ter descoberto as novas criações artísticas dos países do Islã. As principais casas de leilões, como Christie's e Sotheby's, organizaram mostras de arte árabe, iraniana e turca, e galerias privadas como a Saatchi, de Londres, ou museus públicos, como o British Museum (Londres), o Martin Gropius Bau e o Haus der Weltkulturen (Berlim), ou o Moma, de Nova York, criaram exposições. A isso, somam-se feiras como a de Dubai, que chega à quarta edição, a de Abu Dhabi, que já teve duas edições, ou as bienais de Sharjah, também nos Emirados Árabes, e a mais antiga de todas, do Cairo, no Egito. Em Beirute, em Damasco, em Amã, no Kuwait e em Túnis surgiram galerias particulares, muitas delas especializadas na arte nacional, mas que pouco a pouco vão se expandindo ao trabalho de toda a região, explica à agência Efe a iraniano-libanesa Rose Issa, especialista em arte do Oriente Médio e organizadora de exposições. Tradicionalmente, a arte de origem islâmica foi dominada pela caligrafia, tradição seguida por alguns criadores, mas, segundo Rose, nenhum trecho do Alcorão proíbe expressamente a arte figurativa, "só está proibida a imagem humana nos lugares de oração, como as mesquitas". A caligrafia teve grande sucesso nos anos 50 e 60 do século passado, por conta dos movimentos de independência nos países do Oriente Médio e na região africana de Magrebe, explica Rose. Segundo ela, o estilo serviu para diferenciar os artistas orientais de seus colegas do Ocidente. Entre os praticantes dessa arte de inspiração caligráfica daquela época, a especialista destaca os iranianos Hossein Zenderoudi e Mohamad Ehsai. Em décadas posteriores, o argelino Rachid Koraichi, o tunisiano Nja Mahdaoui, o marroquino Mehdi Qotbi, o líbio Ali Oma Ermes, o egípcio residente em Londres Ahmed Moustapha e a iraniana Maliheh Afnan continuaram essa tradição. Nos anos 80 e 90, com a guerra entre o Iraque e o Irã, a invasão do Kuwait pelo Iraque e a do território iraquiano pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha, foi gerado no mundo árabe uma profunda crise de identidade, lembra Rose. Segundo ela, também contribuíram a guerra do Líbano, os massacres de Sabra e Shatila, o castigo contínuo do povo palestino por Israel e muitos outros fatos que fizeram os árabes conhecerem, entre outras coisas, "a dupla moral do Ocidente". Esses e outros episódios históricos, "momentos de usurpação, de perda, de guerra, de violência, de colonialismo direto ou indireto, mas também de esperança, libertação, direitos da mulher e de chamadas à justiça", atravessados pelas minorias, se refletem, segundo Rose, "nas obras dos artistas de gerações posteriores". Grande conhecedora do cinema iraniano, a especialista destaca também a influência da cinematografia de criadores como Abbas Kiarostami ("Onde fica a casa do meu amigo?" e "Através das oliveiras") e Mohsen Makhmalbaf ("O Ciclista" e "Um instante de inocência") sobre o resto das artes visuais. Nos filmes de ambos, o documentário e a ficção se confundem, explica Rose, que acrescenta que esses artistas demonstraram ao resto do mundo como, em condições de forte censura governamental e com orçamentos muito limitados, podiam ser produzidos filmes que são autênticas obras de arte. Perguntada sobre o panorama artístico atual, a especialista diz que Dubai, que sonha em se transformar em um centro cultural de toda a região, deu um impulso extraordinário às artes, mas aponta para o problema da "islamização" crescente em muitos países, como Egito e Argélia. "Por outro lado, temos muito poucos museus de arte contemporânea que mereçam esse nome, o do Cairo se dedica principalmente à arte institucional, enquanto outros, como o da Jordânia, têm um orçamento ínfimo e, como os preços das obras não param de subir, poucas delas podem ser expostas". Outro problema é que a classe média, que era como a coluna vertebral de países como o Líbano, por exemplo, está desaparecendo, enquanto prolifera a corrupção, que "muitos associam ao Ocidente". Isso não impede, no entanto, que continuem surgindo artistas de ambos os sexos, embora muitos deles acabem sendo obrigados a ir para a Europa ou para os Estados Unidos, onde expõem com sucesso em galerias e museus. Rose cita, entre outros, as iranianas Shirin Neshat, Shadi Ghadirian e Shiazeh Houshiary e seus compatriotas E.Z. Kami e Farhad Moshiri, os egípcios Ahmad Moustapha, Chant Avedissian, Ghada Amre e Youssef Nabil, a palestina Mona Hatoum e a egípcio-alemã Susan Hefuna. EFE jr/dr/fm

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