Com Eva Wilma, "Azul Resplendor" discute sucesso e fracasso das peças de teatro

Por Susan Souza , iG São Paulo | - Atualizada às

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Texto do peruano Eduardo Adrianzén ganha montagem brasileira; leia entrevistas

Divulgação/João Caldas
Eva Wilma em "Azul Resplandor"

“O que significam o sucesso e o fracasso? O teatro é um pano de fundo, um ambiente para falar desse tema, porque é um lugar onde o ego fica muito visível", diz o dramaturgo peruano Eduardo Adrianzén, autor da peça "Azul Resplendor", em entrevista ao iG. A peça está em cartaz em São Paulo, no teatro Renaissance.

No elenco, nomes experientes nas artes cênicas brasileiras como Eva Wilma, que vive a protagonista Blanca Estela, uma atriz reclusa que desistiu de atuar no auge da carreira. Pedro Paulo Rangel interpreta Tito Tápia, um ator medíocre que revela, com algumas décadas de atraso, sua paixão por Blanca. Tito ainda faz um convite inusitado: presenteia a amada com um espetáculo que a faz retornar aos palcos.

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Divulgação/João Caldas
Cenas da peça "Azul Resplandor"

Blanca aceita o presente, por razões que são reveladas ao final da peça, e Tito contrata Antônio Balaguer, diretor de teatro que é famoso por suas montagens tidas como de vanguarda. Com o elenco escolhido, as peças - ficcional e real - desenrolam-se simultaneamente em diálogos cínicos sobre o comportamento e as expectativas de pessoas famosas e aspirantes.

Dalton Vigh faz o diretor ególatra Antônio Balaguer, Luciana Borghi é Glória Campos, assistente dele, Luciana Brites é Luciana Castro, uma atriz em ascensão, e Felipe Guerra é Giancarlo Varoni, um ex-modelo que segue a carreira de ator após ser revelado em um reality show.

A direção é de Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas, que fizeram pesquisas em 15 países da cena ibero-americana até se decidirem pela montagem de "Azul Resplendor".

"Alguns amigos diretores levaram (o texto) um pouco a mal, mas não há ressentimentos. Eu explicava que a obra falava de uma percepção de fracasso ou de sucesso, e não que era um ataque a alguém", explica o autor do texto sobre os poucos que se ofenderam com a acidez das palavras.

"Eu não acho que esse texto seja um 'tapa na cara' (de jovens atores e profissionais do teatro), ao contrário. Aliás, isso não se restringe só ao teatro, abrange também outras profissões", analisa Eva Wilma, 79, ao iG. A atriz celebra em 2013 seus 60 anos de carreira.

Cenas da peça "Azul Resplandor". Foto: Divulgação/João CaldasCenas da peça "Azul Resplandor". Foto: Divulgação/João CaldasCenas da peça "Azul Resplandor". Foto: Divulgação/João CaldasCenas da peça "Azul Resplandor". Foto: Divulgação/João CaldasCenas da peça "Azul Resplandor". Foto: Divulgação/João CaldasCenas da peça "Azul Resplandor". Foto: Divulgação/João CaldasCenas da peça "Azul Resplandor". Foto: Divulgação/João Caldas

Em um dos momentos reflexivos do texto, Blanca indaga se sua "reaparição como atriz" não seria uma "ressurreição". A plateia ri, talvez pela forma descontraída com que Eva fala mas, nas entrelinhas, o texto aponta para a possibilidade de nunca mais atingir relevância pública e a expectativa, baixa ou alta, que se tem quanto a isso.

"O texto mostra um lado que todo mundo conhece, sabe que existe, mas não tem coragem para expor. Vivemos em uma sociedade onde todos querem ser celebridades, todos almejam seus 15 minutos de fama", diz Felipe Guerra, que interpreta o ator e ex-modelo Giancarlo. "Todos pensam que ele é burro, mas sua inteligência está em administrar a beleza e a carreira".

