Manifestações no Brasil são discutidas em exposições, filmes e música

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Protestos de junho de 2013 são tema do documentário "20 Centavos" e inspiram mostras e eventos

Se o Brasil ainda tenta entender o significado e o impacto das manifestações que tomaram as ruas a partir de junho de 2013 e continuam acontecendo em várias cidades, o universo das artes se mostra cada vez mais presente na busca por respostas.

Artistas como Seu Jorge, Tom Zé e Capital Inicial já lançaram músicas influenciadas pelos protestos, que também foram transportados para museus e para as telas.

As manifestações servem de inspiração para mostras no Museu de Arte de Moderna de São Paulo e para a Bienal de Artes de São Paulo, que começará em setembro, são tema do documentário "20 Centavos", que será exibido no festival É Tudo Verdade, e ganharam menção no cinema comercial, com imagens da mobilização nas ruas sendo exibidas durante os créditos do filme "Alemão".

Imagem de Daniel Kfouri usada no documentário '20 Centavos', de Tiago Tambelli. Foto: Daniel KfouriImagem de Daniel Kfouri usada no documentário '20 Centavos', de Daniel Kfouri. Foto: Daniel KfouriImagem do documentário '20 Centavos', de Tiago Tambelli. Foto: DivulgaçãoImagem do documentário '20 Centavos', de Tiago Tambelli. Foto: Divulgação'Ruas de Junho', fotografia do grupo Mídia Ninja, estará na mostra 'poder provisório', que começa dia 31 de março no MAM SP. Foto: Mídia NinjaA mostra '140 caracteres' ficou em cartaz no MAM, em SP, de 28 de janeiro a 16 de março. Foto: DivulgaçãoA fotografia 'João silhueta e bandeira', de Luiz Braga (2001), integrou a mostra '140 caracteres'. Foto: Luiz BragaA fotografia 'Posseiros presos. Marabá - PA. Guerrilha do Araguaia', de Orlando Brito (1972), integrou a mostra '140 caracteres'. Foto: Orlando Brito

Diante da força e do ineditismo das manifestações, que começaram em protesto ao aumento na tarifa de transporte público em São Paulo, artistas sentiram a necessidade de retratar um acontecimento ainda em curso.

"O Brasil não tem a tradição de fazer filmes durante os momentos de transformação social", afirmou Tiago Tambelli, diretor de "20 Centavos", em entrevista ao iG. "Meu desejo foi fazer um filme dentro do processo, e não após o processo."

Segundo o cineasta, foi a repressão contra manifestantes e jornalistas que o incentivou a documentar os protestos. "O próprio medo me levou para a rua. Se o Estado estava reprimindo o direito de expressão e o trabalho jornalístico, alguma coisa precisava ser feita em termos cinematográficos."

Veja o trailer de "20 Centavos":

Assim como os manifestantes, Tambelli usou o Facebook para reunir um grupo de colaboradores em torno da ideia de filmar os protestos sem um direcionamento preciso sobre o que seria feito com o material. Enviou 50 convites e recebeu a adesão de cerca de 30 profissionais do cinema, entre diretores de fotografia, técnicos de som, produtores e montadores, que fizeram um investimento próprio de R$ 50 mil.

Até 11 equipes saíam às ruas ao mesmo tempo, e o grupo contava também com bases de produção em Brasília e no Rio de Janeiro. As 80 horas de filmagens eram editadas conforme chegavam à produtora de Tambelli, que considerava agilidade um fator fundamental. Em seis meses, o média-metragem de 53 minutos estava pronto.

Divulgação
Pôster da Bienal de SP, que discutirá coletividade e conflito

Nas salas dos museus

O momento de transformação social do País também ecoa nas salas dos museus. Neste ano, a Bienal de São Paulo discutirá "as coisas que não existem", partindo da ideia de que a arte tem a capacidade de tornar visível o que não é visto e desencadear mudanças individuais e coletivas.

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O evento terá obras sobre protestos em Pernambuco e Turquia e trabalhos que refletem sobre a relação entre religião e capitalismo e sobre conflito e resistência.

O Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo foi pioneiro na abordagem artística dos protestos com a exposição "140 Caracteres", uma seleção de obras de sua própria coleção com o objetivo de discutir a mobilização política por meio das redes sociais - daí o título, uma referência ao Twitter.

Durante a exposição, que ficou em cartaz de 28 de janeiro a 16 de março, visitantes puderam ver máscaras que faziam alusão àquelas usadas nas ruas, obras que formavam paisagens urbanas e trabalhos feitos durante a ditadura militar.

Na próxima segunda-feira (31), o MAM inaugura uma nova mostra inspirada no momento do País: "poder provisório", que fica em cartaz até 15 de junho e discute as relações de poder e hierarquia por meio de 86 fotos.

Convidado a pensar a exposição durante os protestos, o curador Eder Chiodetto visitou o acervo de fotografia do museu e percebeu que muitos temas dos manifestantes já eram foco de artistas nos últimos 50 anos: das desigualdades do capitalismo ao colapso do projeto urbano das metrópoles. Por isso, segundo Chiodetto, a mostra não trata do "aqui-agora" da sociedade brasileira.

Karina Bacci/MAM/Divulgação
Imagem da exposição 140 Caracteres, que esteve em cartaz no MAM SP

"Fui juntando esses trabalhos e, quando os olhei reunidos, me veio a ideia de uma ladainha, um discurso repetitivo que se arrasta no tempo", disse, em entrevista ao iG. "Dentro dessa ideia de 'ladainha' tento mostrar, por meio dos fotógrafos expostos, que essas relações discrepantes de poder e hierarquia se arrastam há muito tempo e eclodem vez por outra em manifestações e violência."

Sem conclusões

Até agora, o retrato artístico das manifestações mais buscou provocar reflexões do que oferecer conclusões claras. É o caso de "20 Centavos", que sem narração em off ou entrevistas, se estrutura como uma colagem de imagens dos protestos, retratando a explosão de violência, a repressão policial, representantes do Movimento Passe Livre e dos black blocks, as divergências internas entre os manifestantes e suas múltiplas reivindicações.

"Durante a montagem fomos tirando as perguntas e respostas e ficando com o material que entrou espontaneamente na câmera: brigas, discursos, tensões", disse Tambelli. "O filme não pergunta, mostra. Fugimos da análise sociológica porque somos cineastas. Gostaríamos que, agora, os sociólogos, cientistas sociais e antropólogos urbanos se debruçassem sobre o filme. Como foi feito dentro do processo, ele não se encerrou ainda."

O cineasta também espera demonstrar que é possível fazer cinema de forma ágil, instantânea e barata, fora do modelo de produção brasileiro, baseado nas leis de incentivo fiscal.

Divulgação
Imagem do filme '20 Centavos'

"A gente olhava nas ruas e se perguntava: cadê os cineastas de São Paulo? Por que eles não estão na rua? É um crise cultural também, uma falta de iniciativa da própria classe cinematográfica. A gente deveria ter mais coragem e desejo de produzir filmes de pulsão social", afirmou. "Se ficasse esperando financiamento, não ia ter filme. Precisamos atuar de forma independente, com ousadia empresarial, e ir pra campo, mostrar as caras."

Arte ou documento?

Num momento em que o registro pode ser feito por qualquer pessoa munida de câmera ou celular, a mostra "poder provisório" terá tanto obras de fotojornalistas renomados, como Alcir da Silva e Orlando Brito (que registraram momentos históricos como a queda das Torres Gêmeas e o movimento das Diretas), como fotos das manifestações de 2013 feitas pelo coletivo Mídia Ninja.

Chiodetto achou relevante inserir o trabalho de um grupo que, atuando de forma independente, questionou a relação entre imprensa e mercado. "Como vejo o museu como um organismo vivo que pensa a complexidade do mundo contemporâneo, indiquei as obras do Mídia Ninja com a ideia de gerar esse debate", disse Chiodetto.

"Essas imagens são arte ou documento?", questionou. "Agora elas se unem a outras obras incorporadas pelo museu com caráter documental, e com outras de artistas reconhecidos, para formar uma rede mais complexa de pensamento. A ver."

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