A canção que ajudou França e Alemanha a fazer as pazes

Por BBC Brasil |

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Música "Goettingen", de autoria da cantora francesa Barbara, foi sucesso nos dois países

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A reconciliação entre França e Alemanha após a Segunda Guerra Mundial foi oficializada por um tratado assinado em 1963. Muitos acreditam, no entanto, que uma canção gravada no ano seguinte foi tão importante quanto o documento para "quebrar o gelo" entre as duas nações.

Ao longo da história, muitas canções de sucesso contribuíram para disseminar mensagens transformadoras mundo afora. Mas quantas tiveram o poder de mudar o mundo? Para muitos, "Goettingen", hoje praticamente desconhecida, teve esse poder.

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A cantora Barbara, autora de 'Goettingen'

Há 50 anos, as vizinhas Alemanha e França ainda lutavam para superar as mágoas deixadas pela guerra. Após invadir a França, a Alemanha tinha sido expulsa, centímetro por centímetro, cidade por cidade, com sangue. Os alemães tentavam aceitar não apenas a derrota total, como também a dura realidade dos crimes que haviam cometido.

Vida atribulada

Nesse campo minado de ressentimento e rancor, pisou uma cantora magra e de voz macia. Seu nome artístico era Barbara. Ela havia nascido em Paris, em 1930, de família judia, e batizada Monique Serf. Por ser judia, tinha sofrido perseguições dos nazistas. No entanto, duas décadas após o final da guerra, Barbara viajou para a cidade de Goettingen, no coração da Alemanha, e se apaixonou. O resultado desse caso de amor foi uma canção homenageando a cidade e seu povo, gravada primeiro em francês e depois em alemão, a língua do antigo opressor.

Na letra, ela cantava para "Herman, Peter, Helga e Hans". Quem seriam? O ouvinte se pergunta. Seus amigos? Seus amantes? No teatro Goettingen, onde Barbara fez shows, a canção conquistou o coração da plateia alemã. Assim, a música virou sucesso. Ruas ganharam o nome de Barbara. E a cidade a premiou com uma medalha de honra. Tudo por causa de uma canção e seu "pedido, quieto e enfático, por compreensão".

Segundo os registros do prêmio, a popularidade da música "fez uma contribuição importante para a reconciliação franco-alemã". E como diz a letra, em tradução livre: "Mas crianças são as mesmas/ Em Paris ou Goettingen/ Que o tempo de sangue e ódio/ Nunca retorne/ Porque há pessoas que eu amo/ Em Goettingen, em Goettingen".

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A cantora francesa Barbara

Uma das pessoas na audiência era um estudante chamado Gerhard Schroeder. Mais tarde, chanceler da Alemanha, ele incluiu versos da canção em um discurso marcando o 40º aniversário do tratado de reconciliação. O discurso foi feito há dez anos. Schroeder disse: "Eu era estudante de doutorado em Goettingen quando ela veio cantar. Foi direto aos nossos corações, o início de uma maravilhosa amizade entre os nossos países".

Ouvindo a canção hoje, é fácil entender seu apelo. Continua irresistivelmente bonita, um tributo melancólico, cheio de amor e com um toque de tristeza. Barbara tinha razões para se sentir triste. Sofreu abuso sexual por parte do pai e passou grande parte da guerra fugindo dos nazistas.

A cantora e o general

No final da guerra, voltou para Paris e foi estudar canto e piano no Paris Conservatoire. Mas sua paixão era o cabaré e o trabalho de artistas como Edith Piaf e Jacques Brel. Sua carreira estourou no início da década de 60, com o show "Barbara chante Barbara" (Barbara canta Barbara). Em Paris, ruas também receberam o nome de Barbara. E selos postais traziam seu rosto.

Quando ela morreu, em 1997, 250 mil pessoas foram ao seu funeral. Mas glamour e showbusiness à parte, o que ficam são as canções. E entre elas, "Goettingen". Gravada logo após um histórico discurso, em setembro de 1962, do líder francês Charles de Gaulle na cidade alemã de Ludwigsburg - tido como um marco histórico na reconciliação entre as duas nações -, a canção singela teve, muitos diriam, efeito mais transformador do que o discurso do general.

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