Maitê Proença: "A velhice não é para covardes"

Por Luisa Girão , iG Rio de Janeiro |

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Atriz escreve, dirige e atua no espetáculo "À Beira do Abismo Me Cresceram Asas", em cartaz no Rio; reportagem do iG acompanhou os bastidores da peça

"Filtro pra quê? Voltei para a infância e falo o que me vem na cabeça. Para alguma coisa tem de servir a velhice." A frase é de Maitê Proença e reflete o que ela pensa. Mas a escaldada atriz, autora e diretora não precisa mais dizê-la para se expressar. Um personagem pode – e faz – isso por ela na peça "À Beira do Abismo Me Cresceram Asas", em cartaz no Rio.

“Quando escrevo, posso vasculhar lugares que temo chegar ao estar sendo observada por alguém. Já fui muito criticada pelas minhas opiniões. Saber ficar calada também é sabedoria. Isso é uma coisa que esta velha aqui tem de aprender: fechar o bico”, disse Maitê ao iG na última quinta-feira (14), em seu camarim no Teatro Leblon.

Maitê Proença nos bastidores da peça 'à Beira do Abismo Me Cresceram Asas'. Foto: Marlon Falcão/FotoarenaMaitê Proença nos bastidores da peça 'à Beira do Abismo Me Cresceram Asas'. Foto: Marlon Falcão/FotoarenaMaitê Proença e Clarisse Derziê, atrizes de 'à Beira do Abismo Me Cresceram Asas'. Foto: Marlon Falcão/FotoarenaMaitê Proença nos bastidores da peça 'à Beira do Abismo Me Cresceram Asas'. Foto: Marlon Falcão/FotoarenaMaitê Proença nos bastidores da peça 'à Beira do Abismo Me Cresceram Asas'. Foto: Marlon Falcão/FotoarenaMaitê Proença nos bastidores da peça 'à Beira do Abismo Me Cresceram Asas'. Foto: Marlon Falcão/FotoarenaA atriz Clarisse Derziê. Foto: Marlon Falcão/Fotoarena

Aos 55 anos, Maitê Proença gosta de deixar claro, no entanto, que um certo comedimento não é imobilismo. A atriz continua emitindo opiniões polêmicas e lutando pelo que quer. "Sou daquelas que não fica reclamando. Eu conserto. Não fico sentada vendo a vida passar e falando que a culpa é dos outros. Não quero ficar em casa vendo, na TV, um cara escalar o Himalaia, quero ser a pessoa que faz isso."

O texto de Maitê Proença em "À Beira do Abismo Me Cresceram Asas" tem como ponto de partida histórias reais colhidas pelo produtor teatral Fernando Duarte em diferentes asilos do Brasil. As lamúrias do final da vida são deixadas de lado e dão espaço para ideias e conceitos presentes hoje no pensamento da atriz, que estreia na direção ao lado de Clarisse Niskier. A atriz que divide o palco com Maitê, Clarisse Derzié Luz, elogia sua companheira de cena: “É ótima diretora, inteligente, tem muita sensibilidade. Mas, ao mesmo tempo, não esconde a ansiedade da autora e a insegurança natural de atriz".

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Maitê falou ao iG sobre a sua estreia na direção, comentou a relação com a filha Maria, de 22 anos, e revelou como lida com o envelhecimento: “A velhice não é para covardes”.

