Artistas levaram dez dias para pintar a cúpula do local, em uma cidade perto de Barcelona

BBC

O grafite não é mais visto simplesmente como uma praga urbana, vide a valorização conseguida por obras de artistas como o britânico Banksy. Ainda assim, alguns locais ainda eram considerados inacessíveis para os grafiteiros. Um trabalho recente em uma igreja espanhola, porém, mostra que não há mais lugares sagrados para o grafite.

Trabalho de grafiteiros em igreja espanhola
House
Trabalho de grafiteiros em igreja espanhola

O grafiteiro espanhol Raúl Sanchez Araque, também conhecido como House, tem um portfólio variado sob seu nome - incluindo a pintura com spray da fachada de uma sex shop e vários trabalhos como grafiteiro de rua tradicional. Mas foi uma surpresa quando ele foi contatado por um padre da igreja Santa Eulalia, da cidade catalã de l'Hospitalet, perto de Barcelona. Será que ele e seu companheiro de grafite Rudi poderiam pintar uma igreja neo-românica? Especificamente, o teto da cúpula sobre o altar principal?

Como muitas igrejas catalãs, a decoração do interior da igreja é austera. As paredes são pintadas em cores discretas e as imagens de Jesus, da Virgem Maria e de santos são simples. Para compensar, o padre Ramón Borr decidiu tornar a cúpula principal um pouco mais atraente.

Orçamentos

"Apesar de a imprensa estar escandalizada com grafiteiros, para mim o grafite é apenas uma técnica artística como qualquer outra", diz Borr. Houve considerações práticas por trás da escolha também - vários orçamentos feitos por artistas tradicionais ficaram bem acima das capacidades financeiras da igreja. Ele estava um pouco receoso no início. "Eu disse que precisávamos de cores sóbrias", conta o padre. "Mas eles disseram: 'Olha, vamos tentar com cores vivas primeiro e se você não gostar, nós refazemos'."

Os dois artistas levaram dez dias e uma noite de trabalho frenético para terminar o trabalho em tempo para um casamento no local. O resultado é uma mistura espetacular de cores - azuis ricos, vermelhos brilhantes e verdes - na cúpula da igreja. Mas não pense em arte de rua. De fato, o estilo da pintura é fiel ao estilo românico, com representações estáticas e bidimensionais de Santa Eulália, da Virgem Maria e do menino Jesus.

"Eu disse a eles que não podiam começar antes de visitar um museu em Barcelona para estudar o estilo românico no qual eu estava interessado", disse Borr. "Então eles foram, estudaram e até pegaram alguns livros." Somente depois disso eles pegaram nos sprays para começar a trabalhar.

House, de 34 anos, trabalha em período integral como artista, elaborando uma mistura de trabalhos sob encomenda, pelos quais é pago, e o que chama de "grafites pessoais", espalhados pelos muros de Alicante, onde vive. Por conta dessa atividade, ele já foi preso várias vezes.

Trabalho personalizado

Quando o padre Borr o contratou, ele ficou surpreso, animado e nervoso. "Só um artista do grafite pode dizer que usamos latas de aerosol para fazer o trabalho", diz House. "Tentamos esconder isso. No período romano, tinta de spray obviamente não existia", observa. Não que House tenha atendido completamente os desejos do padre Borr. Quem olhar atentamente às figuras da congregação representadas no trabalho poderá ver uma mulher idosa passando um dedal a um jovem. A mulher é a avó de House, uma costureira que, segundo diz, foi curada milagrosamente de uma doença fatal na espinha nos anos 1950.

House diz não ser religioso no sentido tradicional, mas afirma que isso não importa. "Mesmo se você não acreditar em Deus, você pode acreditar na boa fá das pessoas", afirma. O padre Borr diz estar contente com o fato de que os artistas personalizaram o trabalho. E ele diz considerar contratar House, Rudi e suas tintas de spray para decorar mais partes da igreja, algumas das quais datam da Idade Média, e outras de 1957. Ele se diz disposto a fazer qualquer coisa que atraia mais gente. "Como o papa Bento 16 disse, a arte deveria atrair os fiéis", afirma.

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