'A Lua Vem da Ásia': projeções de um mundo infantil

Leia resenha da peça, vista pela presidenta Dilma Rousseff no dia 2 de abril, em Brasília,

Daniel Schenker, especial para o iG |

No dia 2 de abril, Dilma Rousseff assistiu, em Brasília, à peça "A Lua Vem da Ásia" . A presidenta já havia dito em entrevista que o que menos lhe agrada no exercício do cargo é a ‘’falta de liberdade" e a dificuldade de "se movimentar” para fugir do assédio da imprensa. Mas a petista abriu uma brecha para ir ao teatro.

O espetáculo, que estava em cartaz no CCBB da capital federal, será montado em São Paulo a partir do dia 16 de abril, no Centro Cultural Banco do Brasil. Abaixo, leia crítica da peça.

Divulgação
O ator Chico Diaz em "A Lua Vem da Ásia"
A escrita do surrealista Campos de Carvalho (1916-1998) foi destacada no teatro, nos últimos anos, por Hugo Possolo, na encenação de "Vaca de Nariz Sutil", e por Aderbal Freire-Filho, na montagem de "O Púcaro Búlgaro", espetáculo apelidado de romance-em-cena.

A terminologia diz respeito às peças de Aderbal, nas quais não houve propriamente uma adaptação dos livros para o palco. Em vez disso, as obras literárias foram encenadas sem cortes, com a teatralidade realçada pelos trabalhos dos atores e pelas soluções cênicas. Agora, Chico Diaz, ator que trabalha com alguma frequência com Aderbal, decidiu transportar "A Lua vem da Ásia", livro homônimo do mesmo Campos de Carvalho (publicado em 1956), para o teatro, sem ambicionar, porém, inscrevê-lo na vertente do romance-em-cena.

Moacir Chaves, diretor acostumado a lidar com material literário, assina a montagem, que conta com supervisão dramatúrgica do próprio Aderbal. Um desafio para o ator, "A Lua vem da Ásia" também exige um espectador iniciado, capaz de abrir mão do encontro com uma história linear. Estruturado como um diário sem ordem cronológica, o texto coloca o público diante das peripécias de um personagem inconformado com o funcionamento do mundo e que permanece preso a um mundo infantil.

A impressão é realçada pela dimensão reduzida dos objetos na cenografia criada por Fernando Mello da Costa e também pela grafia da letra projetada na tela transparente de um mundo imaginário. A figura de Chico Diaz lembra muito a de uma criança, sem que o ator recorra a recursos óbvios de imitação. A perspectiva infantil, em seu trabalho, vem à tona por meio da postura ora crédula, ora desnorteada, própria de uma criança.

Em estreita parceria com a proposta do cenógrafo, Moacir Chaves orquestra bem as duas partes do texto - a primeira, intitulada A Vida Sexual dos Perus, ambientada em espaço fechado, contrasta com a sugestão de espaço aberto da segunda, denominada Cosmogonia, tomada pela projeção de nuvens. Apesar do resultado esteticamente sedutor, o diretor não procura fascinar o espectador através de um jogo de efeitos. Tanto que deixa a maquinaria do teatro e os objetos utilizados ao longo da apresentação à vista do público. O bom acabamento do espetáculo resulta ainda dos integrados trabalhos de Maria Diaz Rocha (figurinos), Alfredo Sertã (trilha sonora), Renato Machado (iluminação) e Eder Santos (vídeos).

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