Raízes e troncos de árvores transformados por Bia Doria

A artista brasileira busca em florestas de manejo sustentável a matéria-prima para produzir suas esculturas

Cíntia Esteves - Brasil Econômico | - Atualizada às

Reprodução
Escultura de Bia Doria

A arte de Bia Doria começa no meio da floresta. Em lugares remotos como o interior da Bahia, do Amazonas ou do Rio Grande do Sul, a artista busca raízes de árvores, as quais tenham condições de se transformar em esculturas. Sua próxima viagem, marcada para o início do ano que vem, será em busca de partes de braúna e terá como destino algumas cidades baianas.

O processo não é fácil. Bia precisa da companhia de pelo menos cinco ajudantes para retirar e carregar sua matéria-prima. “Aproveito raízes e troncos de árvores de florestas de manejo sustentável, além de resíduos encontrados nos fundos dos rios”, afirma a artista. Terminado o processo de busca, a equipe leva as peças em um caminhão as quais, depois, serão talhadas, lixadas, enceradas e polidas para, somente então, chegarem ao resultado final.

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O olhar para desenvolver formas foi aprimorado por Bia na época em que ela era designer de joias. Mas a arte delicada de lapidar pedras preciosas acabando perdendo espaço no ateliê da artista para a brutalidade das madeiras. A tarefa desafia seu próprio corpo. A força física exigida para manusear a madeira provoca dores frequentes. “Às vezes preciso parar por algumas semanas.”

Vários lados

Bia já teve diversas profissões. Foi jogadora de vôlei do clube Sogipa, de Porto Alegre, período no qual também trabalhou em uma agência bancária. Formou-se em educação física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e algum tempo depois resolveu estudar design em Milão. Quando voltou ao Brasil abriu um ateliê na cidade de São Paulo.

A opção pelo design de joias surgiu como complemento do mundo da moda com o qual estava envolvida. Foi nesta época que ela se casou com o empresário João Doria Júnior. Algum tempo depois abandonou a carreira para ter seus três filhos.

O trabalho em madeira foi uma espécie de retomada de suas origens. Nascida em Pinhalzinho, interior de Santa Catarina, o contato de a natureza fez parte de toda sua infância.

Logo que começou a fazer suas primeiras esculturas, Bia ouviu comentários de alguns amigos: “Nossa, parece um Krajcberg!”. Ela admite: não tinha ideia do que aquela palavra estranha significada. Só algum tempo depois é que tomou conhecimento do trabalho do escultor polonês, naturalizado brasileiro, Frans Krajcberg, hoje com 91 anos. Assim como Bia, o artista reconhecido internacionalmente também encontra na natureza a matéria-prima para suas esculturas. “Frans tem um estilo muito peculiar. Há uma certa revolta em sua arte”, diz Bia.

Bia realmente tem um estilo mais leve do que Krajcberg. Ela adora trabalhar temas florais. Também vale destacar uma série de esculturas chamada de Bailarinas. Formas e temas que se opõem ao estilo do artista polonês que adora fazer uso de madeira queimada, escura.

Os dois se conheceram há dez anos. Na ocasião, Bia ficou hospedada alguns dias no sítio do escultor, em Nova Viçosa (BA). “Ele ficou impressionado ao descobrir que uma mulher conseguia se dedicar a este tipo de técnica. Afinal, as raízes e troncos são pesados. Até então ele só tinha encontrado homens interessados neste tipo de arte.”

O processo

Após ser selecionada, a peça encontrada por Bia é colocada sobre uma placa. Com o apoio de uma lâmpada em ambiente fechado surgem sombras por cima do material as quais são marcadas e passam a servir de referência para a realização de alguns cortes. Assim, despontam os relevos que aos poucos vão dando as formas da escultura.

Mostras

Este mês a artista participou da exposição Art Basel Miami Beach 2012, nos Estados Unidos. Convidada pela galeria Gary Nader, do sul da Flórida, Bia levou para a mostra sua coleção de esculturas intitulada Labirinto. Ela também tem obras na galeria Sarah Stefan, de Munique, na Alemanha. Em São Paulo, suas peças podem ser vistas em sua galeria, no bairro Jardim Europa. “Estou preparando uma exposição na qual haverá esculturas abstratas em mármore”, diz. Este é outro material com o qual Bia gosta de trabalhar. “É comum vermos artistas esculpirem o corpo humano no mármore. Acho que vai ser interessante trabalhar com figuras abstratas.”

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