Fotógrafo traz ao Brasil imagens de Andy Warhol caracterizado como mulher

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Christopher Makos recebe exposição no MAM-SP, relembra trabalho com ícone da pop art e fala sobre Marco Feliciano: 'Vocês deviam demiti-lo'

Foram 32 anos até que as fotos de Andy Warhol caracterizado como mulher, feitas em 1981, chegassem ao Brasil. Mas o autor das imagens, o norte-americano Christopher Makos, não poderia estar mais feliz com o "timing" da exposição "Lady Warhol", em cartaz no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo.

Em meio às discussões sobre os direitos homossexuais e os protestos contra o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, Marco Feliciano, ele espera que as imagens do ícone da pop art usando maquiagem e perucas possam ser uma lembrança sobre a importância da liberdade. "É um ótimo momento para estar aqui", afirmou o fotógrafo de 65 anos, em entrevista ao iG.

Imagem da exposição 'Lady Warhol'. Foto: DivulgaçãoImagem da exposição 'Lady Warhol'. Foto: DivulgaçãoImagem da exposição 'Lady Warhol'. Foto: DivulgaçãoImagem da exposição 'Lady Warhol'. Foto: DivulgaçãoImagem da exposição 'Lady Warhol'. Foto: DivulgaçãoImagem da exposição 'Lady Warhol'. Foto: DivulgaçãoImagem da exposição 'Lady Warhol'. Foto: DivulgaçãoImagem da exposição 'Lady Warhol'. Foto: DivulgaçãoImagem da exposição 'Lady Warhol'. Foto: DivulgaçãoImagem da exposição 'Lady Warhol'. Foto: Divulgação

Em cartaz até 23 de junho, a mostra exibe 50 fotos de Warhol marcadas por uma dubiedade de gêneros: apesar das perucas e da maquiagem, em geral o artista não usa figurino feminino, mas, sim, as roupas de sempre - camisa branca, calça e gravata. "Por isso a série é intitulada 'Imagem Alterada'", explica Markos.

O encontro entre os dois artistas aconteceu no início dos anos 1970, cerca de dez anos antes de as fotos serem feitas. Foi Makos quem introduziu Warhol à "fotografia séria". "Ele brincava com imagens, usava fotos de jornal em seus trabalho. Mas eu lhe aconselhei sobre qual câmera comprar, lhe contei alguns segredos", relembrou.

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Por sua vez, Makos deve a Warhol seu conhecimento sobre como encarar a arte como negócio. “Muitos artistas pensam que podem apenas ser artistas e que o dinheiro tomará conta de si mesmo. Não é assim que funciona. Você precisa prestar muita atenção em como vender seu trabalho", disse. "Andy me ensinou isso melhor do que ninguém."

Provando que de fato aprendeu a lição, Makos pediu à reportagem do iG que o ajudasse a encontrar um comprador para "Andy Dandy Four", trabalho feito em conjunto com o também fotógrafo norte-americano Paul Solberg, com quem há nove anos estabeleceu uma parceria sob o nome de Hilton Brothers. 

O quadro, à venda por US$ 25 mil (cerca de R$ 49,7 mil), reúne uma das fotos de Andy Warhol que integram o projeto "Imagem Alterada" e uma das enormes flores fotografadas por Solberg para o livro "Blossom". Insatisfeitos com o tratamento dado à obra por uma galeria paulistana nos últimos dois anos, os artistas agora guardam "Andy Dandy" em uma sala do hotel Tivoli, em São Paulo. "Queremos encontrar uma casa para ele aqui na cidade", disse Makos (interessados devem entrar em contato pelo site www.makostudio.com)

Divulgação
"Andy Dandy Four", obra de Christopher Makos e Paul Solberg, que formam o Hilton Brothers

Na entrevista a seguir, Makos conta como foi a sessão de fotosm com Warhol no badalado estúdio "The Factory", comenta o impacto das novas tecnologias na fotografia e se junta ao coro de críticas a Feliciano:  Vocês gastaram muito tempo e dinheiro para mostrar ao resto do mundo como são um País legal. Esse cara é bobo de chegar e jogar água no fogo de excitação em que vocês estão."

