Em cartaz como Cazuza, Emílio Dantas visita o berço boêmio do cantor no Rio

Por Nina Ramos , iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Na Pizzaria Guanabara, a convite do iG, ator fala sobre a responsabilidade do papel e brinca: "Se o Cazuza visse a peça acho que a gente não teria estreado até hoje"

Seu Campos custou a acreditar, mas acabou dando o braço a torcer. Ao ver Emílio Dantas sentado em uma das mesinhas da Pizzaria Guanabara, no Leblon, o garçom que por tantas madrugadas serviu Cazuza e sua turma duvidou que o ator estivesse falando a verdade sobre o musical que protagoniza desde outubro no Rio, “Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz”.

Quando botou fé, seu Campos desatou a contar histórias. Cada palavra virou anotação mental automática na cabeça de Emílio, que continua buscando aprimorar o personagem no palco. A temporada tem pausa para as festas do fim do ano, mas volta em janeiro e segue até março.

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O ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iGO ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iGO ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iGO ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iGO ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iGO ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iGO ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iGO ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iGO ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iGO ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iGO ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iGO ator Emílio Dantas, que interpreta Cazuza em musical, na Pizzaria Guanabara, no Rio. Foto: Ricardo Ramos/iG

“Todo mundo que vai assistir leva muita coisa. Todo e qualquer detalhe é crucial. No final do espetáculo, o elenco corre atrás para saber o que os amigos acharam, o que as pessoas que conheceram o Cazuza acharam. Por exemplo, outro dia uma prima dele foi e disse que estava faltando um detalhe que ele fazia com o braço quando cantava ‘Maior Abandonado’. Quanto mais verdade a gente colocar na história, melhor”, disse Emílio, que bebericou um café e uma água com gás durante a entrevista no icônico berço boêmio de Cazuza no Rio.

Emílio tem história na música, mas nunca pensou em ser ator. Teve banda, foi rebelde, adorava Ultraje a Rigor. E Cazuza? “Eu nunca tive um disco dele, nada. Eu era ignorante, era burro quando moleque, eu queria as coisas mais mastigadinhas. A poesia era uma coisa complicada de se entender, então eu pulava”, confessa.

O palco surgiu com Oswaldo Montenegro, seu “padrinho”. De lá para cá, se apaixonou por teatro e cinema, fez quatro trabalhos na Record, sendo o último a novela “Dona Xepa”, e virou gente grande para encarar o desafio de recriar um dos ídolos da MPB.

Divulgação
Cena de 'Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz'

“A responsabilidade eu sinto todo dia. Eu tenho que ir lá e contar essa história da melhor maneira que puder. Agora, o peso dessa responsabilidade eu senti muito durante os testes, porque não tinha autoestima suficiente para acreditar que faria bem esse trabalho. Para mim, isso era uma loucura do João (Fonseca, diretor)”, fala, com um sorriso fácil estampado no rosto.

A verdade é que Emílio recebeu a bênção de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, e tem encantado fãs e amigos, como o cantor Ney Matogrosso, que disparou depoimentos emocionados sobre a atuação do artista. E Campos, o garçom do início desta reportagem? Ele entrou para essa lista. Depois do papo que você lê abaixo, o garçom ganhou um par de ingressos de Emílio e ainda viu seu nome virar texto fixo no espetáculo. “Então, vamos tomar uma lá com o Campos na Guanabara”, falou o Cazuza de Emílio no palco.

Você não precisa estar na merda para querer mudar a merda. Não importa se você é rico ou pobre, o que importa é estar junto por uma boa causa.

iG: O Cazuza era um cara tão doce e tão explosivo ao mesmo tempo. Você concorda? Qual é a análise que você faz dele?
Emílio Dantas: Se ele fosse um cara pobre, morasse no morro e falasse tudo o que ele falou, estaria respaldado, digamos assim, por uma visão da sociedade. Ele foi muito pichado por falar tudo o que ele falou “sem motivo”. Como se fosse um rebelde sem causa. Não se respeitou muito o que ele falou, o que viveu, as atitudes dele, por causa do status social. Todo mundo tem seu gênio forte. Tinha gente muito mais louca do que o Cazuza e que não fez metade das coisas que ele fez.
Para mim, a letra de ‘Brasil’ é mais forte do que o hino brasileiro. Mesmo não estando nas condições sociais de quem poderia reclamar, ele enxerga. De certa forma, existe uma demagogia de que só quem é pobre tem o direito de reclamar das coisas. Não existe isso. Esse ano foi um ano decisivo, todo mundo foi para a rua. Daí as pessoas falam que todo mundo é classe média e não sei o que… Que quem fez o Ocupa Cabral é um bando de desocupado sem nada para fazer. O lance é que eles estão fazendo alguma coisa, estão falando, vendo… Você não precisa estar na merda para querer mudar a merda. Não importa se você é rico ou pobre, o que importa é estar junto por uma boa causa. Acho que o Cazuza era muitas vezes revoltado por ser doce demais em relação à nossa sociedade, e ser rechaçado justamente pela própria sociedade com quem ele era doce. É quase um amor incompreendido, sabe?

