Para dramaturgo chileno, teatro é 'campo de guerra'

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Guillermo Calderón estreia versão em inglês de "Neva" em Nova York; peça é ambientada em uma Rússia à beira da revolução

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"Neva" pode se passar em uma Rússia à beira da revolução, mas o dramaturgo chileno Guillermo Calderón ainda a chama de "minha peça americana" porque "ela nasceu aqui".

Quando era estudante de pós-graduação em Cinema na Universidade da Cidade de Nova York, uma década atrás, ele passeava pelas livrarias de Manhattan, onde encontrou "Lendo Tchekhov", de Janet Malcolm, que estimulou o seu interesse pela cultura e política russa e o levou a conhecer "A tragédia de um povo, a Revolução Russa de 1891-1924", de Orlando Figes.

"Estou encantado com a ideia de escrever a partir da história – com a ideia de abrir um livro de história e dentro dele haver uma obra teatral", disse Calderón durante um intervalo nos ensaios de "Neva", que estreou sua versão em língua inglesa no dia 11 de março no Public Theater de Nova York.

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Guillermo Calderón, autor e diretor de "Neva"

Na peça, que Calderón também está dirigindo, a viúva de Tchekhov, a atriz Olga Knipper, e dois personagens ficcionais, também atores, se conhecem em um domingo em janeiro de 1905 para fazer ensaios em São Petersburgo enquanto o ato de abertura da Revolução Russa está acontecendo do lado de fora.

Com a polícia do czar atirando nos manifestantes, Knipper (Bianca Amato) parece distante da realidade, focando na noite de estreia e aperfeiçoando seu monólogo "O Jardim das Cerejeiras". Em contrapartida, Aleko (Luke Robertson) é um típico tchekhoviano, um idealista como o Dr. Astrov de "Tio Vânia", enquanto Masha (Quincy Tyler Bernstine) é mais instigante do que sua homônima em "Três Irmãs".

A questão central da peça, de acordo com Calderón, é esta: "Qual é o sentido de ver uma obra teatral, quando, por causa da política, pessoas morrem todos os dias?".

Apesar de a peça se passar na Rússia, essas questões também derivam da experiência pessoal de Calderón. Ele nasceu na capital chilena, Santiago, em 1971, no auge do governo da Unidade Popular de esquerda de Salvador Allende, e cresceu sob a ditadura do general Augusto Pinochet. O tio de Calderón foi morto pela polícia de segurança de Pinochet, deixando para sempre "uma ferida aberta na família", contou ele.

"Cresci com isso, e com algo que coloquei também em meus outros trabalhos, que é a vida doméstica, a vida entre quatro paredes, em um contexto de violência", disse ele. "Imagine estar comendo em casa enquanto o noticiário divulga todas as coisas horríveis que aconteceram, e ouvir tiros, ter a eletricidade cortada, todas essas coisas." Esse contraste entre "o mundo exterior e o mundo doméstico" é "algo que eu queria fazer aqui – entre quatro paredes, mas ouvindo os tiros".

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Calderón não pretendia ser nem dramaturgo nem diretor. Ele começou atuando na televisão e no teatro, incluindo um papel em uma montagem de sucesso de "Mala Onda" ("Vibrações ruins"), de Alberto Fuguet, e ainda ensina o ofício a universitários em Santiago. Mas ele decidiu que "queria algo diferente" e escreveu "Neva", nome do rio que atravessa o coração de São Petersburgo, "para preencher um vazio que sentia".

Ele também se tornou roteirista, tendo escrito "Violeta Se Fue a los Cielos" ("Violeta foi para o céu"), um filme biográfico sobre a cantora e compositora chilena Violeta Parra, que foi inscrito pelo Chile para concorrer na categoria de melhor filme em língua estrangeira no Oscar ano passado. Ele chega aos cinemas em 29 de março. "Tenho duas estreias em Nova York em um mês", disse ele, alegre. "Uma peça e um filme".

Com cabelo bem curto, olhar penetrante e traços rudes, Calderón, de certa distância, parece ser um guerreiro das ruas. De perto, essa impressão desaparece rapidamente.

"Ele é muito gentil", disse Bernstine. "Às vezes não sei nem mesmo se ele está no recinto. Ele sabe o que quer, mas ele passa orientações de uma forma muito suave, muito polida."

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Bianca Amato, Luke Robertson e Quinzy Tyler Bernstine, que estão em "Neva"

Depois de ganhar prêmios no Chile em 2007, a versão original em espanhol de "Neva" foi apresentada em lugares como Colômbia, França, Los Angeles e até mesmo o Festival Tchekhov, em Moscou, recebendo críticas entusiasmadas e proporcionando financiamentos e residências para que Calderón trabalhasse em outras peças.

Desde "Neva", ele encenou outras cinco peças, entre elas "Diciembre" ("Dezembro"), uma meditação sobre a guerra que tem como cenário os Andes em um futuro próximo, que foi parte do Festival Under the Radar do Public Theater, realizado em 2011. Em geral, ele escreve pensando em elencos pouco numerosos, pensando em uma cenografia bastante simples. "Clase" ("Classe"), por exemplo, é uma peça de dois personagens – um professor, um aluno – cujo cenário é uma sala de aula vazia em um país que enfrenta turbulências políticas.

"Guillermo é uma voz muito particular e especial, e ele se arriscou ainda mais nas peças seguintes", disse Mark Russell, diretor artístico e produtor do Under the Radar. "Ele faz escolhas muito simples, dá textos realmente substanciais aos atores, tem um sentido poético e monólogos e conflitos fortes. No entanto, também tem gestos teatrais simples que levam o teatro regular até outro patamar."

Ainda assim, Calderón teve sentimentos contraditórios quanto ao sucesso mundial de "Neva", preocupando-se com a possibilidade de ele se tornar um mero "objet d'art formal, cooptado". Ele se lembra de ter visto dois dos ex-ministros do gabinete de Pinochet, "gente que é a personificação do mal", assistindo à peça em Santiago e indo embora de bom humor, "certamente indo tomar uma bebida em algum lugar". Isso o obrigou a reavaliar sua abordagem e reforçou a sua convicção de que "o teatro é um campo de guerra".

"Tenho que radicalizar ainda mais o meu trabalho", lembra ele de ter pensado naquela época. "Esse pode ser um caminho que me leva a um beco sem saída, porque chega um momento em que eu não posso ser mais radical. Mas isso era algo que me inspirava, e com o passar dos anos eu me tornei mais abertamente político."

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