A Família Addams: programa para não perder

Um espetáculo delicioso, divertido do começo ao fim e com atores que parecem ter nascido para o papel. Vá e leve as crianças

Ana Ribeiro, iG São Paulo

Rafael Koch Rossi/Divulgação
Marisa Orth, Daniel Boaventura e o balé dos mortos na cena de abertura do musical "A Família Addams"
A platéia explode em aplauso assim que se abre a cortina da apresentação para convidados do musical “A Família Addams”, em cartaz no Teatro Vivo, no Rio, até 7 de abril. O cenário lindo, o figurino inspirado, a iluminação certeira, a expectativa de ver Marisa Orth encarnando a lânguida Mortícia, a própria cena em si – uma festa no cemitério – dá a dica da delícia de espetáculo que está prestes a começar.
Os Addams estão celebrando uma tradição anual da família, a noite em que dançam sobre os caixões dos ancestrais enterrados e convidam os mortos para festejar. Liderados por Gomez (Daniel Boaventura) e Mortícia, e seguidos pelo resto da família – os filhos Wandinha e Feioso, o tio Fester e a vovó, e ainda pelo mordomo Tropeço –, os mortos participam do primeiro, e impecável, número de dança. A novidade é que, no fim da festa, os defuntos encontram suas tumbas trancadas e não conseguem voltar para debaixo da terra. Eles devem ficar mais um pouco entre nós, até que esteja resolvida uma crise familiar: Wandinha está apaixonada.
Rafael Koch Rossi/Divulgação
Atraídos pela paixão de Wandinha, passarinhos aparecem na máquina de tortura em que ela brinca com o irmão, Feioso
Ela própria está em pânico. Como que “possuída” por sentimentos bons, não entende porque ri e chora o tempo todo, acha tudo certo e errado ao mesmo tempo e, maldição, está achando graça em cachorrinhos, unicórnios e, a maior das heresias, na Disneylândia!
E assim caminha o espetáculo, em uma sucessão de cenários lindos, diálogos divertidos, números de dança empolgantes. Algumas das pérolas do texto: Mortícia recebe um buquê dos pais do pretendente de Wandinha e Gomez comenta: “Alguém te mandou flores? Quem seria capaz de um ato de tamanho mau gosto?” Mortícia arranca as flores do buquê e entrega apenas os galhos ao mordomo: “Ponha no vaso”. Quando Wandinha aparece vestindo amarelo, Mortícia fica alarmadíssima: “Quem veste cores vivas não tem imaginação.”
Rafael Koch Rossi/Divulgação
Gomez e Mortícia: paixão que resiste a 25 anos de casamento e um decote que vai "até a Patagônia"
Boaventura é um Gomez sedutor e engraçado, e o resto do elenco também está muito bem escalado. Os atores têm sua chance, um a um, de mostrar serviço, como na cena do jantar em que a carola mãe do noivo (Paula Capovilla) toma por engano uma poção da verdade e se transforma numa mulher sedenta de sexo e aventura. Para o tio Fester (Claudio Galvan) está reservado um momento de ilusionismo na cena em que ele faz uma serenata para a sua amada: a lua. No papel de Wandinha Addams, Laura Lobo arrebata o público: como é possível uma voz desse tamanho caber em uma atriz de porte tão diminuto?
João Caldas/Divulgação
Na cena do jantar, o choque do encontro dos Addams com os reprimidos Beineke. E Wandinha (à esq.), de amarelo
Dizer que Marisa acerta no papel de Mortícia é pouco. Ela tem como atriz as mesmas características que Mortícia tem como mulher: a sensualidade, a malícia, a ironia, e as pernas. É como se o papel tivesse sido escrito para ela. Esqueçam para sempre da Magda de “Sai de Baixo”: agora Marisa encontrou verdadeiramente o papel de sua vida.

João Caldas/Divulgação
A Família Addams: Vovó, o mordomo Tropeço, Gomez, Wandinha, Mortícia, tio Fester e Feioso
Prova de que o espetáculo está agradando em cheio é que, depois dos 20 minutos de intervalo, a platéia está de novo lotada. Até o casal amigo que encontrei na entrada e que me alertou de que veria “o primeiro ato com certeza” desistiu da costumeira fuga no meio tempo e está de volta a seus lugares.

É irresistível descobrir o que vai acontecer com o casal Mortícia e Gomez, que terminou o primeiro ato enfrentando a primeira crise dos 25 anos de casamento. E é com novo deleite que a platéia descobre Mortícia, num momento de tristeza e dúvida, se consolando com a ideia de que a morte está “logo ali na esquina, no gosto doce da estricnina”. Marisa brilha mais uma vez no número de dança em que faz um pas de deux com a morte em si. Festejando o fato de que seu encontro com o fim está marcado, ela canta: “A morte é o meu amanhã.”

João Caldas/Divulgação
Prova de amor: para mostrar que morreria por ela, Lucas tem de colocar a maçã sobre a cabeça e deixar que Wandinha atire
E o espetáculo não perde o fôlego no segundo ato. Pelo contrário: o melhor ainda está por vir, como o número do tango da reconciliação de Gomez e Mortícia. O amor de Wandinha e Lucas (Beto Sargentelli) floresce, e Feioso se vê diante da perspectiva de perder a irmã, companheira de brincadeiras nas máquinas de tortura que Gomez coleciona. Chateado, ele pede para a mãe contar uma história para alegrá-lo na hora de dormir. “A vida é uma corda de duas pontas: de um lado está o seu bercinho, do outro o seu caixão. Está mais tranqüilo agora?”, diz a mãe zelosa. Ele assente.
No final de quase três horas de pura diversão (somados os 20 minutos de intervalo), a família Addams deixa também suas lições de vida: amar o diferente, nunca perder a paixão, dizer somente a verdade. Mas a principal lição, a ser seguida imediatamente: reserve o seu ingresso.

Serviço:

5ª e 6ª às 21 hs.; sábado às 17hs. e 21 hs.; domingo às 16hs. e 20hs. Ingressos de R$ 70 a R$ 230. Teatro Vivo - Rio de Janeiro.

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