Centro para arte alternativa em Paris corre o risco de fechar

Por NYT |

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Antes uma fábrica abandonada, La Miroiterie funciona há 14 anos como ponto de encontro de artistas; agora, está na mira de construtora

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Moradias ilegais em Paris costumam ter vida curta. Após um ano, talvez dois, elas são fechadas ou transformadas em centros de arte com o apoio do governo socialista da cidade. Mas isso não aconteceu com o La Miroiterie, que se transformou em um centro para artistas de renome nos últimos 14 anos.

No entanto, seus dias parecem estar contados, à medida que uma construtora ameaça fechá-la. Seus moradores disseram que a única coisa que poderia salvá-la – fazer com que a prefeitura assumisse sua administração, como já fez com outras - teria acabado com ela qualquer maneira.

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The Tsunamis se apresentam na La Miroiterie, em Paris

Em 1999, um artista que assina seu trabalho como KTU Michel foi um dos primeiros a montar um estúdio em La Miroiterie, uma fábrica de espelhos abandonada no morro de Ménilmontant, um bairro de imigrantes do Arrondissement 20, no nordeste de Paris.

"Eu precisava de um espaço para trabalhar", disse ele em seu antigo estúdio no local. Agora com 46 anos, um pintor para o teatro, ele se identifica com os parisienses do século 19 e não tem problema nenhum em invadir um local que ele sente que é propriedade do povo: neste caso, instalações vazias.

Vazia, mas que pertence a alguém. Uma empresa imobiliária, SARL Thorel, passou quatro anos comprando várias partes do complexo de diferentes proprietários e agora está envolvida para o procedimento legal para assumir o controle do prédio, embora seus planos para o local não tenham ficado claros.

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Ao longo dos anos, muitos artistas viveram e trabalharam em casas abandonadas e contribuíram para a criação de sua identidade. La Miroiterie prestou serviços gratuitos para o bairro: uma loja de roupas foi aberta, aulas de capoeira foram dadas a crianças (uma disciplina brasileira que combina artes marciais e dança), refeições gratuitas foram distribuídas, exposições foram organizadas regularmente, e a porta enferrujada coberta por grafite do complexo em ruínas esteve sempre aberta.

Ao longo do tempo, os moradores organizaram shows e começaram a atrair um público diferente: os parisienses à procura de uma cena underground. La Miroiterie hoje é bem conhecida pelo seu entretenimento - shows de punk, jazz e rap, que acontecem diferentes dias por semana, por não mais do que 10 euros ou às vezes até mesmo grátis, dependendo da programação. Os Stooges tocaram lá, junto com muitos músicos de jazz dos Estados Unidos, incluindo David Murray e Oliver Lake.

"Não há outro local como este em Paris, para este tipo de música", disse KTU, que disse que milhares de bandas já tocaram em La Miroiterie ao longo dos anos.

Em sua importância cultural, La Miroiterie tornou-se emblemática de um squart (combinação da palavra inglesa “squat” e “art”) parisiense, e seu destino tornou-se um assunto para os meios de comunicação.

Quando descobriram em 2009 que Thorel estava planejando expulsá-los do local, os Miroitiers, como eles se chamam, entraram com uma ação judicial. Mas depois de quatro anos e muitas audiências judiciais, parece que o destino de La Miroiterie está selado. O complexo parece poder ser esvaziado de seus últimos moradores até o final do mês, pois despejos durante o inverno são proibidos na França.

A prefeitura e os Miroitiers discutiram maneiras de preservar La Miroiterie, mas não deu em nada. Devido ao fato de que a prefeitura não é dona do edifício, ela não pode evitar despejo dos artistas. Mas as autoridades se ofereceram para realocá-los para vários espaços diferentes de propriedade da prefeitura. O esforço fracassou, em parte porque os Miroitiers estavam mal organizados, mas também porque eles se recusaram a fazer certas exceções.

"A Prefeitura sempre respeitou e admirou o que foi feito em La Miroiterie, mas nunca os apoiaram" financeiramente "pois nunca quis que o projeto fosse institucionalizado", disse um porta-voz do conselho, que disse que não estava autorizado a dar seu nome.

Pedestre aguarda em frente ao La Miroiterie. Foto: NYTArtista conhecido como Michel Ktu foi um dos primeiros a criar estúdio na Miroiterie. Foto: NYTAnne-Sophie Devos, artista que vive há 5 anos no local. Foto: NYTA entrada do Miroiterie em Paris. Foto: NYT

Desde sua eleição, em 2001, o prefeito socialista da cidade, Bertrand Delanoe, tem apoiado as artes. A prefeitura impediu o desaparecimento de várias squarts através da compra dos edifícios nos quais se localizavam. Um exemplo é o 59, um edifício de seis andares perto do Louvre.

O 59 foi invadido, e em 1999, o proprietário rapidamente ameaçou os moradores de despejo. Mas como o lugar foi gradualmente ganhando uma reputação como um importante centro artístico, a prefeitura decidiu comprá-lo em 2005, e os artistas foram capazes de permanecer no local.

Mas muitas coisas mudaram. Artistas hoje precisam pagar uma renda modesta, utilitários e seguros, eles não podem mais viver ou vender seu trabalho no prédio, e a prefeitura exerce uma certa influência na escolha dos artistas.

Slimane Hamadache, um artista que trabalhou no 59 desde 2002, apoiou o acordo. "O que perdemos foi necessário", disse ele.

O que importa, segundo ele, é que o espaço ainda existe e é um sucesso - mais de 60 mil pessoas visitam a cada ano. "Ainda somos os mesmos", disse ele. "Não iremos mudar."

Hamadache disse que foi um "erro juvenil" que os Miroitiers recusaram-se a chegar a um compromisso semelhante, mas KTU não concorda. Ele está convencido de que o Conselho da Prefeitura, além de divulgar a si mesmo, está promovendo um certo tipo de cultura oficial.

"Eles destroem tudo, estes tolos", disse ele. "Eles simplesmente não entendem o que estamos tentando fazer."

Swan Moteurs, um Miroitier que organizou os shows de rap, concorda que o envolvimento oficial teria acabado com La Miroiterie. "Se você plantar uma semente nele, não é mais um ecossistema", disse ele.

Para outros, é inteiramente apropriado que um ecossistema artístico seja efêmero. Benjamin Sanz, por exemplo, que organizou jam sessions de jazz no La Miroiterie, disse que ele não estava nem triste, nem nostálgico sobre o futuro da La Miroiterie.

"É simplesmente ao que lugares como este estão destinados ", disse.

Por Elvire Camus

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