Maestro Fischer compõe ópera inspirada em perseguição a judeus húngaros

Por Reuters |

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Trabalho é baseado na chocante história do "libelo de sangue", que disseminou o antissemitismo

Reuters

Getty Images
O maestro Ivan Fischer

A história chocante do "libelo de sangue", uma calúnia cometida no século 19 contra judeus húngaros acusados de assassinar uma menina cristã para extrair o seu sangue, é o tema da primeira ópera do maestro Ivan Fischer, com estreia marcada para o fim de semana em Budapeste.

A horrível história, apresentada em um só ato na música "A Novilha Vermelha", de Fischer, é baseada em um incidente na aldeia húngara de Tiszaeszlar, onde judeus foram acusados de matar Eszter Solymosi, de 14 anos, em 1883, para retirar seu sangue com a finalidade de fazer pão ázimo para a Páscoa judaica -- um tipo de calúnia disseminada na publicação notoriamente antissemita "Os Protocolos do Sião".

Cerca de 15 judeus foram julgados e absolvidos do crime, mas o caso desencadeou forte onda de antissemitismo na época.

Fischer, que é judeu, disse que o caso continua a ter repercussões até hoje, pois o túmulo de Eszter se tornou um local de peregrinação para os húngaros da extrema-direita.

"Tal como no século 19 , a Hungria é novamente um campo de batalha entre as pessoas esclarecidas que gostariam de se unir ao mundo ocidental, especialmente na Europa, e os fundamentalistas nacionalistas que se sentem ameaçados e criam bodes expiatórios ", disse Fischer à Reuters em resposta a perguntas enviadas por email.

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Nas notas de programa para a estreia domingo em Budapeste, Fischer afirma ter pensado em escrever na década de 1980 uma ópera baseada no romance Tiszaeszlar, depois de ter sido inspirado por um filme, mas o cineasta com quem ele tinha pretendia trabalhar faleceu.

"Estive pensando incessantemente em compor esta ópera nos últimos 25 anos", disse Fischer. "O fato de o Caso Tiszaeszlar ter-se tornado nos dias de hoje um assunto quente na política finalmente me ajudou."

Veja abaixo entrevista com Fischer sobre a ópera e outros trabalhos, influências musicais e a produção musical da Hungria:

Pergunta: Você disse há algum tempo que não tinha tempo para compor. Então, como você conseguiu isto e, afinal, o que leva um maestro a querer compor?

Ivan Fischer: A fim de encontrar tempo eu parei a maioria das regências como convidado e agora só trabalho com três ou quatro orquestras com as quais estou mais familiarizado.

Sobre a questão de "por que compor, não está regendo o suficiente?", eu tenho a dizer que há maestros ambiciosos que gostam de conduzir uma orquestra de 100 elementos e todo o glamour ligado a isso. Mas há outro tipo de maestro que não se importa muito com o glamour, o poder, mas se preocupa com música e expressão musical .... É a diferença entre traduzir ou escrever um livro.

P: Já que nunca ouvimos antes musica composta por Ivan Fischer , quem e quais são suas influências musicais?

IF: Eu componho com uma técnica de colagem, o que significa que diferentes estilos são ouvidos em estreita coexistência. Isto não é novo: foi Gustav Mahler quem começou quando combinava o que apareceu em sua mente e sua mente estava cheia de todos os tipos de música. Ele foi acusado de fazer uma mistura eclética . Talvez esse seja o destino da maioria dos maestros-compositores, porque eles passam a maior parte do tempo com a música dos outros, de vários estilos. Cheguei à conclusão de que a mistura eclética é a minha linguagem e, além disso , é a linguagem de todos. Estamos todos cercados por uma mistura que inclui Monteverdi , Schubert , os Beatles e heavy metal.

P: Por que você acha que a Hungria produz um número tão grande de maestros, compositores e músicos de estatura verdadeiramente internacional, algo desproporcional à sua população de 10 milhões de habitantes?

IF: A Hungria é um movimentado entroncamento e foi ocupada com freqüência. Passou pelos turcos, os austríacos e os russos, o que aqui é geralmente visto como uma tragédia, mas teve vantagens musicais maravilhosas. Além disso, teve a presença de muitos judeus, ciganos Roma -- um tesouro de inspiração musical. A Hungria tem um folclore rico, como outros países do Leste Europeu. A diferença é que aqui isso foi elevado e absorvido por uma comunidade de alto nível intelectual em Budapeste, incluindo grandes personalidades como Bartok, Kodaly, Weiner, Ligeti e muitos outros.

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