"A Propósito de Senhorita Júlia" estreia neste sábado (20) em SP; montagem brasileira mostra conflitos entre classes no dia em que Lula foi eleito presidente, em 2002

A peça "A Propósito de Senhorita Júlia", montagem brasileira baseada na obra mais famosa do autor sueco August Strindberg (‘Senhorita Julia’, de 1888), continua atual. Pelo menos é o que os atores pretendem mostrar. Os conflitos entre os personagens são temperados com elementos tipicamente humanos - existentes em qualquer época e lugar - como a paixão, sedução, ódio, inveja e o próprio dilema interno.

“A Júlia foi criada para ser masculina, para enfrentar, para não amar. Mas tem um lado dela que quer amar, ser feminina e se entregar. São personagens que se fazem na tensão dos opostos. Strindberg é um 'Big Brother' sueco”, define a atriz Alessandra Negrini, que interpreta a rica protagonista. Também estão no elenco Eucir de Souza, no papel do motorista Moacir, e Dani Ornellas, como a cozinheira Cleide. A direção é de Walter Lima Jr.

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Em cartaz a partir deste sábado (20) no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, o texto original teve seu contexto atualizado para o Brasil de 2002 - no dia em que Luís Inácio Lula da Silva ganhou a eleição presidencial. “O desenho do Moacir é quase inteiro o que a gente viu [com o ex-presidente Lula]. Ele começa sem nada, vai crescendo e consegue a patroa. Quando isso acontece, a gente vê que não é como ele imaginava”, reflete Eucir. “Eu, como esquerdista que fui, passei por esse processo de acreditar muito em uma coisa e, quando chegou, vi que não era exatamente como imaginava.”

Fase ‘pré-mensalão’

Em nenhum momento, defende o elenco, a peça fala sobre o escândalo do mensalão , que envolveu o PT, partido de Lula. “Se você vai montar um clássico, você não tem lado. Você vai apresentar a discussão, senão fica simplista. É uma chance de discutir o poder em várias instâncias”, disse Alessandra Negrini, que na peça interpreta a filha de um deputado. “Colocar um deputado no texto traz mais chances de discutir essa questão”, completou Eucir.

Grande parte da tensão do enredo foca no conflito de sedução e repúdio entre ela e o motorista da casa, que também é namorado da cozinheira. “Ela é uma funcionária evangélica muito séria, mas isso não quer dizer que ela não seja amante do motorista. Ela fuma, bebe, dorme com o namorado, mas, se precisar, em nome de Jesus, ela vai contra tudo pelos valores dela”, explica Dani Ornellas sobre Cleide.

Tudo acontece na cozinha

É dentro da cozinha desenhada por Strindberg, único cenário montado na peça, que acontecem os conflitos cotidianos que levam o público ao riso nervoso e, algumas vezes, constrangido. O texto cru e voraz do autor promete incomodar e entreter. “Quando comecei a ensaiar, falei: ‘Strindberg nunca mais, de novo não!’. Tive que passar pelas mesmas questões, mergulhar e vir à tona”, explicou Alessandra, que atuou em "Os Credores", texto também de Strindberg, e destacou a dificuldade de interpretar o autor sueco pela "densidade emocional" dos personagens.

No ambiente intimista da cozinha, revelam-se os jogos de sedução e repúdio, que confundem a plateia com a intenção de trazer a reflexão pela identificação com o “jogo”, defendem os atores. “A humilhação não é sutil, é um tentando destruir o outro, mas precisando loucamente dele”, explicou Alessandra. “A gente nunca sabe se aquilo é amor ou ódio”, disse Eucir, que exemplificou a dualidade dos sentimentos com uma frase do personagem Moacir: “Tenho um sentimento por ela [Julia] que eu não sei se é amor ou inveja”. Segundo ele, “é uma frase que você encontra o tempo todo no texto” e mostra os contrastes dos relacionamentos.

Strindberg a R$ 6

Em temporada no CCBB, "A Propósito de Senhorita Julia" pode ser vista a preços populares no centro de São Paulo. Ainda que seja um texto sueco do século 19, não se trata de um trabalho “cabeça”, disse Alessandra, destacando as vantagens de estar em uma peça a preços acessíveis. “Tomara que as pessoas venham e possam ver um teatro que não é ‘comedião’, nada contra o ‘comedião’, mas ver uma peça nesse nível de Strindberg e com que possam se identificar”.

"A propósito de Senhorita Júlia"
CCBB (r. Álvares Penteado, 112)
Em cartaz de 20/4 a 30/6
Ingressos: Ingresso: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia)
Temporada: em abril, sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h. Em maio e junho, sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 18h.
Vendas de ingressos na bilheteria do CCBB e pelo site Ingresso Rápido

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