Alessandra Negrini vira adolescente em "A Propósito de Senhorita Júlia"

Em cartaz no Rio, montagem da obra de Strindberg transpõe ação para eleições de 2002

Valor Online |

Em 1879, o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) causou polêmica com seu texto até hoje mais famoso, "Casa de Bonecas", que representava pela primeira vez (de forma positiva) uma mulher que largava o marido. August Strindberg (1849-1912), o escritor e também dramaturgo sueco, revoltou-se com a história da personagem Nora e escreveu ele mesmo um espetáculo para responder a Ibsen. Em "Senhorita Júlia" (1888), Strindberg expõe aquilo que lhe parecia um fato crucial, mas esquecido pelo rival norueguês: não havia lugar na sociedade europeia do século 19 para uma mulher sem marido.

Em versão adaptada para o Brasil contemporâneo, a peça de Strindberg estreia em montagem carioca nesta sexta-feira (12) no teatro Nelson Rodrigues do conjunto Caixa Cultural, no centro do Rio de Janeiro. "A Propósito de Senhorita Júlia" tem direção de Walter Lima Jr. e conta com Alessandra Negrini como Júlia, Armando Babaioff no papel de Jean (rebatizado como Moacir) e Dani Ornellas como Cristiane, a cozinheira.

Divulgação
Dani Ornellas, Alessandra Negrini e Armando Babaioff na peça "A Propósito de Senhorita Júlia"
O texto sueco, que debate a condição feminina e as relações de dominação social na "belle époque", foi adaptado pelo escritor José Almino para uma época em que tanto a vida da mulher quanto os meandros da relação de classes são muito diferentes. A exemplo do que fez o autor britânico Patrick Marber, em seu "After Miss Julie", José Almino ressaltou os aspectos políticos mais pronunciados do texto de Strindberg. "Walter Lima Jr. disse que me chamou para fazer essa adaptação por causa do meu 'olho político' sobre as coisas", diz Almino.

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Se o original se passava na cozinha de uma propriedade rural sueca durante a festa de São João (em que o sol brilha por quase 24 horas no país nórdico), a versão britânica se passa durante as celebrações da vitória trabalhista ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), contra o partido conservador de Winston Churchill. A montagem brasileira, explica o adaptador, se passa numa mansão próxima ao Rio de Janeiro, durante a celebração pela vitória eleitoral de Lula em 2002. "Nesta versão, Júlia é filha de um deputado de partido conservador fluminense, um político tradicional que aderiu à campanha vitoriosa do PT", explica o adaptador.

Apesar da transposição cronológica, Almino afirma que o texto do dramaturgo sueco é seguido com fidelidade, com apenas alguns cortes de "menções simbólicas datadas, que só fazem sentido na época em que foram escritas". O desfecho da narrativa, por exemplo, seria inverossímil em pleno século 21 e teve de ser modificado.

"Júlia é uma jovem voluntariosa e mimada, com inclinações para a esquerda por atavismo e um comportamento errático", define o adaptador. "Já o subalterno, eu o representei como alguém com uma consciência aguçada de sua condição social. Não a consciência proletária tradicional, mas a ambição, a vontade de subir na vida."

Para colaborar com a transposição para o cenário brasileiro, a empregada Cristiane ganhou uma nova característica: ela é evangélica. Almino explica também que a festa que serve de pano de fundo para o desenrolar da trama não é diretamente política em sua versão. O pai deputado está distante, recebendo o recém-eleito presidente Lula no Palácio das Laranjeiras, e a filha, adolescente que é, aproveita para chamar os amigos para a casa vazia em Petrópolis. "É uma sociologia local, digamos assim", diz o adaptador entre risos. "E realça a frivolidade de Júlia."

"Senhorita Júlia" é um dos textos mais conhecidos da fase realista de August Strindberg, polêmico escritor nórdico que enfrentou processos por misoginia e relatou em romances como "Inferno" (1897) o processo em que acreditava estar ficando louco, quando viveu em Paris. Mais tarde, rompeu com as principais convenções do teatro, em textos como "O Caminho de Damasco" (1898) e "O Sonho" (1902). Por isso, é considerado o precursor do teatro pós-dramático do século 21. O ano de 2012 marca a celebração do centenário de morte do autor.

Serviço – "A Propósito de Senhorita Júlia" no Rio de Janeiro
De 12 de janeiro a 12 de fevereiro de 2012
Caixa Cultural Teatro Nelson Rodrigues (av. Chile, 230)
De quinta a sábado, às 19h30; domingo, às 19h
Ingressos: R$ 20
Duração: 90 minutos
Informações: (21) 2262-5483

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