Marlon Falcão/Fotoarena
Maitê Proença escreveu o texto, dirige e atua na peça 'À Beira do Abismo Me Cresceram Asas'

iG: Por que você escolheu este texto para estrear na direção?
Maitê Proença: Na verdade, não escolhi. Aconteceu. Nem ia fazer como atriz, mas estava difícil conseguir patrocínio se fosse com outra pessoa interpretando. Então, fui me convencendo porque estava gostando do que saía do texto. Quando o dinheiro finalmente entrou, nós não tínhamos mais o diretor que havíamos escolhido. Então, propus a Clarisse Niskier que dirigíssemos esta peça. Achei que nós duas juntas, que temos pouca experiência no assunto, podíamos dar um caldo (risos). Uma podia cobrir as deficiências da outra. Não digo nem deficiência... É a observação mesmo. Porque a observação do diretor é diferente daquela do ator.

iG: Como separar os papeis?
Maitê Proença: É muito estranho, para mim, enxergar os limites entre atriz, diretora e escritora. A atriz tem de estar muito disponível e vulnerável para todas as experiências que precisam ser feitas. No teatro, tudo fica centrado no ator. É um desafio porque o público não sai de casa para ver aquilo que elas já conhecem. As pessoas querem ver a gente mexendo nos porões da alma, mostrando o que guardamos a sete chaves porque não são boas para o uso social. Já a diretora tem de estar muito controlada, não pode estar perdida dentro das suas emoções.

iG: Como assim?
Maitê Proença: Ela tem de estar completamente racional. A atriz e a diretora têm duas funções contrárias. É muito complicado conciliar e isso, às vezes, me dá uma certa loucura. E ainda tem a vertente autora, que fica olhando a atriz e a diretora e vai para casa para escrever o texto todo de novo. Tem diálogos que usamos, pela primeira vez, no dia da estreia. Sou inquieta e sinto necessidade disso. Fico controlando tudo porque, quando se tem o espetáculo na cabeça, você sabe o que precisa. Cada elemento dá a cara do espetáculo e tudo tem de estar em harmonia com a interpretação.

iG: Na sua última peça, "As Meninas", você escreveu o texto do ponto de vista de duas crianças. Agora, são duas senhoras octogenárias. Existe algum paralelo?
Maitê Proença: Não. Achei que este era um bom território para se falar das coisas que estavam passando pela minha cabeça e as considerações que fazemos da vida. Duas velhas podiam ser interessantes como personagens principais porque elas já percorreram uma vida toda. Então, dá para se falar sobre tudo e se tem autoridade para isto. E também porque velho não tem tempo a perder e não fica com cerimônias como uma pessoa da minha idade ainda tem. Elas não têm de agradar e nem seduzir ninguém. Podem falar o que bem entenderem.

iG: Você, aos 55 anos, também fala o que pensa...
Maitê Proença: Isso é uma coisa que esta velha aqui tem de aprender: fechar o bico. Talvez, quando eu chegue aos 80, eu não fale mais o que pense e, sim, omita. Nem sempre se deve falar tudo porque as pessoas não estão preparadas para ouvir. E não vale a pena você falar ao vento. Tem de colocar suas opiniões quando o terreno está preparado. Já fui muito criticada pelas minhas opiniões. Isso também é sabedoria: saber ficar calada.

iG: Nos seus livros e peças, realidade e ficção se misturam. Este é o seu caminho para contar sua história?
Maitê Proença: Sempre falo e escrevo do meu ponto de vista. Se não faço isso, estarei sendo superficial, falando o que o outro quer ouvir. Para conseguir alguma densidade, que seja minimamente interessante e verdadeira, tenho de partir da minha observação da vida. Por isso achei interessante falar do ponto de vista de duas velhinhas. Apesar de não estar ali ainda, sou uma pessoa que mantém os olhos abertos. Não sei o que é a urgência de uma pessoa que tem pouco tempo pela frente. Não sei como é você ter um monte de coisas que quer fazer e saber que não vai dar.

iG: Isso te angustia?
Maitê Proença: Não. Vou me preparando o melhor que posso. Espero ter saúde. Quebrei muitas coisas do meu corpo, então tudo dói. Tenho de tomar todos os cuidados do mundo. Por exemplo, quando ando, dói meu joelho e ombro. Só o passo dói. Subir a escada é uma desgraça. Descer é muito pior. Isso não vai melhorar porque o ortopedista disse que isso só tende a piorar (risos). Então, tenho de dar jeitos. Espero, quando chegar nessa idade, que eu não esteja muito imobilizada para ser ativa. Quero ser serena e calma. Isso é impossível. Talvez eu tenha de me drogar para isso (risos). Barbitúricos fortíssimos, quem sabe? Aqueles analgésicos que deixam a pessoa meio bobona.

