AfroReggae abre centro cultural em favela no Rio

Palco de conhecida chacina em 1993, Vigário Geral ganha espaço de artes, com nome do produtor e poeta baiano Waly Salomão

Rafael Lemos, especial para o iG |

A inauguração do Centro Cultural Waly Salomão, do AfroReggae, na tarde desta quarta-feira (26) fez da favela de Vigário Geral, no subúrbio do Rio, o ponto de encontro de vários artistas.

Regina Casé, Caetano Veloso, Zuenir Ventura (jornalista autor do livro "Cidade Partida", de 94, sobre a relação entre favelas e a cidade) e José Junior, coordenador executivo do AfroReggae foram guiados em um tour pelo centro cultural, onde conheceram as novas instalações. O governador do Estado Sergio Cabral também esteve presente.

As obras do novo centro foram custeadas pelo governo estadual e pelo BNDES, em parceria com empresas privadas, no valor de R$ 6 milhões, sem contabilizar o gasto com desapropriações de residências ao redor.

A favela foi palco de uma chacina, em 1993, que marcou a história da cidade - quando 21 pessoas foram assassinadas por policiais militares. O motivo dos crimes seria vingança pela morte de quatro PMs, ocorridas dias antes no mesmo bairro. Após este acontecimento, surgiu o AfroReggae, projeto social criado para atender a jovens sem perspectivas de futuro. Oficinas de música, dança e percussão são oferecidas a jovens de diferentes faixas etárias.

Dia de festa

O designer Luiz Stein, marido de Fernanda Abreu, fez o projeto gráfico do prédio, que tem 1400 metros quadrados, quatro andares, uma sala especial para informática, um auditório para conferências, além de um palco de teatro e uma lona de circo com cinco metros de altura.

Regina Casé apresentou um show, logo após a cerimônia de inauguração, com os jovens do projeto. O primeiro a pisar no palco foi o cantor Caetano Veloso, padrinho do AfroReggae. Logo de cara, ele aproveitou a oportunidade para homenagear o tropicalista, poeta e compositor Waly Salomão, entusiasta do grupo, falecido em 2003. Caetano abriu o show interpretando "Mel", uma composição dele com Salomão. O cantor baiano cantou ainda "Haiti" e "A Luz de Tieta".

Com o cair da noite, o público aumentou, chegando a mais de mil pessoas. Depois de Caetano, outro baiano tropicalista entrou em cena. Gilberto Gil subiu ao palco e agitou a empolgada plateia de Vigário Geral com o hit "Andar com fé". Na saída, o ex-ministro fez questão de elogiar a escolha do nome do amigo para batizar o novo espaço cultural. "O Waly foi um dos primeiros a vir pra cá, saindo da zona sul para se misturar com as células culturais que estavam brotando aqui. Foi um dos primeiros a estabelecer o diálogo dessa cultura com o Brasil e com a Bahia", destacou o cantor.

Outra figura de destaque no evento foi Omar Salomão, filho de Waly. Ele cantou e ainda, nos intervalos, declamou poemas do pai, emocionando os presentes. Na plateia, prestigiando o evento, estavam os integrantes do grupo "Nós do Morro" Jonathan Haagensen ("Cidade de Deus"), Marcello Melo (o Bené, de "Viver a Vida") e o diretor Gutti Fraga.

Cláudia Dantas
O cantor Caetano Veloso foi um dos artistas que se apresentou na inauguração do centro cultural

Reinserção social

Ivone Mendonça, conhecida na comunidade de Vigário Geral como “Gaúcha Mendonça”, 22 anos, trabalha como recepcionista dentro do projeto de empregabilidade do AfroReggae. Condenada a 15 anos por tentativa de latrocínio, cumpre sua pena atualmente em regime semi-aberto. Gaúcha sai da cadeia às seis da manhã e retorna às 19 horas, sendo que às segundas e terças pode retornar mais tarde, por estar concluindo o Ensino Médio. Tudo com o auxílio de assistência educacional do AfroReggae na comunidade.

Ivone já planeja cursar a faculdade de jornalismo no segundo semestre desse ano. “Existe uma grande diferença entre o criminoso e quem cometeu apenas um crime. Eu me enquadro no segundo grupo. Mas se não fosse o AfroReggae, não estaria trabalhando assim tão rapidamente”, disse ela, que se coloca como exemplo de pessoa regenerada na sociedade.

Além de trabalhar como recepcionista Gaúcha canta pop-rock com a banda do AfroReggae e ajudou, recentemente, na trilha sonora do filme “Seu eu não te amasse tanto assim”, filme de Geisa Chaves, ainda inédito no circuito.

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