Roteirista de "Sherlock": "Há uma quantidade imensa de material para usarmos"

Por Paulo Terron , especial para o iG | - Atualizada às

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Mark Gatiss, que interpreta Mycroft Holmes na série da BBC, veio ao Brasil para divulgar "Sherlock" e "Doctor Who"; leia entrevista ao iG

Mark Gatiss foi recebido por fãs entusiasmados em todos os eventos públicos que realizou no fim de semana passado, no Rio e em São Paulo, e não à toa: ele escreve e atua em duas das séries mais populares do mundos, "Sherlock" (que ele também co-criou e produz) e "Doctor Who". Na primeira, vive Mycroft, irmão do protagonista. Na segunda, já teve diversos pequenos papeis – e é o braço direito de Steven Moffat, atual poderoso chefão do programa (que completou 50 anos de existência em 2013).

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O roteirista e ator Mark Gattis, em evento no Rio

As responsabilidades são muitas, e até levemente assustadoras. Ambas as séries não estão atualmente no ar (no canal BBC HD), e isso nem longe quer dizer que o trabalho em volta delas tenha parado. "Doctor Who" está em meio à filmagem de uma nova temporada - a oitava da "fase moderna", iniciada com um reboot em 2005 -, que tem a apresentação de um novo Doctor (o alienígena protagonista, que muda de aparência de tempos em tempos), o ator Peter Capaldi.

Gatiss está escrevendo dois roteiros no momento, mas não dá detalhes. Quando perguntado se os vilões dos episódios dele seriam clássicos, ele apenas respondeu enfaticamente: "Novos, novos, novos!".

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Sherlock teve a terceira temporada exibida neste ano, e já tem um planejamento para mais duas (sendo que a quarta deve estrear só por volta de 2016). E sem previsão de acabar, no melhor estilo "continuaremos enquanto for divertido", agora também dependendo das concorridas agendas dos atores que interpretam Sherlock (Benedict Cumberbatch, que migrou para os Estados Unidos e atuou em filmes como "Além da Escuridão - Star Trek" e "12 Anos de Escravidão") e Watson (Martin Freeman, agora na trilogia "O Hobbit").

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(Benedict Cumberbatch e Martin Freeman em 'Sherlock'

Na manhã de segunda-feira (17), o britânico de 47 anos falou mais sobre os universos fantásticos dentro dos quais cresceu, como público, e que agora fazem parte do trabalho dele.

iG - Sei que você gosta muito de terror. Como escritor, foi o gênero no qual você começou?
Mark Gatiss - Acredito que sim. Nos tempos de escola – é uma coisa terrível! – eu costumava escrever e vender histórias nas quais os professores eram assassinados de formas horríveis. Eu as comercializava por lá, ainda devo ter alguma. Meu professor de educação física era um que particularmente odiava, porque com ele as minhas histórias eram de vingança e ele sempre era morto. Então, sim. Mas "Doctor Who" também. Eu escrevia histórias baseadas na série nos meus livros escolares... E de Sherlock Holmes, eram as minhas duas grandes paixões. Mas tudo isso tinha algo de terror, particularmente histórias de fantasmas.

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Cena de 'Doctor Who'

iG - Hoje parece ser comum que os roteiristas atuais de "Doctor Who" tenham começado como fãs, escrevendo histórias em casa.
Mark Gatiss - Sim, sim. Dá para argumentar que os malucos dominaram o hospício. É difícil de... É bobo ver isso de uma forma pejorativa, já que todo mundo é fã de algo. Sempre que alguém assumiu (o controle) da série, deu tudo de si. Claro que é um trabalho também. Acho que é assim para tudo na vida: talvez você tenha se tornado jornalista porque gosta de bom jornalismo. É estranho que ainda exista um sentimento pejorativo nessa ideia de dedicação.

iG - O que você achou da escolha do Peter Capaldi como o novo Doctor? Não é chocante que os fãs mais novos tenha reclamado por ele ser mais velho, sendo que isso é algo tradicional ao longo dos 50 anos da série?
Mark Gatiss - Não é fascinante? É como se o branco virasse preto, e o alto virasse o baixo. Quando o Peter Davison foi escalado, a reação foi "como o Doctor pode ser tão jovem?". Agora é o contrário! E isso é muito empolgante, a atitude radical para este momento foi a de usar um cara mais velho. Porque se o Steven (Moffat) tivesse escolhido outro jovem levemente nerd, seria mais do mesmo. Em uma perspectiva pós-2005, dá para entender o nervosismo. Quando o Jon Pertwee – o meu Doctor, da minha época - foi escolhido, eu o idolatrava. Não precisava que ele fosse mais jovem – eu gostava que ele fosse daquele modo, uma figura paterna ou um avô. Isso continua igual agora. O Peter é um ator fenomenal, um dos maiores dos nossos tempos. Ele está muito empolgado, vai ser excitante ver o que ele fará com o papel – exatamente por ser algo inesperado.