Ricardo Ramos/iG
O ator Emílio Dantas

iG: Você está em cartaz desde outubro, vai pausar para as festas de fim de ano e depois volta em janeiro. Dá para fazer um balanço? Você ainda sente o peso da responsabilidade do papel?
Emílio Dantas: A responsabilidade eu sinto todo dia. Eu tenho que ir lá e contar essa história da melhor maneira que puder. Agora, o peso dessa responsabilidade eu senti muito durante os testes, porque não tinha autoestima suficiente para acreditar que faria bem esse trabalho. Para mim, isso era uma loucura do João (Fonseca, diretor). Depois, quando a Lucinha entrou no jogo e deu o OK, eu senti o peso. Eu não sabia que ela estaria lá, tanto que eu não tinha decorado todos os textos, não tinha feito nada… Quando a Lucinha deu o OK, pensei: “Cara, ou o João é maluco, ou a Lucinha e o João são malucos, ou eu, a Lucinha e o João somos loucos”. O que me restou foi cair de cabeça.

Eu sempre soube do título dele de grande poeta da MPB, mas nunca entrei a fundo na obra. Eu nunca tive um disco, nada. Eu era ignorante, era burro quando moleque, eu queria as coisas mais mastigadinhas. A poesia era uma coisa complicada de se entender, então eu pulava.

iG: A sua voz é muito diferente da do Cazuza?
Emílio Dantas: É um pró e um contra ao mesmo tempo. Eu tenho um timbre de voz que é um tom abaixo da do Cazuza. Se eu jogar o timbre para cima (Emílio sobe o tom na frase nesse momento), e colocar a língua presa do ‘sucesso’... O tempo todo falando aqui, alto, daí fica igual (ele volta ao seu tom de voz normal). Já que eu não tenho porra nenhuma a ver com o Cazuza fisicamente, ganhei na voz. Mas é uma coisa que cansa muito. Invariavelmente, eu tenho dor de cabeça após todo espetáculo por conta do esforço, da pressão.

iG: O Cazuza era uma referência musical para você?
Emílio Dantas: Eu sempre soube do título dele de grande poeta da MPB, mas nunca entrei a fundo na obra. Eu nunca tive um disco, nada. Eu era ignorante, era burro quando moleque, eu queria as coisas mais mastigadinhas. A poesia era uma coisa complicada de se entender, então eu pulava. Daí, acabou que a fase de consumir o Cazuza passou. Eu peguei a galera debochada, como Léo Jaime, Ultraje a Rigor… E a parte poética, depressiva, foi para o lado da Legião Urbana, que foi quem segurou minhas insônias de 15 anos. Só agora, com a peça, que fui estudar Cazuza. E só agora eu tive cabeça para entender o que ele queria dizer.

iG: A Pizzaria Guanabara fez ou faz parte da sua vida como carioca?
Emílio Dantas: Eu sou criado na zona norte, no Grajaú. E na infância e adolescência, sem carro, não dava para cruzar a cidade. E outra, eu amo muito a zona norte, e ficava muito mais por lá mesmo. Então, não fazia parte da minha história. Só mais tarde, quando eu trabalhei com o Oswaldo Montenegro, a gente saía dos ensaios e vinha para cá. Daí sim, fez parte de determinado ponto da minha vida.

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Cena de 'Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz'

iG: O que você acha que o Cazuza sentiria ao ver essa movimentação política que tomou conta das ruas em 2013?
Emílio Dantas: Eu acho que ele estaria na linha de frente e se sentiria abraçado, de certa forma. Ele teria de esperar um tanto de tempo - de 1990 até agora -, até pelo caminho que o mercado fonográfico seguiu, como as coisas se desenrolaram, o que a sociedade virou depois disso. Hoje a música é trilha sonora e simplesmente isso. Ninguém mais para para escutar um CD inteiro ou comprar um álbum. A demanda de álbuns que você baixa no computador e a quantidade de música que você realmente escuta e aprecia é mínima. E é tudo por falta de tempo. A forma de consumir mudou. A gente se sente muito carente de músicas que realmente nos toquem, justamente hoje que temos acesso a todo tipo de música. Talvez esse consumo da música do Cazuza cairia, ele se sentiria triste com isso, mas quando a massa se reunisse na rua, ele se sentiria abraçado. Isso tudo é achismo, né? Ele estaria lá, a duas esquinas daqui (Emílio aponta para a direção do apartamento do governador Sérgio Cabral).

