Secretário da Cultura de São Paulo critica iniciativa federal e diz que prioridade no estado é "interiorização"

Agencia Estado
O secretário de Cultura de São Paulo, Andrea Matarazzo
Secretário de energia do governador Mario Covas, ministro da Secretaria de Comunicação do presidente Fernando Henrique Cardoso, subprefeito da Sé na gestão José Serra. A folha de serviços de Andrea Matarazzo é extensa. E segue com a administração Geraldo Alckmin no Estado de São Paulo.

Matarazzo é o titular da pasta da cultura, e é um dos poucos secretários do governo anterior a continuar no cargo.

Segundo ele, suas principais preocupações no cargo são a "interiorização" e a "universalização" da cultura. Em outras palavras, levar a cultura ao interior do Estado e dar acesso a quem não tem. Matarazzo recebeu a reportagem do iG em seu gabinete, no centro de São Paulo. Ele ainda falou sobre suas ideias para os museus e bibliotecas do estado, leis de incentivo e TV Cultura. E aproveitou para criticar o Vale Cultura (plano do governo federal que pretende fornecer R$ 50 mensais para famílias carentes consumirem bens culturais). Abaixo, a entrevista.

iG: Quais são as prioridades do seu mandato como secretário da Cultura de São Paulo?
Andrea Matarazzo: As prioridades são, em primeiro lugar, interiorizar a cultura. Em segundo, universalizar o acesso à cultura. Veja, por exemplo, a Pinacoteca do Estado. Ela é um dos melhores equipamentos do Brasil, tem um acervo fantástico. É um primeiro ensaio de interiorização.

iG: Como isso será feito?
Andrea Matarazzo: Utilizando sua reserva técnica como acervo para pinacotecas no interior de São Paulo. Estamos fazendo um primeiro estudo em Botucatu. O prefeito tem um prédio belíssimo, o antigo fórum de Botucatu, um projeto de Ramos de Azevedo. Hoje o prédio está vazio, e queremos colocar o acervo da Pinacoteca lá. Vamos estudar depois outros locais, como Presidente Prudente e Ribeirão Preto.

iG: A ideia então não é levar as mostras em cartaz na Pinacoteca, mas o próprio acervo?
Andrea Matarazzo: Exatamente. Queremos implantar a Pinacoteca, em parceria com municípios, no interior do Estado. Esse acervo fica lá nas cidades. Passa a ser, vamos dizer, uma filial da Pinacoteca.

iG: Quando isso deve ser implantado em Botucatu?
Andrea Matarazzo: Estamos estudando. Já vimos o prédio, falamos com o prefeito, estamos fazendo os estudos técnicos. É uma parceria: nós implantamos e o município administra.

iG: E a universalização do acesso à cultura, como ela pode ser implantada?
Andrea Matarazzo: Veja o caso do MIS (Museu da Imagem e do Som). Primeiro, ele precisa ser revisto aqui em São Paulo mesmo. Estamos vendo como melhorá-lo, como torná-lo novamente atraente, como ele já foi. MIS e Paço das Artes, juntos, recebem 60 mil pessoas por ano. É muito pouco.

iG: Como levar as pessoas até o MIS?
Andrea Matarazzo: Vamos levar o MIS até as pessoas. É um acervo de imagem e de som, portanto pode ser digitalizado. Considerando que o acervo digital é facilmente transportável para outros lugares, é possível fazer terminais remotos do MIS. Eles podem estar dentro das oficinais culturais e das fábricas de cultura. Isso é fácil de fazer, e é uma forma de dar acesso a quem não tem a coisas boas.

iG: Esses terminais poderiam estar em bibliotecas também?
Andrea Matarazzo: Sim, claro. A Biblioteca de São Paulo, no Parque da Juventude, está recebendo 50 mil pessoas por mês. É muita gente. Por quê? Porque é uma biblioteca diferente. Primeiro, o acervo dela vai de gibis a revistas semanais, passando por best-sellers e clássicos. Ainda tem terminais de computador, filmes, música. Você tem de ir na direção do que as pessoas querem.

