Mudança de tom e contradições marcam participação do grupo no debate sobre biografias não autorizadas

Depois de levantar a bandeira contra a publicação de biografias não autorizadas e pôr fogo em uma discussão que se tornou nacional, o grupo Procure Saber, que reúne artistas como Roberto Carlos, Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso vê sua continuidade ameaçada, em meio à mudança de tom e contradições.

Saiba mais: Entenda a polêmica das biografias não autorizadas

Em coluna publicada no jornal "Folha de S. Paulo" neste sábado (2), a jornalista Mônica Bergamo afirmou que um racha entre os artistas justamente em relação às biografias deve pôr fim ao grupo.

A dúvida, segundo a colunista, é o momento em que o Procure Saber será encerrado, já que para participar das discussões sobre o tema que acontecem no fim do mês no Supremo Tribunal Federal (STF) é preciso que os artistas sejam representados por uma associação.

Veja o que personalidades disseram sobre a questão das biografias:

A última semana reforçou as contradições do Procure Saber, que em outubro entrou de cabeça na discussão sobre as biografias. O grupo se manifestou contra uma ação no STF e a um projeto de lei no Congresso que propõe uma alteração no artigo 20 do Código Civil.

Este artigo prevê que qualquer biografia – livro ou filme - só pode ser veiculado se tiver aval do biografado ou de seus herdeiros. Se o personagem ou sua família sentirem que um trabalho traz dano à honra, pode recorrer à Justiça e tirá-la de circulação.

Leia também: Como é a questão das biografias nos EUA
Livros: Em meio à polêmica, editoras mantêm biografias
Cinema: Necessidade de autorização também impacta e veta filmes

Um dos casos mais notórios de aplicação dessa lei aconteceu em 2007, quando Roberto Carlos conseguiu proibir a circulação da biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, escrita por Paulo Cesar Araújo. A editora Planeta, que chegou a lançar o livro, teve de recolher toda a tiragem das livrarias.

Com as tentativas de mudança na lei, o Procure Saber, presidido pela empresária Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano, passou a defender seus pontos de vista em artigos e entrevistas.

Caetano, Chico, Gil, Djavan e Marília Pêra foram alguns dos que publicaram artigos em jornais, com os dois últimos inclusive sugerindo o pagamento de royalties aos biografados.

Na TV: Paula Lavigne faz “Saia-Justa” pegar fogo no GNT

Lavigne também teve uma polêmica participação no programa "Saia-Justa" , do GNT, ao fazer menção à homossexualidade de uma das apresentadoras, Barbara Gancia, para argumentar contra a invasão de privacidade de pessoas públicas. Depois da exibição do "Saia-Justa", o Procure Saber negou ou ignorou todos os pedidos do iG por entrevistas e participação nos programas da casa.

Sofá. Maria Ribeiro, Barbara Gancia, Mônica Martelli e Astrid Fontenelle receberam Paula Lavigne
Divulgação / GNT
Sofá. Maria Ribeiro, Barbara Gancia, Mônica Martelli e Astrid Fontenelle receberam Paula Lavigne

Na última semana, o grupo pareceu adotar tom mais brando. Em entrevista ao programa "Fantástico", da Rede Globo, Roberto Carlos se mostrou flexível quanto à publicação das biografias não autorizadas - justamente ele, que proibiu o livro de Araújo em 2007.

Leia: Roberto Carlos fala sobre biografias e diz que escreverá a sua

"Tem que se conversar e chegar a um equilíbrio. Sou a favor [da mudança na lei], mas desde que não se prejudique o biografado nem o biógrafo", afirmou, negando mudança de posição. "O que não pode é ferir a liberdade de expressão e o direito à privacidade. Juristas precisam estabelecer regras." 

O cantor anunciou ainda que ele próprio está escrevendo sua autobiografia para contar "tudo o que eu acho que tem sentido" abordar. "Ninguém poderá dizer melhor do que eu o que senti e o que passei. Isso só eu sei", afirmou.

Na terça-feira (29), o Procure Saber deu mais um passo na direção contrária do que pregara no início, publicando um vídeo no qual Gilberto Gil, Roberto Carlos e Erasmo dizem que continuam defendendo seu direito à intimidade, mas que "querem afastar toda e qualquer hipótese de censura prévia".

Veja o vídeo publicado pelo Procure Saber:

"Não negamos que essa vontade de evitar a exposição da intimidade, da nossa dor ou da dor dos que nos são caros, em dado momento nos tenha levado a assumir posição mais radical", diz Roberto.

Gil completa: "Mas a reflexão sobre os direitos coletivos e a necessidade de preservá-los, nao só o direito à intimidade e à privacidade mas também o direito à informacao, nos leva a considerar que deve haver um ponto de equilíbro entre eles."

Os artistas ainda afirmam que confiam na capacidade do Poder Judiciário de encontrar esse equilíbrio e dizem ter sido sua intenção criar um grande debate sobre o tema. "O debate nos faz bem, nos amadurece, nos faz mais humanos, mais humildes", diz Gil.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.