Eu fiquei com receio de assistir ao filme e pegar alguma coisa que tivesse sido criada pelo Daniel de Oliveira

iG: Você ficou com medo de alguma comparação com o trabalho do Daniel de Oliveira no cinema?
Emílio Dantas: Medo? Não… Eu fiquei com receio de assistir ao filme e pegar alguma coisa que tivesse sido criada pelo Daniel de Oliveira, que fosse uma interpretação do Daniel sobre algo do Cazuza. Por isso nem assisti ao filme.

iG: E você emagreceu para o espetáculo, não é?
Emílio Dantas: Sim, eu estava com 84kg e hoje estou com 77kg. Foi para achar o meio termo da história, já que vamos de ponta a ponta. Eu fui pelo meu peso do vídeo, que é 78kg. E o peso do vídeo já é, na vida real, mais magro. Então decidi perder mais um quilo.

iG: Você considera este o grande papel da sua carreira?
Emílio Dantas: Para mim, é muito difícil falar o que é o grande papel. Não é demagogia, mas em todos eu fui ao meu limite, me doei por inteiro e conquistei, mesmo que em papéis não tão significativos, experiências importantes para os papéis que vieram depois. Mas, claro, é o papel que realizou meu grande sonho de fazer um projeto biográfico.

iG: E ele também te dá uma plataforma imensa para projetar sua imagem como ator, certo?
Emílio Dantas: A repercussão da peça me dá a confiança de que estou fazendo meu trabalho da melhor forma possível. Agora, a projeção, é óbvio que é muito boa, mas não é uma coisa que fica na minha cabeça.

iG: Você está falando sobre fama?
Emílio Dantas: Sim. Fama, para mim… Eu tenho um certo problema. Eu não consigo ver fama para ninguém como uma coisa boa. A repercussão de um trabalho é muito boa, porque ela pode trazer novos trabalhos. E a gente está falando de trabalho. É a sobrevivência do ser humano. Tudo que pode te ajudar a gerar mais trabalho e uma qualidade de vida constante e melhor, é válida. Agora, a fama não te dá porra nenhuma. A fama te dá muito mais trabalho num péssimo sentido do que qualquer outra coisa. Ela tira muito de você. Eu chamaria a minha profissão de mais perfeita do mundo se não tivesse a fama. A gente nem precisa sofrer para ver o quanto é invasivo.

iG: Se o Cazuza estivesse aqui, o que você acha que ele pensaria sobre a peça?
Emílio Dantas:
Ele ia meter o bedelho em um monte de coisa. Se o Cazuza visse a peça, acho que a gente não teria estreado até hoje (risos). E com toda a razão. Ele era um cara vaidoso, isso era dito por ele mesmo.

iG: Você pegou muitas coisas dele para sua vida?
Emílio Dantas: Muitas… Às vezes eu deixo passar alguma coisa. Às vezes eu me pego com uma língua presa sem querer. E digamos que, de certa forma, eu ando meio extremo. Uma coisa que me revoltava um pouquinho, anda me revoltando um pouquinho mais do que o normal. Ou o momento de doçura é um pouco mais melado. Estou passeando por ali. De segunda a quarta às vezes o Cazuza dá um sinal de vida.

iG: A Lucinha ainda vai toda semana assistir ao espetáculo?
Emílio Dantas: Toda semana. Ela é incrível não só pelas coisas que já fez, que a gente não precisa nem dizer, mas também na postura dela. Às vezes me dá vontade de falar: ‘Lucinha, se deixe emocionar’. É um palpite meu, mas tenho a impressão que ela segura muitas coisas. Pessoas como ela tendem a ter força, a segurar a onda. E ela diz que agora mesmo é que não vai deixar de ir, porque a família dela está no palco (João, pai de Cazuza, morreu em novembro e é retratado na montagem).

Agradecimento: Pizzaria Guanabara

"Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz, O Musical"
Theatro NET Rio (r. Siqueira Campos, 143, Rio de Janeiro)
Classificação: 14 anos

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