iG: É um bom modelo?
Andrea Matarazzo: É um belo modelo. Em agosto do ano passado começamos a fazer outra biblioteca no Belém (zona leste da capital paulista) e estamos estudando a possibilidade de fazer algumas no interior. Estamos justamente conversando com prefeitos agora para possibilitar apoio nosso para a reforma de bibliotecas que eles têm, transformando nesse modelo. É um fato: se não tiver internet na biblioteca, ninguém vai. E se não abrir no final de semana, também. Biblioteca com horário de funcionamento de serviço público não tem cabimento.

iG: Sobre o o MAC (Museu de Arte Contemporânea), ele deveria ter mudado da USP para o antigo prédio do Detran em dezembro. Quando essa mudança vai acontecer?
Andrea Matarazzo: Primeiro, o prédio do Detran levou um tempo para ser desocupado. Era preciso tirar uma estrutura imensa lá de dentro, e isso atrasou um pouco. Segundo, é uma obra delicada, porque é um prédio tombado, feito pelo Oscar Niemeyer. O prédio deve ficar pronto em abril, e daí deve funcionar vazio por um mês e meio ou dois, para ver se tudo está bem: climatização, iluminação, segurança. Acredito que até julho ele esteja pronto.

iG: Qual a importância da mudança do MAC para a região do parque Ibirapuera?
Andrea Matarazzo: O seu acervo é o mais importante de arte contemporânea da América Latina. As obras estavam guardadas na USP, com uma mínima parcela exposta, algo em torno de 1%.

iG: O que o senhor acha das leis de incentivo à cultura? Elas funcionam?
Andrea Matarazzo: Eu não vi com detalhes ainda a mudança da Lei Rouanet. Mas, bem ou mal, ela já funcionava bem. Aqui em São Paulo, nós temos os incentivos do Estado, como o Proac-ICMS e o Proac Editais. Eles são importantes. Há atividades, como o teatro de laboratório, que se não tiverem um apoio não funcionam. O cinema também ainda precisa de apoio. No Brasil não existe a tradição das empresas investirem em cultura se não houver incentivo fiscal.

iG: E o Vale Cultura, como o senhor avalia?
Andrea Matarazzo: Não sei. Não sei se funciona. Tem que esperar como vai ser, o que é. Acho que foi um factóide para um determinado momento, tanto que não está no mercado. Eu acho o seguinte: o que você tem de fazer é estimular a produção existente, às vezes com medidas diretas. O Vale Cultura... não saberia opinar.

iG: No caso da TV Cultura, qual deve ser o foco de programação da emissora?
Andrea Matarazzo: A TV Cultura, antes de mais nada, é uma fundação. Ela não é ligada à Secretaria da Cultura. Mas isso que o presidente [da Fundação Padre Anchieta, que controla a TV Cultura] João Sayad está fazendo, ao focar na produção de infantis e comprar conteúdo de produtoras independentes, é um bom caminho. E também dar acesso a quem não tem TV a cabo, exibindo bons programas do Discovery Channel, do History Channel. O João Sayad tem uma visão bastante clara e está na direção correta.

iG: O governo estadual anunciou um contingenciamento de R$ 1,5 bilhão no orçamento. A Cultura foi afetada em quanto?
Andrea Matarazzo: Muito pouco. Cerca de 10%, nada que afete os planos. Estamos com um orçamento bom, somado à TV Cultura, de R$ 1 bilhão.

iG: É suficiente?
Andrea Matarazzo: É bom. Suficiente nunca será. Se você puser R$ 2 bilhões, será insuficiente. Mas ele é incomparavelmente melhor do que já foi historicamente.

iG: Nas últimas eleições para a Prefeitura de São Paulo, o nome do senhor era um dos cotados para a disputa...
Andrea Matarazzo: Mas nós não estamos falando de cultura?

iG: O senhor não tem a ambição de disputar um cargo público?
Andrea Matarazzo: Nenhuma. Nunca disputei nenhum cargo público. Se tivesse essa ambição, já teria disputado.

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