"Myrna sou Eu" reestreia em SP com ideias ácidas de Nelson Rodrigues sobre amor

Por Ana Ribeiro , iG São Paulo | - Atualizada às

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Espetáculo teatral resgata um dos pseudônimos femininos de Nelson Rodrigues: Myrna é a consultora sentimental que responde cartas dos ouvintes em um programa de rádio

João Caldas/Divulgação
Nilton Bicudo é Myrna no espetáculo "Myrna sou Eu", em cartaz no Teatro Eva Hertz, na Livraria Cultura da av. Paulista

Nelson Rodrigues tinha ideias muito particulares, e ácidas, sobre os fatos da vida. "Toda família tem um momento em que começa a apodrecer", dizia ele. E explicava: "Lá um dia aparece um tio pederasta (...), uma irmã lésbica (...), um pai ladrão".

Para falar de amor o dramaturgo (1912-1980) se mantinha fiel à aspereza dos comentários. Entretanto, escondido sob o pseudônimo Myrna, consultora sentimental que nos anos 1940 respondia cartas no jornal "Diário da Noite" - na versão para o palco ela tem um programa de rádio -, ele revela um certo romantismo e, aí sim, faz concessões ao amor romântico, com suas características de justificar qualquer atitude e fazer o alvo da flecha do cupido perder o rumo de casa.

João Caldas/Divulgação
Nilton Bicudo é Myrna na montagem de "Myrna Sou Eu", baseada em textos de Nelson Rodrigues

Quem dá corpo a Myrna no espetáculo "Myrna sou Eu", em cartaz em São Paulo, é o ator Nilton Bicudo. Sua Myrna é uma mulher elegante, irônica, sagaz, que vê sem ilusão e com aparente equilíbrio e conhecimento de causa os problemas do coração de seus ouvintes, a maioria deles mulheres.

Nilton espreme ao máximo, com talento, um tailleur xadrez, trejeitos femininos e saltos altos em que seu corpo magrinho se movimenta com desenvoltura, os suculentos por natureza textos de Nelson Rodrigues.

Sem ter muito por onde andar em um cenário que imita o estúdio da rádio e é composto praticamente apenas por um microfone, uma mesa e uma cadeira, ele vai cativando a plateia do teatro e envolvendo nas questões amorosas dos ouvintes mesmo aqueles homens que estão ali na tarde de sábado claramente para atender ao apelo de suas mulheres.

E o público, conduzido pelos dramas românticos de Íris Negra, Madalena, Margarida, Laura, Paulo, Norma, se diverte com a atuação de Nilton enquanto escuta as teorias amorosas de Nelson Rodrigues.

VINGANÇA
"Em amor, ninguém se vinga de ninguém (...) A vingança faz pior mal a quem a exerce do que a quem a sofre."

RAZÃO
"Em amor, ninguém tem razão, ninguém deixa de ter razão (...) Nas crises amorosas, não importa saber quem tem razão, importa saber quem ama mais, quem ama menos."

AMAR MAIS E AMAR MENOS
"Gostar mais significa uma trágica situação de inferioridade (...) Mas não deixo de reconhecer que gostar muito, gostar mais, gostar demais exprimem também um privilégio. Aquele ou aquela que ama loucamente conhece os êxtases de um deus. Um grande amor, mesmo infeliz, é uma graça inefável." 

SENTIDO PRÁTICO 
"Conserva-se fiel a quem não pediu, não exigiu, nem quer a sua fidelidade (...) Se importasse é que haveria, no amor, um sentido prático. Esse sentido não existe, porém. Tanto não existe que amamor a quem não devíamos amar, amamos a quem não queremos amar, amamos a quem só nos faz sofrer, amamos a quem não nos ama. Em uma palavra: amamos porque... amamos."

AMOR E FELICIDADE
"Pensava do amor maravilhas. 'Vou ser feliz, muito feliz', era o meu sonho, o meu desejo profundo. E depois, quando me enamorei, quando me apaixonei, descobri a mais estranha das verdades: não havia entre o meu amor e a felicidade a menor relação. Eu amava e era infeliz." 

IMPOSSIBILIDADE
"Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo."

Myrna Sou Eu
Teatro Eva Hertz (av. Paulista, 2.073 - Conjunto Nacional, SP)
Sábados, 18 h (até 27 de setembro)
R$ 40

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