Thiago Soares: "Abri mão da juventude para ser bailarino"

Por Luisa Girão , iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Em entrevista ao iG, primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres relembra sua trajetória e fala sobre a rotina intensa e a forte competição na dança

A história de Thiago Soares, primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres, poderia ser interpretada como um conto de fadas. Nascido em Niterói e criado em Vila Isabel, ele começou dançando hip hop e street dance. O balé surgiu por acaso, aos 15 anos, depois que um coreógrafo enxergou no corpo esguio e forte a elegância e leveza necessárias para a dança clássica.

De salto em salto, nasceu um bailarino – mistura de atleta, ator e contorcionista. A carreira profissional começou em 1998, quando Thiago ingressou no balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, aos 17 anos. A partir daí, o carioca teve uma trajetória relâmpago: medalha de prata no Concurso Internacional de Ballet de Paris, em 1998, e a primeira e única medalha de ouro do Brasil no Concurso Internacional de Dança do Teatro, em 2001.

Neste mesmo ano, ele ingressou no Bolshoi Ballet, um dos mais renomados do mundo, até chegar ao Royal Ballet de Londres, em 2002. Quatro anos depois, ganhou a honraria máxima: se tornou o primeiro bailarino. "É um honra poder liderar uma companhia desse calibre", afirma Thiago, em entrevista ao iG, nos bastidores do Theatro Municipal, onde se apresenta neste final de semana (entre 1º e 3 de março).

"Não aproveitei a adolescência"

Mas, como todo herói de contos de fadas, a trajetória de Thiago não foi tão fácil. Mesmo chegando ao estrelato em tão pouco tempo, o bailarino de 31 anos teve de abdicar de muitas coisas para viver seu sonho. "Abri mão da minha juventude. Saí do Brasil muito cedo e não aproveitei como a maioria dos jovens a adolescência. Enquanto meus amigos estavam na noitada, eu tinha de acordar cedo, cuidar do meu corpo e não podia beber muito. Mas, valeu a pena."

Por ser homem, Thiago também ouviu muitas brincadeiras dos amigos e colegas de sala de aula. "Hoje em dia, o preconceito relacionado com a sexualidade já passou. O que existe é com a profissão em si porque as pessoas não conhecem a indústria e acham que não dá para viver disso", diz ele, acrescentando: "Em todas as profissões ligadas à arte, não tem mais isso. Os homens estão ingressando no mercado, que era destinado apenas às mulheres, e elas têm ocupado cargos, que eram preenchidos por homens".

Dedicação e treinos intensos

Casado desde 2011 com a argentina Marianela Nuñes, que também ocupa o posto de primeira bailarina do Royal Ballet, Thiago diz que ter a mulher ao lado é uma troca, tanto no palco, quanto na vida. Em alguns momentos, ele diz que precisa conduzi-la para que ela brilhe em cena, e há os momentos nos quais ela precisa dar suporte para que ele sobressaia. "É muito bom ter a pessoa que você ama ao seu lado, te ajudando a crescer e dividindo a rotina."

O casal, aliás, trabalha todos os dias das 9h à meia-noite. "Faço três espetáculos por semana, o que exige muitas aulas e treinos. Tento manter minha cabeça aberta e ativa. Por isso, frequento galerias de arte, espetáculos e tudo o que me possa inspirar", diz Thiago, que leva as emoções para o palco. "Da sensibilidade à raiva. Gosto de usar todos os elementos do cotidiano na dança.".

Com essa rotina tão intensa e rígida, a competição é algo extremamente presente no balé. Em janeiro, por exemplo, o diretor artístico do Bolshoi, Sergei Filine, foi atacado com ácido, enquanto saía de um estacionamento." Sempre estou focado em tantos projetos, que não tenho tempo para pensar em novelas de competição. Se for algo saudável, dentro do palco, acho válido. Mas baixaria, como foi feito com o Serguei, é desnecessário e muito feio. Atrapalha todos nós."

Balé no Brasil

Sendo um dos principais expoentes do balé brasileiro, Thiago tenta ao máximo motivar jovens a seguirem o caminho da dança. É por isso que ele é padrinho do projeto Ballet Santa Teresa, no Rio, e quando vem ao país tentar dar aulas para crianças. "O incentivo ao balé no Brasil melhorou muito. O que pode ser feito, agora, é uma popularização da arte, que ainda é muito elitizada. É que nem futebol, que todos já nascem sabendo o que é e vê na TV... Precisamos dar acesso a todos", afirma.

Sobre voltar o Brasil, o bailarino desconversa. "No momento, não. Quem sabe no futuro ? Claro, que tenho interesse de criar algo meu aqui, talvez uma companhia. Mas estou vivendo um momento muito bom no Royal Ballet. É meu sonho se realizando."

Gala Royal Opera House
Dias 1º e 2 de março, às 20h, e 3 de março, às 16h
Theatro Municipal do Rio de Janeiro - Praça Floriano s/n° - Centro
Informações: (21) 2299-1711
Quanto: de R$ 25 a R$ 504

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