A era da futilidade máxima

Por Paulo Ghiraldelli , iG Rio de Janeiro |

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Filósofo discute desafio de Sofia Coppola em fazer "The Bling Ring - A Gangue de Hollywood": "Não é fácil fazer um filme com a história daqueles que sequer podem contar uma história porque nunca tiveram uma e, terminado o filme, continuarão não tendo

James Dean e John Travolta fizeram personagens que invocaram a rebeldia juvenil de suas épocas. Carros velozes colocando em risco a vida. Bebida. Sexo como uma forma de usar o corpo e o corpo como alguma coisa que tinha que aparecer. Mulheres que queriam se emancipar mas que confirmavam o domínio masculino. Dança. Música com nome de “som”. Moralismo babaca por debaixo de uma diluída promessa de “novos tempos”. Dean veio na ressaca da reconstrução do pós-guerra. Travolta ergueu o pescoço na ressaca da repressão ao Maio de 68. Nos dois casos: tipos que não representavam jovens querendo mudar o mundo, mas jovens simplesmente exercendo uma rebeldia menor. Certamente “rebeldes sem causa”.

Emma Watson aparece mais sensual em "The Bling Ring", que deve estrear em junho. Foto: ReproduçãoO longa mostra história real de adolescentes que saqueavam casas de celebridades. Foto: DivulgaçãoBling Ring. Foto: DivulgaçãoBling Ring. Foto: DivulgaçãoBling Ring. Foto: DivulgaçãoBling Ring. Foto: DivulgaçãoBling ring. Foto: DivulgaçãoBling Ring. Foto: Divulgação

Também agora estamos vivendo um certo tipo de ressaca. A invasão do Iraque, a entrada no Afeganistão, a solução-Obama e o Occupy parecem acontecimentos que não aconteceram, ao menos para uma parte dos jovens americanos. São os muitos jovens, ou melhor dizendo, os muito jovens cabeças-de-vento. Esse tipo de jovem sempre existiu, mas em épocas de ressaca social, ele tende a despontar, a se fazer notar. Então, a literatura e o cinema o agarra como personagem.

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Dean e Travolta fizeram personagens vazios em um mundo ainda cheio – cheio mesmo, repleto até à boca do anúncio de que “todos os valores iriam perder valor”, mas, enfim, cheios de alguma coisa. A ressaca de agora não é a que mostra indivíduos vazios somente, mas é a de histórias vazias. Histórias sem enredo. Então, como fazer um filme em que nada acontece? Eis aí o desafio enfrentado pela ainda moça Sofia Coppola.

Divulgação
Sofia Coppola no set de 'The Bling Ring - A Gangue de Hollywood'

Sou capaz de apostar que Coppola decidiu fazer The Bling Ring com alguma coisa parecida com isso na cabeça: “não é possível fazer um filme sobre o nada, no entanto, como em nossa época não fazer um filme sobre o nada?”. É um filme sobre o nada, mesmo. É a película de uma história que sem enredo, a única possível quando se vive uma era de pós-história. Uma única frase, a que pode servir de sinopse da obra, conta todo o enredo! Talvez por isso mesmo tenhamos que elogiar Coppola. Não é fácil fazer um filme com a história daqueles que sequer podem contar uma história porque nunca tiveram uma e, terminado o filme, continuarão não tendo.

O filme mostra garotos de classe média que frequentam uma escola especial para desajustados “light”, de classe média. Eles entram em casas de artistas de Hollywood, roubando roupas, sapatos, joias e algum dinheiro. O objetivo é usar as roupas nas baladas e, principalmente, se mostrar no facebook. Tudo isso regado por um montão de cocaína. Só. Acabou o filme. Não tem morte, não tem perigo, não tem sequer uma perseguição policial e nem mesmo um diálogo tenso.

Tem Emma Watson agora sexy. Ou melhor, quase isso: ela dançando põe a linguinha para fora, mostrando-se para ninguém – e uma vez só. Não há homem desejando mulher alguma no filme, nem vice versa. O filme tem pose sexy de adolescentes, mas não tem sexo. Nem o homossexual pensa em sexo! Quanto mais sexy os personagens podem se apresentar, mais assexuados eles se mostram. Os personagens não fazem sexo porque nem mesmo o corpo é alguma coisa que pode ser objetificado, o que é necessário para que ao menos o sexo, o puro sexo, ocorra.

Eles, os personagens, estão além da reificação e do fetichismo. A reificação é quando as pessoas se tornam coisas e o fetichismo é quando as coisas se comportam como sujeitos. Trata-se da velha inversão inventada por Marx para filosofar em cima do capitalismo. Ou seja, uma vez que o dinheiro, o que é abstrato, substitui todas as relações, tudo pode se mostrar apenas como é a mercadoria em seu aparecimento mais abstrato, no seu lugar apropriado para isso, o mercado. Ela, a mercadoria se mostra sem valor de uso, apenas com valor de troca. Algo que equivale ao dinheiro que por sua vez equivale a outro tanto de dinheiro.

Nesse contexto, também o homem é posto no mercado que tudo equaliza, senão ele próprio, ao menos sua força de trabalho, que uma vez mensurada em horas e em dinheiro ganha também sua forma abstrata e indiferente à troca. Nessa prática tudo fica igual e, desse modo, entra no campo da troca contínua. O objeto pode trocar de lugar com o sujeito, o que é vivo pode ser tomado como o que é o morto, o que é o homem pode ser coisa e o que é a coisa pode se portar como o homem.