iG: Como foi seu primeiro encontro com Andy Warhol?
Christopher Makos:
Eu era muito jovem, nem me lembro quantos anos tinha. Quando cheguei a Nova York, conheci muitos artistas - escritores, pintores, etc - e um deles me levou a uma retrospectiva sobre Andy Warhol no museu Whitney, onde o conheci. Naquele momento não fiquei nada impressionado. Tinha acabado de me mudar de Los Angeles e gostava de fazer coisas ao ar livre, andar de bicicleta, enquanto Andy e toda a sua equipe gostavam de frequentar casas noturnas. Aquilo não me interessava. Ele me convidou para visitar seu estúdio, mas eu não fui. Sei que parece brincadeira, mas eu não ligava para Andy Warhol. Acho que nunca fui fã de ninguém, só de mim mesmo. 

iG: E como vocês começaram a trabalhar juntos?
Makos: Minha primeira mostra em Nova York chamava "Step on it" ("pise nisso", em tradução livre), na qual coloquei minhas fotos no chão, cobertas por um vidro, para que as pessoas pisassem nelas. Não havia nada nas paredes, o que forçava o visitante a olhar para baixo. Liguei para Andy e o convidei para a inauguração, porque achava que era algo moderno e pop. Ele não foi, mas mandou Bob Colacello, que na época era editor da "Interview" (revista criada por Warhol). Bob gostou e me convidou para conhecer The Factory e colaborar com a revista. Dessa vez eu fui, e aí realmente conheci Andy.

Iara Venanzi
Com Paul Solberg, Christopher Makos forma o Hilton Brothers

iG: Como surgiu a ideia da série "Imagem alterada"?
Makos: Sempre gostei da arte de colaborar e Andy e eu buscávamos um trabalho para fazermos juntos. Queríamos algo histórico e nos lembramos de "Rrose Selavy", uma série de fotos que Man Ray fez de Marchel Duchamp usando peruca, chapéu e uma roupa que parecia feminina. Andy e eu decidimos que ele não usaria roupas de mulher, que seria apenas cabelo e maquiagem. Por isso o título "Imagem Alterada". As fotos de Man Ray são mais escuras, taciturnas. Mas Andy era tão branco que as fotos acabaram ficando pretas e brancas - ou até brancas e pretas, eu diria. Não foi uma decisão consciente, mas ele era tão branco na pele, no cabelo...era a pessoa mais branca que já conheci.

iG: Como foi a sessão de fotos?
Makos: Foram dois ou três dias, cerca de 365 poses diferentes e cinco perucas. Não tinha muita gente além de nós, apenas o responsável por cabelo e maquiagem, porque gosto de me concentrar quando estou trabalhando. Mas foi muito divertido. Fizemos as fotos no The Factory, onde sempre tinha movimento. Andy era pintor, cineasta, editor, então a vida era muito rica ali. Era gostoso estar por perto.

iG: Ele teve alguma inspiração para posar, alguma estrela de Hollywood, por exemplo?
Makos: Nunca discutimos isso, mas ele tinha muitas clientes, ricas colecionadoras, que, às vezes, consigo ver em suas poses.

iG: Essa exposição chega ao Brasil no momento em que há um forte debate sobre os direitos homossexuais...
Makos: Sim, estou muito feliz de estas fotos estarem aqui no momento certo. Sei que vocês estão discutindo a questão do casamento homossexual e que há um vice-presidente ou algo assim, um político que é contra...como ele chama?

iG: Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara.
Makos: Exatamente, o que torna ainda mais inacreditável o fato de ele ser contra o casamento gay. Todo mundo deve poder casar ou fazer o que quiser, com quem quiser, desde que não machuque os outros. Vocês deviam simplesmente demiti-lo. Alguém deveria demiti-lo, pois está no caminho errado. Estou feliz de estar aqui no momento certo porque é uma questão de viver e deixar viver. Se é isso que você quer fazer, faça - ainda mais em um lugar como o Brasil. Vocês fizeram a liberdade ser sua marca. Se uma brasileira não quer usar a parte de cima do biquíni na praia, ela pode tirar e ser ela mesma. Ela é livre para ser ela mesma. Deveria ser assim para todos, em qualquer lugar. Esse cara é prejudicial para o perfil do Brasil. Vocês gastaram muito tempo e dinheiro para mostrar ao resto do mundo como são um País legal.

