'Palavra de Rainha' é um espetáculo lindo de admirar e uma aula de história

Por Ana Ribeiro | - Atualizada às

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Sozinha em cena, a atriz Lu Grimaldi divide o palco com um vestido-cenário que faz ao mesmo tempo as vezes de figurino de Maria I, a rainha louca, e do oceano que a trouxe de Portugal

Em monólogo vigoroso, Lu Grimaldi interpreta Maria I, a rainha louca. Foto: DivulgaçãoEm monólogo vigoroso, Lu Grimaldi interpreta Maria I, a rainha louca. Foto: DivulgaçãoEm monólogo vigoroso, Lu Grimaldi interpreta Maria I, a rainha louca. Foto: DivulgaçãoEm monólogo vigoroso, Lu Grimaldi interpreta Maria I, a rainha louca. Foto: DivulgaçãoEm monólogo vigoroso, Lu Grimaldi interpreta Maria I, a rainha louca. Foto: DivulgaçãoEm monólogo vigoroso, Lu Grimaldi interpreta Maria I, a rainha louca. Foto: DivulgaçãoEm monólogo vigoroso, Lu Grimaldi interpreta Maria I, a rainha louca. Foto: DivulgaçãoEm monólogo vigoroso, Lu Grimaldi interpreta Maria I, a rainha louca. Foto: DivulgaçãoEm monólogo vigoroso, Lu Grimaldi interpreta Maria I, a rainha louca. Foto: DivulgaçãoEm monólogo vigoroso, Lu Grimaldi interpreta Maria I, a rainha louca. Foto: Divulgação

O maior acerto desse espetáculo seria o figurino, não fosse também pelo cenário, pelo texto, pela direção e pela estupenda (aplausos em pé!) atuação da atriz. Ou seja: não faltam motivos para assistir ao monólogo "Palavra de Rainha", em que Lu Grimaldi interpreta Maria I, a rainha louca, mãe de Dom João VI e avó de D. Pedro I.

De sobra você ainda vai ter uma aula interessante de história, já que a gente pouco se lembra do que aprendeu na escola sobre dona Maria I, a primeira mulher a assumir o trono de Portugal, Algarve e Brasil, a não ser que ela era louca. 

Sua loucura, diagnosticada na época como "Doença Melancólica", tinha traços genéticos mas também muita tristeza real. Ela perdeu cinco filhos antes de vir para o Brasil, inclusive D. José, que seria o herdeiro da coroa e morreu de varíola aos 27 anos. Sobrou João, que cruzou os mares com ela numa viagem de navio que durou 60 dias.

Foi aí, diz Lu Grimaldi na pele da rainha Maria I, nessa sucessão não planejada da coroa portuguesa, que "afundou o futuro do Brasil". O dramaturgo Sergio Roveri, autor da peça, descobriu em sua pesquisa que realmente José tinha muito mais vocação para rei do que João. "Os livros que li dizem que ele tinha espírito empreendedor, uma visão avançada, muitos projetos, muitos planos e a ambição de fazer de Portugal um país mais moderno, nos moldes de França e Inglaterra", diz ele, sobre o filho que D. Maria casou com sua irmã mais nova - ou seja, com a própria tia.

Os filhos de Maria I também eram fruto de seu casamento com um tio, irmão mais novo de seu pai, 17 anos mais velho que ela, para quem já nasceu prometida. Não queria vir para o Brasil de jeito nenhum, mas foi expulsa de Portugal pelas tropas de Napoleão. Vivia no Rio em um convento, cercada de escravas com quem gritava o dia todo, temendo a presença do demônio, que ela imaginava estar escondido atrás das montanhas, especialmente do Pão de Açúcar. 

"Falei com um médico que me disse que esses casamentos com parentes de primeiro grau enfraqueciam muito a genética e os deixava vulneráveis a doenças, à loucura e à morte precoce", diz Roveri, que explica que 200 anos atrás, muito antes de Freud e da psicanálise, melancolia era a palavra-chave de todos os diagnósticos de doenças mentais. "Eles achavam que melancolia era uma condição física, uma doença, e não um estado."

Maria viveu bastante, surpreendentes 82 anos. Não ia para a rua porque não podia ser vista daquela maneira por seus súditos, mas saía em passeios de carruagem nas horas mais vazias, e o Rio de Janeiro, capital da colônia, se acostumou a ouvir os gritos de Maria louca pela noite. 

O FIGURINO

Um vestido negro cuja saia cobre o palco todo e sobe pelas paredes, se transformando também no cenário. Uma estrutura de arame em volta das pernas da atriz provoca movimentação no tecido que lembra ondas do mar quando ela caminha, ao mesmo tempo em que o volume prende a atriz, e reflete a angústia de Maria de estar a um oceano de distância de casa. "Sonhei que morria louca em uma terra distante, do outro lado do mar, onde faz calor, o cheiro não é bom, as moscas passeiam sobre as comidas e o diabo se esconde atrás das montanhas", diz Dona Maria I na voz de Lu Grimaldi.

A ATRIZ

Era preciso uma atriz de verdade para vestir a roupa de Maria I, e Lu Grimaldi conduz essa viagem com a precisão de um marinheiro experiente, que não tem como evitar a oscilação provocada pela movimentação do mar. Ela faz uma Maria frágil porém vigorosa, sofrida porém clara em sua loucura e ciente de sua tristeza profunda. Dizer um texto daquele é pra quem pode, só decorar o nome da rainha já é um desafio: Maria Francisca Isabel Josefa Antonia Gertudes Rita Joana de Bragança.

O TEXTO

Uma viagem a Portugal, conversas com especialistas, aulas de história e a leitura de quatro livros deram a base necessária para Sergio Roveri, que usou o conhecimento histórico com mãos de autor de teatro e contou a vida de Maria I de maneira nada didática ou óbvia - mas todas as informações estão ali.

A DIREÇÃO

Mika Lins acertou muito na condução do texto na boca da atriz, do jogo do grande e do pequeno, do negro do vestido com o branco do pano de fundo, do dramático do peso da história com a pontuação sutil da trilha sonora.

Em resumo: um espetáculo que quem gosta de teatro não pode perder.  

Serviço:

Teatro Viradalata

Rua Apinajés, 1387 - Sumaré - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3868 2535

Sexta e sábado, 21h30; domingo, 20h30.

Bilheteria: 19h/22h (quinta e sexta); a partir das 10h (sábado e domingo).

Ingresso: R$ 30,00





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