Clarice Falcão: "O mundo do humor é machista"

Por Luisa Girão , iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Em entrevista ao iG, atriz do coletivo Porta dos Fundos fala sobre o sucesso do grupo e se lança na música com o disco “Monomania”; veja videoclipe de "Oitavo Andar"

Clarice Falcão é dona de uma personalidade inquieta. Aos 23 anos, já atuou e foi roteirista de programas da TV Globo, ganhou o primeiro lugar no concurso mundial de curtas-metragens realizado pelo Google, faz parte do elenco fixo do canal de humor Porta dos Fundos e, agora, se aventura na música lançando o seu primeiro CD, "Monomania", pelo iTunes - estará disponível a partir do dia 30 de abril.

“Sou, principalmente, muito cara de pau. Faço o que der na telha. É que nem gente que salta de asa delta. Quando já não dá mais frio na barriga, ela parte para o paraquedas. Sou assim com arte. Fico querendo esse nervosinho”, diz ela, em entrevista ao iG.

A humorista Clarice Falcão. Foto: Isabela KassowA humorista Clarice Falcão. Foto: Isabela KassowA humorista Clarice Falcão. Foto: Isabela KassowA humorista Clarice Falcão. Foto: Isabela KassowA humorista Clarice Falcão. Foto: Isabela KassowA humorista Clarice Falcão. Foto: Isabela KassowA humorista Clarice Falcão. Foto: Isabela KassowA humorista Clarice Falcão. Foto: Isabela KassowA humorista Clarice Falcão. Foto: Isabela KassowA humorista Clarice Falcão. Foto: Isabela Kassow

Com tantos adjetivos e profissões – atriz, roteirista, artista da internet, cantora e compositora –, Clarice é classificada como uma artista multimídia. “Ninguém gosta de ser rotulado, mas sempre é. Seria muito mais legal se as pessoas lidassem com arte analisando o produto, independentemente do que veio antes ou depois. Mas entendo que é impossível. As pessoas têm necessidade de classificar. Lembro nas aulas de biologia a quantidade de classe, número, gênero e grau que tinha de estudar. Não é só na arte que isso acontece.”

Clarice é filha da roteirista Adriana Falcão e do cineasta João Falcão, mas, segundo ela, a pressão por ter pais artistas tem ficado, cada vez mais, em segundo plano. Hoje, diz que as pessoas já enxergam a carreira dela. “Sempre duvidam de você até provar que faz um trabalho respeitável. Quando se tem pais famosos, isso é maior ainda. Para fazer 'A Favorita', fiz vários testes e acabei entrando na novela. Mas claro que as pessoas diziam que estava lá por causa do meu pai. E olha que nesta época ele nem estava na Globo."

Porta dos Fundos

Clarice não se considera engraçada. Na verdade, ela não gosta de pessoas que tentam fazer piadas escrachadas o tempo todo. Mas considera o humor uma grande forma de levar a vida. “Tento ser uma pessoa que não vive em função da graça”, diz ela, que faz humor naturalmente. “Nasci em uma família em que, se você não brincasse ou entrasse na onda, era engolido.”

Isabela Kassow
A humorista Clarice Falcão

Atualmente, Clarice é uma das estrelas do grupo Porta dos Fundos, canal de sucesso absoluto na internet. Já são mais de 205 milhões de visualizações dos mais de 80 vídeos da trupe. O sucesso instantâneo do grupo mudou sua vida. “É legal ser parado na rua por um produto da internet que foi feito com pouco dinheiro e de forma independente. A pessoa se sentem íntima, porque você está no computador dela. É até mais próximo do que a TV”, compara.

O sucesso é tanto que o grupo está sendo assediado pelo cinema e pela TV. “Está rolando mesmo a ideia de fazermos um filme. Mas não se sabe como, quando ou onde. Já a TV é mais complicada. É mais uma questão de a TV não querer o Porta dos Fundos. ‘Ah, vocês não podem falar de sexo, de política, de religião ou marca’. Então vocês não querem a gente. Enquanto for assim, não vamos sair de um lugar que temos toda a liberdade e onde estamos começando a ganhar dinheiro para fazer algo igual ao que já estava sendo feito."

Vaidade x Humor

Para Clarice, "o mundo é machista". Principalmente o do humor. “Recebi muito comentário no YouTube dizendo que eu era muito feia. Eles estavam me criticando, pois não consegui ser bem-sucedida no meu trabalho de ser bonita (risos). Não tenho a mínima obrigação disso. Então, que pena para eles. É um pensamento que a mulher tem obrigação de ser atraente, legal, delicada. Isso me incomoda. Temos muitas mulheres engraçadas por aí, apesar dessa pressão.”

Clarice acha que a vaidade feminina e o humor são vias opostas. “Para você se colocar numa posição ridícula, tem de abdicar da sua vaidade. Nos vídeos do Porta dos Fundos, evito me olhar no espelho ou ficar preocupada se o cabelo está bom. Gosto de me arrumar, sou vaidosa, mas não neste momento. Quando estou fazendo comédia penso justamente o contrário. Não tenho medo de ser ridícula ou me expor . E acho que o humor é uma forma de charme”, afirma.

Mesmo com os comentários críticos, Clarice se tornou uma espécie de "musa geek" e tem muitos admiradores. Ela namora há três anos o também ator e escritor Gregório Duvivier. O casal acumula diversos projetos juntos, entre peças, programas de TV e textos. “Adoro trabalhar em família e com gente que eu tenha intimidade de falar besteira. Quando trabalhei com quem não tinha essa liberdade, me senti amarrada e com medo. Para criar é muito bom ter alguém do seu lado que te entenda, que te complete."

Disco "Monomania"

Estreando na carreira de compositora, a fã de Chico Buarque e de Kate Nash escreve sobre amor, mas de uma maneira humorada. “'Monomania' tem um eu lírico definido. É o ponto de vista do apaixonado, que fica bobo, engraçado e até ridículo. O que é isso que deixa as pessoas tão malucas? Sempre me interessei por esse sentimento, que modifica muito as pessoas. Pelo menos, me transforma.”

Na música “Oitavo Andar”, por exemplo, ela brinca com a questão de amar tanto que cometeria assassinato: "Era bem o tempo de você chegar no T, olhar no espelho o seu cabelo, falar com o seu Zé/ E me ver caindo em cima de você como uma bigorna cai em cima de um cartoon qualquer/E aí, só nos dois no chão frio/De conchinha bem no meio fio/ No asfalto riscados de giz/ Imagina que cena feliz".

“Acho importante falar de amor, que é um tema exaurido, de forma diferente. Queria fugir dos clichês, da mesmice. É muito fácil ser piegas falando do amor”, afirma ela, que tem seu álbum “Monomania” em terceiro lugar na pré-venda do iTunes e se prepara para subir pela primeira vez no palco em quatro apresentações no Rio de Janeiro, com os convites todos esgotados. “Estou morrendo de medo, mas sinto que estou pronta. Está na hora.”

Veja abaixo o videoclipe da música "Oitavo Andar"


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