iG: Mas aparentemente você dribla bem as limitações...
Maitê Proença: É, mas eu não paro. Faço de tudo: ando de bicicleta, nado, faço ginástica. Faço mesmo doendo, não ligo para dor. Sou daquelas que não ficam reclamando, eu conserto. Não fico sentada vendo a vida passar e falando que a culpa é dos outros. Se posso resolver, eu faço. Me ocupo. Não quero ficar em casa vendo um cara na TV escalar o Himalaia, eu quero ser a pessoa que faz isso. Isso é temperamento, acho que não vai mudar muito. E não quero ser tratada como criança.

iG: Criança?
Maitê Proença: Eu faço ginástica com várias velhinhas no Copacabana Palace. Um dia, eu vi um personal trainer que estava tratando um senhor como se tivesse dois anos. "Agora, vamos fazer um exerciciozinho... levanta a perninha...". Se eu fosse esse velhinho, teria dado um chute nesse cara. É meio indigno esse tratamento. Será que essa pessoa está gostando desse tratamento ou ele está praticando sua tolerância ao máximo? Eu nem sei o que faria se me tratassem assim.

iG: Esse momento de analisar a vida é comum quando os filhos estão ficando grandes e saindo de casa. Isso tem algo a ver com a Maria, sua filha de 22 anos?
Maitê Proença: Não, até porque minha relação com a Maria hoje é melhor e mais agradável do que já foi. Tem mais assunto, sabe? A gente tem valores parecidos e ela tem um senso de humor que eu aprecio. A gente sempre faz refeições juntas. Tem dias em que chego em casa e quero ir para a frente da televisão e ela fala: 'Ah, não. Vamos comer na mesa'.

iG: Geralmente acontece o contrário. A filha é que quer ficar vendo TV...
Maitê Proença: É, mas podia não ser. Se ela fosse uma menina desinteressada pelas coisas, sem nenhum objetivo na vida, não teria tanto prazer em conversar com ela. Não estou falando do amor e sim do prazer de dividir o tempo junto. Hoje temos mais afinidade. E eu não faço isso por obrigação, por ser mãe. Só porque é minha filha? Tenho orgulho e adoro ficar com ela. Troco programas só para passarmos uma tarde e batermos papo, por exemplo.

iG: O escritor Gabriel Garcia Marquez disse: "O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão". Concorda?
Maitê Proença: Como na velhice a gente vai ficando mais intransigente, às vezes você quer a solidão. É mais agradável ficar só do que em má companhia. Quando se tem 18 anos, não se acha isso. Mas com o passar do tempo você tem outro tipo de paciência: já viu todo mundo, já sabe o que gosta mesmo... Então, talvez a velhice seja um momento em que a gente escolhe mais e acaba, inevitavelmente, ficando cercada de menos coisas. A velhice não é para covardes.

iG: O que quer realizar até chegar aos 80?
Maitê Proença: Muitas coisas. Gostaria de dar a volta ao mundo de veleiro e também de transformar meu prédio inteiro em residências ecologicamente viáveis. Acho que é o mínimo que podemos fazer em um mundo que está sobrecarregado com a presença do homem. Também tenho projeto para o Vidigal, de hortas hidropônicas, mas isso é conversa para outra hora.

À Beira do Abismo Me Cresceram Asas
Temporada até 28 de abril
Teatro Leblon - sala Fernanda Montenegro (r. Conde Bernadotte, 26, Rio de Janeiro; tel: 21-2529-7700
de quinta a sabado, às 21h; domingo, às 20h
De R$ 60 a R$ 80

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