Leia abaixo a entrevista com o dramaturgo peruano Eduardo Adrianzén:

iG: Você teria tornado o texto da peça tão crítico por ser um observador de teatro?
Eduardo Adrianzén: Para mim, o tema de “Azul Resplendor” é mais como: "O que significam o sucesso e o fracasso?” O teatro é um pano de fundo, um ambiente para falar desse tema, porque é um lugar onde o ego fica muito visível. Não é que haja mais ego, mas ele só se torna mais notável, mais transparente. (O texto) é crítico, sim, mas eu trabalho com críticas sempre. Exercê-la é uma característica do meu trabalho.

iG: Os personagens tiveram inspiração em situações reais?
Eduardo Adrianzén: Um pouco sim, mas de forma exagerada. Conheço atrizes e atores semelhantes, um ou outro diretor parecido com o Balaguer. Mas, na verdade, os personagens são uma mescla de muitos. Que eu saiba, no Peru nenhum autor teve o texto de sua montagem totalmente alterado, felizmente!

iG: Você gostou da montagem brasileira? Quais são as principais diferenças em relação à peruana?
Eduardo Adrianzén: Gostei muito. A montagem do Renato e do Elcio trouxe um ritmo fantástico. A montagem peruana foi linda também, mas de outra forma. Foi mais melancólica, mais dramática. Na montagem brasileira tem muito mais de comédia, o que me parece genial.

iG: Na peça, há um personagem que vira ator depois de participar de um reality show e outro em que a atriz é assediada pelo diretor. Você acha que a qualidade técnica dos atores estaria em segundo plano?
Eduardo Adrianzén: No Peru há um tipo diferente de problema, que começa porque não há uma indústria e não se tem apoio do governo, exceto no município de Lima, onde há fomentos e ajudas. Faltam profissionais em algumas áreas, é verdade, mas há muitos atores. E muitos, mesmo sendo bons, não têm trabalho enquanto um país racista como o Peru disser que a beleza tem de ser branca, ou aquilo que os peruanos acreditam que seja o “branco”. Isso ajuda (o ator branco) a ter trabalho em teatros que pagam melhor, é um fato. Um ator negro ou índio terá muito mais trabalho para entrar nesses círculos, por mais talento que tenha. Pode entrar, mas levará muito mais tempo que aqueles que não o são.

iG: Algum colega se ofendeu com as palavras ferozes do texto?
Eduardo Adrianzén: Um pouquinho. Alguns amigos diretores levaram um pouco a mal, mas passou rápido, não há ressentimentos. Eu explicava a eles que a obra falava de uma percepção de fracasso ou de sucesso, e não era um ataque a alguém. Ainda que alguns tenham acreditado que era um ataque.

iG: Há algum tipo de lição para atores, produtores, escritores ou diretores principiantes?
Eduardo Adrianzén: Não, mas acredito que pode ser divertido que alguns atores jovens, belos e talentosos saibam que os mais velhos percebem o que os mais jovens pensam de fato. Principalmente aqueles que se importam com televisão e fama mais do que com o teatro.

iG: Eva Wilma contou ao iG que você já conhecia o trabalho dela. Foi um pedido seu que ela fizesse a peça?
Eduardo Adrianzén: A Eva Wilma é uma grande atriz, a conheço pela TV desde que as novelas brasileiras chegaram ao Peru, aproximadamente nos anos 1980. É um presente que ela esteja na peça, nunca imaginei tanta sorte. Mas eu não pedi nada, confiei o texto ao Renato e ao Elcio, que escolheram os atores. Pedro Paulo Rangel e Dalton Vigh eu também conhecia por seus trabalhos na TV. Essa montagem em São Paulo é uma das melhores coisas que aconteceram na minha carreira e sou muito grato por isso.

"Azul Resplendor"
Teatro Renaissance (al. Santos, 2.233, São Paulo)
De 18/7 a 6/10
Horário: sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 18h.
Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia)
Classificação: 12 anos

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