Marcelo Rubens Paiva chora ao falar do pai em mesa na Flip

Por Maria Carolina Gonçalves | - Atualizada às

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“O desaparecimento é uma segunda tortura, para a família do desaparecido”, falou o escritor, arrancando lágrimas da plateia

“O desaparecimento é uma segunda tortura, para a família do desaparecido”. O escritor Marcelo Rubens Paiva chorou ao contar sobre a tortura e morte do pai e a prisão da mãe durante o regime militar no Brasil. Ele leu uma de suas crônicas, como é tradição nas mesas da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

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Ele foi o primeiro a falar na mesa “Memórias do cárcere: 50 anos do golpe”. Seu texto relata como sua família foi informada de que o pai, Rubens Paiva, seria liberado em breve da prisão. Dias depois, os jornais noticiaram a versão que o regime deu, segundo a qual o pai, saindo da prisão, teria sido atacado e sequestrado por guerrilheiros.

Divulgação
O escritor Marcelo Rubens Paiva foi uma das atrações da Festa Literária de Paraty

Marcelo Rubens Paiva emocionou-se ao contar a crônica e ao falar do filho de cinco meses. “Eu vejo isso com outros olhos agora [que sou pai]”, diz. O autor arrancou aplausos da plateia que o assistia ao vivo, dentro da tenda principal, e também da plateia que assistia no telão do lado de fora do auditório.

“Quem combateu a ditadura foi a minha mãe, não o meu pai”, afirma. Ele lembra outras mulheres que tiveram papel essencial na luta contra a ditadura, como Clarice Herzog e Zuzu Angel. Mulheres que, em alguns casos, lutaram para continuar o que seus maridos, mortos pelo regime, haviam começado.

O jornalista Bernardo Kucinski fala de uma dessas mulheres, sua irmã Ana Rosa Kucinski, que foi uma das pessoas “desaparecidas” durante a ditadura. “O pai que procura a filha desaparecida nunca desiste”, lê em um trecho de seu livro “K” (2011), em que conta a história da irmã.

“O Golpe de 1964 é um dos momentos mais fascinantes da nossa história”, opina Marcelo Rubens Paiva. Ele relata que sua casa recebeu diversos perseguidos políticos que contaram com a ajuda de seus pais com refúgio ou com dinheiro para que conseguissem fugir do País.

Neste ano, Kucinski lançou “Você ainda vai voltar pra mim”. O título irônico, que pode sugerir uma história de amor, refere-se a uma frase proferida por um torturador, tratando-se de uma ameaça.

“O Brasil é um País de pouca memória”, opina o economista Persio Arida. Além disso, ele acredita que o conhecimento dos brasileiros sobre a história do Brasil ainda é muito fraco. Esses fatores, para ele, dificultam que a memória da ditadura chegue aos dias de hoje. “É um capítulo remoto da história do Brasil”, diz Kucinski.

Desaparecidos
“A minha história é a de alguém que ficou desaparecido”, afirma Persio Arida. Ele conta que, no momento em que seu pai percebeu que ele não estava em casa, foi a hospitais, necrotérios e procurou saber se ele estava preso. Foram 15 dias de aflição. “A sensação do desaparecido é de fragilidade. Quando você fica sabendo que alguém [da família] sabe que você está lá, é uma sensação de conforto”, diz.

“Nós vivemos hoje os momentos finais da estratégia da ‘abertura lenta e gradual’ anunciada no fim da ditadura”, opina Kucinski. Para ele, a dor continua para as famílias que não conseguem enterrar os corpos de seus entes perdidos. “O governo negou que existisse a guerrilha do Araguaia e parte disso era negar que houvesse corpos”, afirma.

“Sempre falam que o desaparecimento é uma segunda tortura, para a família do desaparecido”, diz Marcelo Rubens Paiva. Ele conta que sua mãe enfrentou um entrave burocrático, sem conseguir resgatar seu dinheiro e outros bens por muitos anos, devido à ausência de um atestado de óbito do marido. “Você continua sendo torturado durante décadas, é uma coisa que não tem fim”, diz.

Curiosidade
O nome desta mesa, "Memórias do Cárcere", é o mesmo nome de um livro de memórias de Graciliano Ramos, publicado postumamente, em 1953. Ele havia sido preso por motivos políticos em 1936, acusado de ligação com o Partido Comunista, durante o governo de Getúlio Vargas. O livro foi adaptado para filme, com o mesmo nome, em 1984, dirigido por Nelson Pereira dos Santos.

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