iG: Acredita que esse contexto mostra que as fotos, mesmo tiradas em 1981, continuam relevantes?
Makos: As pessoas amam estas fotos. E eu nem sei o motivo: é só um cara usando peruca. Quando olho para estas fotos de Andy, penso apenas em como nos divertimos trabalhando juntos. Aqueles que viram a Nova York dos anos 1970 e 1980 observam as fotos de Andy e se lembram de um momento de liberdade muito especial. Naquela época ninguém falava de transgêneros ou casamento homossexual. Aliás, o próprio Andy foi um dos primeiros a ajudar a colocar isso em discussão, usando drag queens em seus filmes, por exemplo. Fico feliz quando minhas fotos lembram as pessoas dessas explosão de liberdade. Talvez essas imagens, colocadas nas paredes de um museu no Brasil, façam isso. Tomara que esse político vá até o museu e as fotos digam a ele: "Oi, isso aqui está acontecendo e você precisa acordar."

iG: No momento em que estavam trabalhando, vocês pensaram no impacto que as imagens causariam?
Makos: Eu estava apenas tentando tirar fotos bonitas. Simples assim. Ontem estava assistindo um brasileiro cozinhar na TV, e ele usava cebola, alho e azeite - os ingredientes mais importantes para pratos gostosos. O principal ingrediente da fotografia é manter a simplicidade, não pensar demais. Eu não estava pensando no impacto que as imagens teriam no mundo. Não tenho controle sob o que acontece depois. Você cria o prato que gosta e espera que outras pessoas também gostem, mas só saberá ao certo depois de elas provarem. Esse meu prato em particular as pessoas vêm provando há mais de 20 anos e sempre gostam.

Divulgação
A pedido do iG, Christopher Makos faz autoretrato com câmera de smartphone

iG: Qual o principal aprendizado de seu trabalho com Warhol?
Makos: Sem dúvida minha maior lição foi sobre a arte como negócio. Andy me ensinou a cuidar dos meus negócios, algo muito difícil de fazer e que hoje não há onde aprender. Muitos artistas pensam que podem apenas ser artistas e que o dinheiro tomará conta de si mesmo. Não é assim que funciona. Você precisa prestar muita atenção em como vender seu trabalho, em como cuidar do dinheiro. É algo complicado que Andy me ensinou como ninguém.

iG: Você também conheceu Man Ray. Como foi essa experiência?
Makos: Passei dois dias com Man Ray e aprendi muita coisa. A mais importante: confiar em meus instintos. Muitas vezes a primeira foto que gosto é, de fato, a melhor, a que deve ser exibida. Também aprendi que é preciso mostrar uma mesma imagens várias vezes para que ela se torne famosa. Jovens fotógrafos e artistas querem sempre mostrar coisas novas, mas desse jeito ninguém se lembra de nada, porque as pessoas têm dificuldade de atenção. Isso se aplica ainda mais nos dias de hoje, com Twitter e Facebook.

iG: Você considera a explosão das mídias sociais e dos smartphones excitante ou prejudicial à fotografia?
Makos: Acho que há as duas coisas. As pessoas inteligentes estão ficando mais cientes do que veem, apreciando melhor as imagens. Outras estão ficando ainda mais anestesiadas, apenas fotografando tudo sem de fato estar ali. Mas não tenho medo desse tipo de tecnologia porque tiro fotos de verdade. O chip desses pequenos aparelhos é muito pequeno e a qualidade continua ruim, por mais que sejam 9 milhões de pixels. Mas são bons para guardarmos lembranças.

iG: Como acha que Warhol veria este mundo tão conectado de hoje?
Makos: Com certeza amaria. Foi ele quem disse que todo mundo seria famoso por 15 minutos e, adivinhe só, todo mundo realmente é famoso por 15 minutos. As pessoas publicam suas próprias fotos, postam seus próprios vídeos e criam sua própria fama.

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