Levado ao extremo isso, como ocorre em uma situação para além da moderna, que é a do filme, os objetos perdem inclusive suas funções, ficando apenas como marcas – uma forma radical da mercadoria abstrata. Nessa situação limite o que se tem nem é mais o fetiche da mercadoria, mas o fetiche do rótulo da mercadoria – a grife. E nem as pessoas podem se mostrar como objetos tradicionais, o que ocorreria na reificação corriqueira. Posso estar nu, contanto que os rótulos das roupas, sapatos e joias estejam pendurados no meu corpo que, enfim, não é nem mais um objeto como o cabide de roupas, mas apenas um local para se pregar os rótulos das marcas. Um local virtual, o da foto no facebook.

Os personagens, esses pastiches de cabides, obviamente não pensam, perderam completamente essa função cerebral. Não, não são completamente burros. Alguns se mostram até articulados. Mas, efetivamente não pensam porque o pensamento não tem razão de ser em um mundo em que o importante é que a cada balada ninguém converse com ninguém porque todos precisam posar no facebook. Posar para quem? Para sabe-se lá quem! Alguém! Alguém que fique do lado de lá telinha. Afinal de contas, as “curtidas” aumentam e isso mostra que há alguém lá gostando da sua pose.

Trata-se de posar com uma roupa que exiba uma etiqueta diferente. O glamour é o facebook e, de certo modo, poder vestir o que é de uma celebridade – “na boa!”. Ah, então para que a cocaína? Não, não é para sexo ou coragem ou estripulia. É para que tudo não volte ao tédio que é entrar em uma casa e pegar marcas e depois entrar noutra para trocar de marcas e assim por diante. Nenhum dos personagens fica “loucão” com a cocaína! O amortecimento é tanto que eles não podem mais serem sensibilizados pela droga ou por qualquer outra coisa. Para a maioria deles não há nenhuma adrenalina no roubo.

Junto disso, dessa situação completamente chata, repetitiva, o filme precisa encontrar um meio de ser de fato um filme. Então, transporta para quem o assiste a música das baladas, e isso em todos os contextos. Associa a tal coisa a beleza da câmera lenta. São técnicas que podem fazer quem pagou para ver um filme ter de fato algum filme para ver. É necessário, enfim, se manter assistindo o que é bom – o filme é bom! Mas não podemos nos enganar, é de fato o nada o que se apresenta ali.

Ao final, então, surgem as punições aos garotos. Deles todos, a personagem de Watson é a única que parece mostrar um saldo positivo: tendo ficado presa junto com uma celebridade (que havia sido roubada por ela), ao cumprir a pena ganha uma entrevista na TV e anuncia seu site. Ela é a personagem que tinha uma “educadora” em casa, pronta para lhe ensinar jargões emulativos.

Enquanto os artistas roubados poderiam, talvez, pertencer à Cientologia, aquela classe média ali presente em torno deles se mostra adepta da versão pobre desse tipo de “religião”. Um “coach” de auto-ajuda segurando o livro O segredo nas mãos dá lições à personagem de Watson. Religiões sem Deus ou santos ou pastores, apenas com performances verbais fúteis. Nessa prática, repete-se palavras para que no dia seguinte essas palavras possam ser repetidas novamente para que no outro dia isso ocorra mais uma vez e assim por diante.

O mesmo acontece com a vida dos garotos. Entram em uma casa de uma celebridade para no outro dia fazer isso novamente e assim por diante. Os garotos do filme se apresentam, então, como uma caricatura esmaecida do homem moderno – o homem moderno de Peter Sloterdijk, aquele que pratica a repetição de modo a fazer melhor amanhã o que fez hoje.

Digo caricatura, porque se o homem moderno é caracterizado pela prática da repetição de modo a fazer melhor amanhã o que fez hoje, a performance dos garotos, por sua vez, não os coloca em uma prática de repetição com algum conteúdo que os faça melhorar em desempenho. A repetição ocorre e pronto. Ou seja, a prática de repetição teria algum objetivo se os jovens ainda existissem como pessoas.

Uma vez completamente vazios, a performance que executam é tola desde o início e continua o tempo todo tola. Eles não melhoram a prática do roubo à medida que roubam mais e mais! Pastiches de cabides são inaptos para qualquer tipo de aprendizado ou treinamento. Por isso mesmo eles se denunciam no facebook como os que estão roubando os artistas famosos!

Claro, se denunciam porque tudo neles é tolo, mas também porque precisam se ver a todo momento com o produto do roubo, as etiquetas. Precisam mostrar o resultado da performance para si mesmos, pois correm o risco de poderem não acreditar que estão vivos e fazendo alguma coisa. A cada “curtida” que alguém do lado de lá da telinha lança, eles recebem o único sinal de vida que ainda podem ter.

PS: Ao final do filme, o narrador, que é um dos jovens, e que narra muito pouco uma vez que é um narrador vazio, raso, não termina a história. Ele simplesmente vai para a prisão, com poucas expressões, e se cala. Ele desaparece. Na pós-história ninguém tem um narrativa. Ninguém pode contar uma história quando não há história, nem mesmo o narrador.

Paulo Ghiraldelli, 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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