Ai Weiwei ao iG: 'Quero provar a minha inocência'

Artista fala a respeito da condenação imposta a ele pelo governo chinês e sobre doações de dinheiro feitas por conterrâneos

Janaina Silveira, especial para o iG, em Pequim |

O artista - e crítico contundente do governo chinês - Ai Weiwei decidiu que irá obedecer a lei do país a fim de que possa recorrer junto à Justiça no caso em que foi condenado a pagar R$ 4,13 milhões pelo suposto crime de evasão de divisas.

"Vou entregar o montante exigido pelas autoridades, que serão guardiãs desse dinheiro. Não é pagar, mas garantir que, assim, eu possa recorrer da sentença", disse Ai Weiwei em entrevista por telefone ao iG , na tarde desta quinta-feira (horário de Pequim).

Reuters
O artista chinês Ai Weiwei

A grande dúvida de Ai era justamente se ele pagaria ou não o montante que o governo chinês cobra. Em caso afirmativo, estaria reconhecendo culpa de um crime que ele diz não ter cometido. Não pagando, poderia voltar à prisão. Segundo a legislação chinesa, para poder recorrer, Ai precisa deixar o dinheiro como caução, mesmo que depois os valores sejam revisados ou ele seja considerado inocente.

"Quero ir à Corte provar a minha inocência, então decidimos que daremos o dinheiro como caução."

E dinheiro parece não ser o problema. Ainda que não tivesse o total, desde a última quinta-feira o artista já arrecadou mais de R$ 1,8 milhão em empréstimos de cidadãos comuns, num movimento que surpreendeu muita gente e é visto como uma manifestação importante de descontentamento da sociedade ante o governo central.

"É importante saber que as pessoas estão lutando. E é gratificante, graças à internet, saber quem são essas pessoas que me apoiam, quantas elas são", afirmou ao iG um dos mais notórios dissidentes chineses, que não esconde a surpresa com a mobilização. "Durante muito tempo achava que eu era um dos únicos a lutar pelo que acredito."

AFP
Notas de dinheiro que foram jogadas à casa do artista Ai Weiwei
O dinheiro doado ao artista chega de várias maneiras, como por metódos eletrônicos de transferência até nada convencionais dobraduras de aviões feitas com notas, em fugazes voos rasantes desde a calçada até o pátio da casa em que Weiwei vive – e onde também está instalado o escritório e o estúdio Fake Design.

Esse complexo, todo em tijolos cinza, foi projetado pelo próprio Weiwei ainda na década de 1990 e acabou dando origem a um dos distritos de arte mais ativos de Pequim, Caochangdi. Depois de sua chegada, diversos outros artistas resolveram montar estúdios na região, que fica próxima ao aeroporto da capital.

Ai Weiwei já disse que devolverá cada centavo doado – a dúvida é como isso se aplicará no caso dos donos originais dos aviõezinhos. Houve gente que doou pouco, simbolicamente. Mas uma única pessoa chegou a deixar uma sacola em frente ao portão com o equivalente a pouco mais de R$ 10 mil.

Injustiças

Em entrevista à rede alemã Deutsche Welle, a professora Ai Xiaoming, da universidade de Zhongshan, afirmou que a campanha não expressa apenas apoio ao artista, mas um protesto contra o que os chineses consideram injustiças promovidas pelo governo.

Outro ponto merece atenção: muitos atribuem à ajuda ao artista a expressão de voto livre que gostariam de ter. É que durante esta semana o país passa por eleições locais. Estão sendo eleitos os representantes distritais, que depois elegerão representantes em níveis superiores, numa escala hierárquica que culmina nos 2 mil delegados do Congresso Nacional do Povo, a expressão máxima da legislatura chinesa.

AP
Chinês aguarda em frente à casa de Ai Weiwei para doar dinheiro ao artista
O problema é que o sistema de votação não apenas é indireto, mas os candidatos acabam por receber aval do comitê local do Partido Comunista para concorrer – uma regra não escrita, mas corrente na cultura da República Popular. A lei prevê a existência de candidatos independentes, mas eles são poucos – neste ano, apenas um foi eleito, em Guangdong – e o processo acaba parecendo jogo de cartas marcadas, sem credibilidade.

O governo não se pronunciou oficialmente sobre o caso, mas no domingo, a conta de Ai Weiwei no Weibo, o equivalente ao Twitter na infosfera chinesa, simplesmente desapareceu. Já na versão original do microblog, Ai se mantém ativo, com mais de 110 mil seguidores.

