Companhia Shen Wei Dance Arts abriu o Festival Boticário na Dança com uma releitura de "Sagração da Primavera", marco do balé contemporâneo criado em 1913

A companhia de dança Shen Wei Dance Arts estreou em solos brasileiros na quarta-feira (1) e mostrou que, cem anos após a criação do estilo, as coreografias contemporâneas ainda provocam - e confundem - a plateia.

Para os 800 lugares do Auditório do Ibirapuera (São Paulo) ocupados, 15 bailarinos internacionais apresentaram uma releitura da coreografia "Sagração da Primavera", balé musical criado por Igor Stravinsky e Vaslav Nijinsky e estrelado na França em 29 de maio de 1913.

Estudiosos definem este espetáculo como a certidão de nascimento da dança moderna do planeta e, segundo os registros, foi recebido por uma volumosa vaia da plateia francesa. Com hiato de um século entre a original e a versão de Shen (renomado coreógrafo chinês que assinou a abertura das Olimpíadas de Pequim), a “Sagração” de 2013 também despertou reações contraditórias no público.

O público do Ibirapuera mesclou desconforto, dúvida e contemplação. Gritos, aplausos, assobios, impaciência recepcionaram a companhia que visita o País pela primeira vez, convidada pela curadoria do festival Boticário na Dança (veja programação abaixo). Isso porque a “Sagração” de Shen começa com um vazio. As cortinas são abertas, as luzes acesas e oito minutos de silêncio e nenhum movimento marcam a abertura do espetáculo. Só então a música e os movimentos - incialmente contidos - começam. Foi um festival de tosses, burburinhos e um sobressalto unânime sem saber se o “nada” era parte da dança ou uma falha técnica. Surgiu até um coro tímido de "começa, começa".

História

A “Sagração” inaugural trouxe pela primeira vez bailarinos que se jogavam no chão, se contorciam, tinham movimentos de força e não mais flutuavam em sapatilhas de ponta como era a tradição até então. O enredo tradicional conta a história de uma jovem que é sacrificada pelo povoado em troca de boas colheitas primaveris. Todas as dezenas de companhias que visitaram este marco da dança contemporânea no último século se aproximaram da versão original de maneiras diferentes.

Pina Bausch, por exemplo, discutiu o medo e a morte em cena e o sacrifício do ser feminino. Já Shen, que fez a sua coreografia em 2001 e rodou o mundo com ela. chegando agora ao Brasil (estreia na América Latina), usou bailarinos em figurinos andróginos que percorreram o palco sempre em diagonal. Os movimentos leves, limpos e tão perfeitamente executados pelo corpo de baile tornam possível enxergar a contração e o relaxamento dos músculos de cada um dos dançarinos. A respiração ofegante também pareceu compor a trilha sonora. As coreografias são isoladas e os integrantes quase não interagem um com outro.

Segunda parte

shen e seus bailarinos quase siameses
Divulgação
shen e seus bailarinos quase siameses

Além da "Sagração", o espetáculo da Shen Wei também dançou o espetáculo "Folding". Nesta parte, os mesmos bailarinos de "Sagração" dançam em duplas, como se fossem siameses, e também em trios, quartetos, formando figuras durante a trilha.

A música lenta, pausada, remete aos rituais budistas, segundo o autor. E o público, em uma espécie de meditação coletiva, relaxa (é verdade que a reportagem contou seis espectadores dormindo) e assiste à coreografia feita em câmera lenta, em uma concentração exigida tanto por parte dos bailarinos quanto de quem assiste. O palco é transformado em um cenário dançante e a dança se divide como se fossem quadros diferentes de uma galeria.

Festival

A curadora do Festival Boticário na Dança, Sheyla Costa, afirmou que uma das justificativas para trazer Shen para as atrações da turnê é o fato de ele ser duplo: bailarino/artista plástico. “O cenário é um componente de suas coreografias. Nós pensamos na dança como parte das manifestações artísticas, e não uma forma segregada. A ideia foi trazer gente que trabalha com este conceito de mistura, sem barreiras.”

O “mix” atraiu mesmo o público. Além do grupo do coreógrafo chinês, outras seis companhias de dança vão dançar em São Paulo até 6 de maio, com ingressos já esgotados. O festival também passa pelo Rio de Janeiro e por Curitiba - nessas cidades, ainda é possível conseguir lugares.

A professora de piano Mirian Berton foi surpreendida com a concorrência para ver as companhias. “Justo a dança, que sempre foi a prima pobre das artes", afirmou. “Cheguei aqui no Ibirapuera às 10h30, achando que poderia escolher o lugar na plateia como fiz tantas vezes. Não só não tinha ingresso para o Shen hoje (ontem) como não tinha mais nada ao longo da semana, tudo esgotado”, disse surpresa ela que, às 21h, ainda esperava alguma desistência.

Deu sorte. Três pagantes faltaram e Mirian viu de perto a versão contemporânea da primeira dança moderna do mundo.

Veja a programação:

São Paulo – Auditório do Ibirapuera (ingressos esgotados)

2 de maio: Shen Wei

Dia 3 de maio: Hofesh Shechter

Dia 4 de maio: Peeping Tom

Dia 5 de maio: Maribor Ballet

Dia 6 de maio: Grupo de Rua e Quasar

Informações:

4003-2330 (capitais e regiões metropolitanas)

041-11-4003-2330 (demais regiões)

Rio de Janeiro – Theatro Municipal

Dia 4 de maio: Shen Wei

Dia 5 de maio: Hofesh Shechter

Dia 6 de maio: Peeping Tom

Dia 7 de maio: Mimulus e Maribor Ballet

Dia 8 de maio: Grupo de Rua e Quasar

Informações

4003-2330 (capitais e regiões metropolitanas)

041-11-4003-2330 (demais regiões)

Curitiba- Teatro Guaíra

Dia 7 de maio: Shen Wei Dance Arts

Dia 8 de maio: Peeping Tom

Dia 9 de maio: Maribor Ballet

Informações:

41-3304-7900 ou 3304-7999

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