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O roteirista e ator Mark Gattis

iG - Comparativamente, quando um ator é escalado para o papel do Doctor, ele tem de dedicar a vida àquilo, enquanto em "Sherlock" vocês têm de trabalhar ao redor dos outros compromissos do elenco.
Mark Gatiss - Agora temos mesmo!

iG - Como é essa diferença?
Mark Gatiss - É justo dizer que o emprego que temos em "Sherlock" só é tão legal porque não temos de fazê-lo o tempo todo. Dependemos do Martin e do Benedict poderem se desprender dos filmes para voltar e fazer a série que amamos fazer. Certamente é menos intenso. Como você disse, "Doctor Who" é um compromisso gigantesco – a série é filmada durante nove meses de cada ano. Ela não te deixa tempo para fazer muita coisa, além de dormir, acho. Doctor Who exige muito mais da pessoa. Em "Sherlock", conseguimos transformar os atores em astros internacionais do cinema, o que só dificulta. (risos) Mas todo mundo quer continuar, então só precisamos ajustar nossos calendários.

iG - Nesse sentido, ajuda estar trabalhando na Inglaterra? Tenho a impressão de que se "Sherlock" fosse feita nos EUA, haveria mais pressão por mais episódios.
Mark Gatiss - Acho que esse pensamento é um exagero que costumamos fazer. A cada vez mais, os americanos estão no nosso modelo e fazendo menos episódios. "House of Cards" teve 13, algumas séries têm até seis ou 10! Antes eles faziam, sei lá, 38 por semana! Isso é interessante, porque talvez estejam tentando fazer menos para fazer melhor. Por outro lado, se estivéssemos fazendo a série nos EUA, acho que haveria pressão, sim. Uma das melhores coisas, das mais libertadoras, é o poder de dizer não. "Não estou interessado." Sempre nos perguntam, a mim e ao Steve, sobre irmos trabalhar nos EUA. Não estamos interessados nisso. Porque todas as coisas que fazem "Sherlock" e "Doctor Who" interessantes desapareceriam. Imediatamente passariam a ser séries sem identidade... Se você não está interessado nisso, eles não têm o que te oferecer. Só dinheiro. Se você diz não, é libertador. Não acho que essas séries prosperariam nesse ambiente. Claro, como eu disse, esse ambiente está mudando em algumas áreas, mas no ambiente típico de uma rede de TV... A magia seria assassinada.

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Mark Gattis em 'Sherlock'

iG - Como é o planejamento das agendas em "Sherlock"? É caótico ou vocês simplesmente conseguem agendar tudo com anos de antecedência?
Mark Gatiss - Não é caótico, depende mais de manejar blocos de tempo. Se eu e o Steven estivéssemos completamente livres, seria mais fácil de se planejar. "Doctor Who", claro, fica com a maior parte do tempo do Steven. Temos de trabalhar ao redor disso, da minha disponibilidade – e especialmente da do Martin e do Benedict. Já planejamos a quarta temporada e falamos sobre a quinta. Nosso objetivo é tentar não demorar muito. Inevitavelmente, acho que será daqui a dois anos de novo, como sempre tem sido o intervalo entre uma temporada e outra. Espero que seja antes, mas não me surpreenderia se fosse só em 2016 mesmo.

iG - Vocês já planejaram o fim da série?
Mark Gatiss - Não! Por que faríamos isso?

iG - Uma hora o material-base escrito pelo Arthur Conan Doyle vai acabar...
Mark Gatiss - Até agora fizemos nove episódios e pouquíssimos deles têm mais do que 15 minutos da história original. Tivemos "A Scandal in Bohemia", "(The Adventure of) Charles Augustus Milverton" e "(The Hound of the) Baskervilles", mas mesmo dentro dessas histórias há trechos que poderiam ser usados em outros momentos. Existe uma quantidade imensamente vasta de material do Conan Doyle para usarmos – e também de novas ideias e outras fontes. Usamos até uma história chamada "The Story of the Lost Special", que nem é do Sherlock Holmes, mas parece ser. Não acho que a fonte vá se esgotar.

iG - Você viu o crossover de "Sherlock" e "Doctor Who" feito por um fã e colocado no YouTube (veja abaixo)?
Mark Gatiss - É muito bom. E sou muito grato a quem fez, porque agora espero não ter mais de responder a pergunta estúpida sobre essa possibilidade. "Alguém já fez, é bem esperto." Minha resposta sempre – além de dizer que é algo bobo, afinal como poderia acontecer? – é: "E depois?". Porque acho que as pessoas têm mais prazer em fazer a pergunta do que em pensar na ideia. Seria decepcionante, não há como. O vídeo é muito bem feito, não? A Tardis aparecendo em Baker Street tem qualidade o suficiente para um programa de TV. É fantástico. Quem são essas pessoas? Já vi que alguém fez a abertura para a temporada do Peter Capaldi e ficou maravilhosa! Com que equipamento eles fazem aquilo? É impressionante. Como falamos no começo da conversa, se você é fã, acaba fazendo um trabalho inspirado em algo. Em todas as áreas: se eles têm a tecnologia para realizar, fazem. Serão os astros de amanhã, pode anotar.


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