Uma das únicas vozes oficiais foi a do jornal Global Times, braço midiático do poder central para opinar sobre temas de interesse mundiais. No início da semana, um editorial afirma que as doações poderiam sugerir que o artista estaria recolhendo dinheiro ilegalmente.

O texto ainda tenta esvaziar o movimento, dizendo que há pouca legitimidade na campanha, uma vez que estaria atingindo uma parcela muito pequena da população chinesa. E a conclusão do artigo é particular: tanto Ai Weiwei quanto seus apoiadores descobriram que ativismo politico é uma atividade financeiramente lucrativa – ou seja, para os editorialistas a serviço do Partido Comunista, dissidentes não desejam mudanças políticas, mas poupanças mais gordas.

AP
Ai Weiwei em sua casa, em Pequim


Problema de liberdade de expressão

Ai Weiwei foi preso em 3 de abril deste ano, quanto estava no aeroporto de Pequim tentando embarcar para Hong Kong. Passou 81 dias detido, em local desconhecido. Depois de quase uma semana de silêncio e sob forte pressão internacional, o governo atribuiu a prisão a crimes financeiros.

Quando Ai foi solto, o próprio governo estimou em pouco menos de R$ 1,4 milhão a suposta dívida do artista – valor três vezes menor do que o cobrado hoje. Para completar, a empresa que cuida dos trabalhos de Ai, a Beijing Fake Cultural Development, pertence à mulher do artista, Lu Qing. Mas o aviso legal entregue no estúdio na última semana é dirigido a Ai, que seria o "controlador de fato" do negócio. Ele refuta sequer a existência desse termo.

Leia também: Ai Weiwei é destaque em mostra com parede em branco

Ai voltou à liberdade mediante algumas condições, entre as quais não falar à imprensa e não deixar Pequim por pelo menos um ano. A segunda, ele ainda cumpre, mas a primeira foi abandonada poucas semanas depois de retornar para casa, numa crítica contundente à vida na capital chinesa, que ele chama de "pesadelo", publicada na revista norte-americana Newsweek.

Foi a jornalistas que Ai contou ter sido vítima de tortura psicológica e que, durante os dias na prisão, jamais foi questionado sobre crimes financeiros.

O que interessava, afirma ele, eram suas atividades como dissidente, especialmente em um período em que o governo temia respingos da Primavera Árabe em solo chinês. Internamente, chamados em redes sociais por protestos que se revelaram apenas fantasmas acenderam o alerta oficial, num movimento cunhado como Revolução dos Jasmins , cujo legado foi apenas o aumento da repressão a dissidentes – mais de cem foram presos de fevereiro a maio – e a jornalistas, especialmente estrangeiros.

Tido como um possível líder nessa suposta revolução, Ai foi retirado de cena. Ironicamente, poucos meses depois ele é pivô de outro movimento, também surgido na internet. Tanto que desde domingo a conta de Ai Weiwei no microblog Weibo, o site mais popular do gênero a imitar o Twitter na China, foi apagada. E foi a partir daí que muita gente que não pode mais se expressar via computador resolveu jogar seus aviõezinhos no pátio da casa de Ai.

A mãe do artista também teve sua parcela de contribuição. Ai Ying chegou a dizer que poderia hipotecar a casa que pertenceu ao marido, Ai Qing – poeta reverenciado até por Mao Zedong. A notícia causou comoção entre os internautas.

Como o filho, Ai Qing também foi perseguido pelo governo. O pai sofreu os tempos difíceis da Revolução Cultural (1966-1976), quando foi mandado para a Região Autônoma Uigur de Xinjiang, onde limpou banheiros durante cinco anos. Ai, como o restante da família, integrou o esquema de reeducação no campo por meio do trabalho.

Leia também: Prisão de artista chinês testa amplitude da repressão na China

Nos anos 1980, o então aspirante a artista frequentou a Academia de Cinema de Pequim e pouco depois foi morar nos Estados Unidos, onde estudou arte – e penou para vender os trabalhos, num tempo em que o mercado estava nem aí para as expressões contemporâneas chinesas.

Foi para rever o pai, doente, que Ai voltou a se estabelecer na China, em 1993, trazendo na bagagem influencias como Jasper Johns (1930), Marcel Duchamp (1887-1968) e Andy Warhol (1928-1987).

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