Divórcio: Escritor encontra diário-bomba da mulher e descobre que ela o despreza

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Categorizado como "autoficção", novo romance de Ricardo Lísias conta como o autor conheceu de fato a jornalista com quem estava casado havia quatro meses

Reprodução
Capa de "Divórcio", romance de Ricardo Lísias

Para encurtar a história: um escritor encontra em casa o diário de sua mulher, onde ela revela o que de verdade pensa dele: um homem que não viveu, inexperiente, desinteressante, entediante, nada apaixonante, sem graça. "Patético", "autista", "esquisito" e "apenas um menino bobo" são alguns dos adjetivos que ela usa para defini-lo.

Ao mesmo tempo, vê o contraste do que ela pensa de si mesma: bela, sedutora, bem-sucedida, bem vestida, bem educada, experiente, viajada, desejada. "Sou a melhor jornalista de cultura do Brasil", ela repete, em diversos trechos do diário.

O casamento acaba ali, e ele tem de lidar com a vontade de morrer, de sumir, de se recompor. Se fosse uma obra de ficção, essa seria uma grande ideia para um romance. Não sendo, é uma tragédia pessoal para os dois envolvidos. Ele foi atropelado pelo desprezo que não desconfiava que a mulher tinha dele. Ela foi exposta a ponto de ver trechos inteiros do seu diário, com seus pensamentos mais íntimos e pessoais, as verdades que ela não tem coragem "de contar nem para o terapeuta", transpostos para o livro.

O livro intercala trechos do diário, com letras em itálico, e o texto em que o autor conta suas reações à descoberta, a sensação de morte, de se sentir como um "cadáver sem pele", até reaprender a respirar e começar a treinar corrida, como forma de substituir a dor física por força muscular.

No primeiro trecho extraído do diário a jornalista relata a lua de mel em Nova York, em julho de 2011. "...Ricardo é legal. Ele é uma boa companhia: é engraçado e de vez em quando inteligente... Mas a viagem está servindo para me mostrar que apesar disso eu casei com o cara certo para mim. Só que apaixonada eu não estou."

Fernanda Fiamoncini
Ricardo Lísias, em foto da orelha do livro

Enquanto isso o escritor está vagando pela cidade de São Paulo, já depois de ter lido o diário, de ter saído da casa em que vivia com a ex-mulher, de ter ido dividir o espaço de seu "cafofo" exclusivamente com os seus livros, tentando se lembrar do que aconteceu nos dias que sucederam a descoberta.

29 de julho: casei com um homem que não sabe dirigir e nunca se preocupou em comprar um apartamento. Por que me casei com um homem que não fez uma poupança? Fui eu que paguei o restaurante da Torre Eiffel e também o Alain Ducasse. Eu posso dizer que isso é casamento? O Ricardo não percebe a diferença desses lugares para qualquer restaurante de esquina e se comporta do mesmo jeito. Acho que ele sempre vai ser o simplório que é. 

Casei com um homem que não viveu. O Ricardo fica trancado dentro de um quarto lendo a vida toda. Acho que ele sempre vai ser o simplório que é."

A tentação a que é difícil resistir é ler apenas os trechos em itálico e imaginar o resto: como seria descobrir em um diário o que a pessoa que você ama pensa realmente de você? Como seria ouvir sem filtros uma sessão de terapia do ser amado?

Não há nomes no livro. As pessoas mencionadas são chamadas de "X". Ela, de "ex-mulher", "transtornada", "mesquinha", "torpe", "mentirosa" e "gente pobre que vai a restaurante de rico". 

No final, há uma carta dele para ela. "Suma da minha vida", ele pede. "O que eu sentia por você se encerrou quando li o seu diário. Você o largou aberto no meu caminho." Aparentemente, depois da separação ela tenta se comunicar com ele, justificar de alguma forma a sua atitude, e claramente embargar a publicação do livro com pressão dos amigos, da classe jornalística, e com menção a um possível apoio jurídico.

O livro está nas livrarias. Lançado pela editora Alfaguara, tem 237 páginas e custa R$ 39,90 na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. 










 


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